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Possível geração perdida? A preocupação com o futuro dos jovens no mercado de trabalho pós-pandemia

Por Tatyane Mendes

A questão foi levantada pelo diretor da OCDE Stefano Scarpetta ao constatar que os jovens foram os mais afetados pela pandemia em termos de trabalho. Especialistas brasileiros avaliam a possibilidade de haver uma "geração perdida".

Por causa da pandemia do coronavírus, mais de um em cada seis jovens do mundo precisaram deixar de trabalhar, de acordo com estimativas da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Além disso, entre os que mantiveram os trabalhos, 23% teve a jornada reduzida. Analisando esse cenário, existe o risco que os jovens atuais se tornem uma “geração perdida”, segundo avaliação do economista Stefano Scarpetta, diretor da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), em declaração à BBC News Brasil.

O temor de Scarpetta não é infundado. Segundo o relatório da OIT que trouxe os dados, os jovens estão sendo o grupo afetado com mais força por conta da crise. A organização analisa que os empregos dessa geração estão sendo destruídos, assim como as oportunidades de educação e desenvolvimento, o que aumenta os obstáculos dos novos profissionais que querem entrar no mercado ou fazer uma transição de carreira. Sem intervenção, isso pode gerar impactos negativos por décadas de acordo com o documento.

Em entrevista à BBC, o economista demonstrou a preocupação de que os jovens profissionais fiquem a mercê de posições precárias ou não consigam nem se inserir no mercado, o que causaria a geração perdida, segundo ele. Usando a situação do Japão na década de 90 como exemplo, Scarpetta aponta que os jovens não conseguiam bons trabalhos e recorriam a subempregos para sobreviver. Quando a situação econômica do país melhorou, o mercado preferiu contratar pessoas mais jovens, que não tinham passado pelos subempregos.

 

 

Mas ter uma geração perdida é uma possibilidade real?

Ainda que a falta de intervenção do governo e de empresas possa gerar um cenário caótico, especialistas brasileiros não acreditam que realmente haverá uma geração perdida de jovens no mercado de trabalho. VP de Educação Continuada da Ânima Educação, Guilherme Soárez enxerga que os jovens terão oportunidades para se desenvolver um novo ambiente pós-pandemia. “Mas eles precisam se preparar para essa nova realidade e ser mais protagonistas da própria trajetória. Estamos hoje vivendo a dor do parto do nascimento de um mundo novo. Mas ele chegou e precisamos lidar com esse novo contexto”, defende.

Trainer empresarial, especialista em gestão de pessoas e professora da HSM University, Andrea Martins observa que os jovens já enfrentavam dificuldades no mercado antes do coronavírus. “O que a pandemia fez foi apenas acentuar essa realidade. Mas se observarmos crises anteriores, como a de 2008 ou a grande depressão, sempre depois de momentos difíceis aparecem grandes descobertas e oportunidades. Vejo o cenário atual com uma perspectiva de reinvenção. Passamos por uma furacão necessário para colocar algumas coisas no lugar. Acredito que 2021 vai trazer muitas oportunidades e contratação”, prevê.

Denise Asnis, consultora em gestão de pessoas da plataforma de emprego Taqe, concorda com os colegas e conta com uma visão otimista do mercado. “Não acreditamos que haverá uma geração perdida. Antes da pandemia, esse grupo já representava o maior percentual de desempregados. Entendemos que com a crise, eles continuaram sendo os mais afetados. Por outro lado, temos visto um crescimento de jovens entrando na base e empresas querendo contratar. Desde julho, observamos esse processo inverso. Não vai ser fácil tudo isso, mas podemos criar novas formas de desenvolver oportunidades para esse público”, garante. 

Do que os jovens precisam para voltar ao mercado?

Ainda que o cenário futuro possa não ser tão negativo, o trio garante que os jovens profissionais precisam se desenvolver e adquirir novas habilidades para que de fato acabem não se tornando uma geração perdida. Entre as competências mais relevantes para o mercado do futuro, eles citam:

“Os jovens precisam saber procurar novas formações, modelos de trabalho e profissões que vão aparecer. Com isso, precisam aliar uma atitude de ser dono do próprio destino, não se conformar e entender que vão depender dos próprios esforços. O ambiente de trabalho será mais desafiador sim, e eles precisam estar prontos para lidar com isso. Se souberem resolver problemas, não vai faltar trabalho. E se conhecendo bem vão saber construir uma carreira com base em suas forças e trabalhar os pontos de melhoria”, indica Guilherme Soárez.

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Para Andrea, o que fará a diferença é uma mistura entre soft skills e empreendedorismo. “Os jovens estão buscando alternativas, criando e empreendendo. Mas eles precisam continuar se aprimorando. Entenda o momento que você está vivendo, onde quer chegar e faça um plano de carreira. O jovem precisa saber quais são as forças dele e o que ele pode fazer com isso agora. A palavra de ordem é iniciativa, então você precisa saber o que pode agregar para uma empresa que outras pessoas não. Precisamos sair da passividade”, pontua.

E o fato do mercado está se tornando cada vez mais tecnológico é uma vantagem para os jovens, de acordo com Denise. “Nesse momento, os jovens ganham porque eles já têm mais facilidade com essa linguagem, porque cresceram lidando com ela. As empresas precisam de pessoas que venham com uma visão mais atual da tecnologia, de linguagens mais ágeis e de comunicação. Essa é uma área com muito potencial para os jovens apostarem. O autoconhecimento também vai contribuir muito, principalmente na hora de se colocar em uma entrevista”, indica. 

Educação pode impedir que a geração perdida exista

Os especialistas também são unânimes em dizer que os jovens não devem parar de estudar em hipótese alguma. Guilherme aponta que se antes o mercado viva um momento VUCA (Volátil, Incerto, Complexo e Ambíguo), tudo está exponencialmente mais veloz. “É fundamental que os jovens não caiam na tentação de querer entrar logo no mercado e parar de estudar. O investimento na educação é o investimento de melhor retorno na sua carreira. O que eles devem fazer é buscar empresas de educação com vínculos com o mercado de trabalho, que ofereçam vivências e oportunidades reais. Acredito em uma recuperação já em 2021 e haverá oportunidades para quem estiver atualizado”, pondera.

De forma complementar, a docente Andrea afirma que o caminho para vencer no mercado vai ser através do conhecimento. “Por isso, investir na educação é fundamental. Busque cursos e se especialize. O próximo ano já vai trazer muitas oportunidades, mas também temos muitas pessoas procurando emprego. Invista em se tornar uma solução para as empresas porque se você não está resolvendo uma dor, você não vai durar muito. Quem aprender gestão de pessoas, mesmo não atuando especificamente na área, vai encontrar portas abertas. Não dá para se acomodar agora e ser passivo”, avalia.

Denise acrescenta que os jovens não devem parar de se desenvolver e aproveitar os conteúdos gratuitos disponíveis na internet. “Por mais que o jovem precisa de um emprego para se sustentar, é importante que ele não abra mão de se aprimorar e continuar buscando seus sonhos. Além disso, o trabalho também expõe essa pessoa a outras formas de aprendizagem que são também são valiosas, como lidar com conflitos, pessoas diferentes e críticas. Os jovens precisam aproveitar esse momento para se desenvolver da maneira que for possível”, reforça.

Expectativas para o mercado do futuro

Se haverá uma geração perdida ainda é uma questão incerta, mas algumas tendências devem continuar mesmo pós a pandemia. Entre elas estão a informalizarão e flexibilização do mercado de trabalho. Guilherme acredita que os profissionais se tornarão cada vez mais seus próprios empresários, emprestando serviços de forma fluída e contribuindo com algumas empresas simultaneamente como autônomo, ainda que esse processo seja lento. O home office deve continuar como modelo de trabalho para muitas companhias.

A tecnologia vai continuar sendo o grande motor do mercado, de acordo com Andrea. Por isso, os jovens profissionais precisam entender o que podem fazer em termos de tecnologia para gerar inovação dentro dos seus campos. “Todo mundo tem que saber um pouco disso. Como funciona a internet das coisas, CRM, entre tantas outras coisas que vão além do mundo das redes sociais. Entenda como isso pode ser uma solução para sua profissão, invista em ferramentas e venda isso como valor”, recomenda.

As transformações tecnológicas também estão no centro das tendências do mercado de trabalho, segundo a avaliação de Denise. “Esse é um mercado com muitas vagas e que ainda carece de profissionais qualificados. Falta gente com conhecimento no setor. Desde o desenvolvimento até o design, tudo ligado à tecnologia será tendência. Comunicação, informação e comércio, associados à tecnologia, também estarão muito em alta. Acredito que o segmento de saúde e alimentação também ganharão mais destaque pós-pandemia”, analisa.

 

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