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O que foi falado sobre liderança feminina no Fórum Econômico Mundial

Por Rafael Carvalho

Segundo relatório da organização, levará 81 anos para atingirmos igualdade de gênero nas empresas, governos e organizações. O que pode ser feito?

O Fórum Econômico Mundial (FEM) identificou dez desafios globais, que devem pautar a agenda política e econômica em âmbito mundial nos próximos anos – igualdade de gênero figurava entre eles. O tema foi debatido na reunião anual da organização, que ocorreu em janeiro, na Suiça, e repercutiu a publicação de um relatório sobre as disparidades profissionais entre homens e mulheres, divulgado no ano anterior pelo FEM e que ranqueou 142 países segundo igualdade de gênero.  O Brasil ocupa a posição 71.

O objetivo do relatório é mapear e mensurar as disparidades de oportunidade e representatividade entre homens e mulheres ao redor do mundo, e a partir daí traçar estratégias para transformar esse cenário, além de acompanhar os resultados de políticas e medidas que vem sendo implementadas em diversos governos, empresas e organizações. Apesar de algumas conclusões otimistas, o documento demonstrou que, no ritmo atual do progresso em relação a paridade de gênero, levaremos mais 81 anos até que alcancemos a igualdade de que se fala.

A seguir, reunimos os melhores insights e comentários sobre igualdade de gênero e liderança feminina que surgiram durante o encontro do Fórum Econômico:

Dalia Grybauskaite, presidente da Lituânia

Nenhum país do mundo foi capaz de dimunir o abismo de gênero em participação econômica. As mulheres continuam com menos empregos, salários menores e menos representadas nas posições seniores e de gerência tanto no mundo dos negócios como da política. Isso resulta em um contínuo desperdício de talento humano e impede o crescimento econômico. A igualdade de gênero normalmente é vista como uma empreitada custosa. Mas já está na hora de reconhecermos que o custo da desigualdade é muito maior. E não podemos mais arcar com esse custo.

Christine Lagarde, diretora do Fundo Monetário Internacional (FMI)

Os homens são o outro sexo, mas não o sexo oposto. A paridade de gêneros é uma batalha que nós precisamos vencer juntos, porque é uma questão de interesse global. 

Acredito que as empresas, talvez, sejam o lugar onde essa disparidade de gêneros não está diminuindo. Percebemos uma situação estável, mas que não tem melhorado significativamente. Metade dos computadores, metade dos carros, e cerca de 70% dos produtos para casa nos Estados Unidos são comprados por mulheres. Se os seus clientes são mulheres, é melhor você ter certeza de que sua equipe e seu conselho incluam pelo menos essa proporção de mulheres. Acredito muito na ideia de que uma organização deve espelhar o seu público alvo. Para as empresas, acredito que esse é um argumento que faz bastante sentido.

Sheryl Sandberg, COO do Facebook

A discriminação responde por grande parte do problema da disparidade entre homens e mulheres. É interessante, porque eu vendi meu livro em diversos países, e as culturas são muito diferentes. Exceto no que diz respeito aos estereótipos de homens e mulheres. Em praticamente todo lugar do mundo acreditamos que os homens devem ser líderes assertivos e agressivos, e que as mulheres devem ser generosas e caridosas. Liderança é associado com as expectativas masculinas. Nós chamados meninas de ‘mandonas’, mas não fazemos o mesmo com meninos porque já é esperado que eles liderem. Há uma expressão negativa equivalente em todas as línguas de que eu tenho conhecimento. O que acontece então, é que quando as mulheres fazem as coisas que as tornam líderes, nós não gostamos delas, e portanto não as promovemos, não votamos nelas. Os preconceitos de gênero são uma parte crucial do problema.

Phumzile Mlambo-Ngcuka, diretora da ONU Mulheres

Para atingir a igualdade entre os gêneros, precisamos mobilizar não apenas parlamentares, mas populações. Não apenas a sociedade civil, mas toda a sociedade.

Makhtar Diop, vice-presidente do Banco Mundial para a África

Meninas saudáveis, educadas e com acesso igual a oportunidades tornam-se mulheres fortes e inteligentes, capazes de assumir papeis de liderança em seus países. A presidente Ellen Johnson Sirleaf, que está liderando a luta contra o Ebola na Libéria, é um exemplo. Em posições de liderança, mulheres também podem ajudar a desenvolver políticas que dão suporte a outras mulheres e meninas, e continuam a garantir a elas oportunidades de trabalho, educação e serviços de saúde. Em países como Ruanda e África do Sul, o aumento do número de mulheres legisladoras ajudou na conquista de avanços em leis que promovem a paridade de gêneros.

Melinda Gates, co-presidente da Fundação Bill e Melinda Gates

Eu tive esse grande privilégio de viajar por todo o mundo, incluindo os países em desenvolvimento. Eu pude perceber o papel central que a mulher desempenha nas sociedades. Se você investir em uma menina ou uma mulher, você está investindo em todas as outras pessoas, porque ela frequentemente é o centro da família. Se não fizermos isso, nós não liberamos esse potencial do que é possível fazer para toda uma família, comunidade ou sociedade. Se nós tivéssemos paridade de gênero na força produtiva da África, o Produto Interno Bruto dessas economias aumentaria 12% nos próximo 15 anos. No caso da Índia, por exemplo, aumentaria 10%. [Paridade de gênero] simplesmente faz sentido.

Erna Soldberg, primeira-ministra da Noruega

Eu sou do mundo da política, e nós, políticos, sempre buscamos algum tipo de argumentação sobre porque deveríamos investir em mulheres, quais são os efeitos disso. Mas na verdade eu penso que a explicação é muito simples: porque é justo. É um direito humano. Para mim, o curioso é exatamente que nós não estejamos fazendo isso. Deveríamos ter uma sociedade em que se investe o mesmo em meninos e meninas. Mas percebemos é que isso não é feito em muitos lugares. Jamais devemos parar de insistir que isso é uma questão básica de justiça, de direitos humanos.

Paul Polman, CEO da Unilever

(onde 40% das posições seniores são ocupadas por mulheres)

Um dos valores encontrados em muitas empresas é o respeito pelo indivíduo. Eu não acredito que seja possível criar uma organização de alta performance se não são todas as pessoas que têm a chance de atingir todo seu potencial. Em muitas organizações isso não acontece porque a ascensão das mulheres é limitada, ou elas não encontram as mesmas oportunidades.

Paul Kagame, presidente de Ruanda

Na reconstrução do país [após as guerras e genocídio dos anos 90] nós simplesmente precisávamos involver todas as pessoas. Sabíamos que as mulheres têm sido um grupo em desvantagem na nossa sociedade, por muitos anos e por diferentes razões. Nossa missão era mudar essa situação, mas também se beneficiar dessa mudança. 52% da nossa população é formada por mulheres. Estávamos resolvendo uma questão que dizia respeito a todos, e não fazia sentido deixá-las de fora desse processo. Assim, desde o início, nós mobilizamos a população e todos os partidos políticos para garantir que as mulheres estivessem bem representadas em todos os níveis. Nós estabelecemos uma cota de mulheres no parlamento para estimular as mulheres a se candidatarem, mas no final das contas percebemos que foram eleitas mais mulheres do que essas cotas estipulavam. Nós começamos com 30% e fomos além. Não se trata simplesmente de uma cota, mas de encorajar as mulheres a serem elas mesmas e garantir que elas possam ter participação, entendem? 

Laura Liswood, secretária geral do Council of Women World Leaders

Nós pudemos perceber ótimas mudanças, porém, de acordo com relatório do Fórum Econômico Mundial, levará mais 81 anos para que enfim alcancemos igualdade de gêneros. Então minha questão é: Quais são os reais aceleradores? Quais são os disruptores que vão criar, de verdade, a mudança dramática que nós precisamos? Isso inclui mais ideias criativas, homens engajados, uso de tecnologia, mas também nos livrar de certas ideias inconscientes sobre quem são as pessoas.

Beatriz Perez, CSO da Coca-Cola Company

As mulheres realizam dois terços do trabalho mundial, mas ganham somente 10% da renda. [As mulheres em situação de vulnerabilidade social] não precisam de mãos lhe escrevendo cheques ou entregando folhetos. Eles precisam de mãos ensinando habilidades de negócios que elas levam para o resto da vida, e compartilham com os outros. Elas precisam de acesso a crédito com taxas honestas, algumas vezes sem a necessidade de apresentar um histórico. Elas precisam de oportunidades, e treinamento e suporte para tirarem o máximo dessas oportunidades. Com isso, as mulheres podem liberar todo o seu potencial e alcançar seus sonhos. E quando uma mulher tem a possibilidade de alcançar seus sonhos, tudo é possível. Isso sim é diminuir a disparidade de gêneros.

Emma Watson, atriz e embaixadora da Organização das Nações Unidas (ONU) Mulheres

Eu fiquei impressionada com a quantidade de homens e mulheres que entraram em contato comigo depois do meu discurso na ONU para me motivar a seguir em frente [com a campanha #HeForShe], porque eles querem garantir que suas filhas ainda estarão vivas para ver um mundo em que as mulheres tenham paridade econômica e política. Se, por um lado, eu adoraria atribuir o sucesso da campanha a minha habilidade de fazer um bom discurso, eu sei que isso não é verdade. Tivemos sucesso porque encontramos um solo fértil. Acredito que nunca houve uma compreensão tão ampla de que as mulheres devem ser participantes igualitárias nos nossos lares, nas nossas sociedades, em nossos governos e em todos outros lugares, e sabemos que o mundo está sendo refreado em todos os sentidos porque elas ainda não o são. As mulheres compartilham metade do nosso planeta, mas continuam pouco representadas, com um enorme potencial que permanece inexplorado.

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