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Profissão professor: por que este engenheiro trocou o campo pela docência

Por Tatyane Mendes

Chefe do departamento de engenharia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e membro da rede de líderes da Fundação Estudar, Dércio Santiago Júnior conta como fez a transição de carreira e quais são aspectos importantes da docência.

Formado em engenharia mecânica, Dércio Santiago da Silva Júnior é o atual chefe do departamento de engenharia industrial da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Mas atuar na área de educação nem sempre esteve nos planos do engenheiro. Membro da rede de líderes de alto impacto da Fundação Estudar, ele consta um pouco sobre como foi a transição da carreira na engenharia para começar a profissão de professor e formar os profissionais do futuro.

Profissão professor: entre idas e vindas

A relação de Dércio com a docência não seguiu uma linha linear. O engenheiro experimentou diversas atividades profissionais, alternando empregos entre as áreas de educação, engenharia, gestão e até mesmo saúde. “Quando eu estava terminando a faculdade de engenharia fiz o processo seletivo para fazer mestrado em administração na Universidade Federal do Rio de Janeiro. O curso acaba te encaminhando para o mundo da gerência. Nesse momento fiz a transição da engenharia para a gestão. Eu estava trabalhando na Petrobras nessa época, como nível médio. Mas não tinha interesse em continuar a carreira lá”, relata.

Loucos anos 20

Enquanto ele estava finalizando o mestrado, o então presidente do Brasil Fernando Henrique Cardoso sanciona a Lei nº 10.172, que determinava que, entre outras mudanças, pelo menos 30% dos professores universitários deveriam ser mestres ou doutores. “Nessa época, não haviam mestres e doutores o suficiente para atingir esse número no Brasil. Então, as universidades começaram a caçar professores, o que fez com que a remuneração aumentasse muito. Era melhor do que agora. Acabei na profissão de professor por acaso quase”, avalia.

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Dércio relembra que tinha um bom relacionamento com sua orientadora e foi isso que lhe rendeu uma oportunidade como professor. “Ela foi trabalhar no Instituto de Medicina Social da universidade, para cuidar da parte de gestão, e levou os orientandos junto, incluindo eu, já que éramos mestres. Comecei a dar aula na pós-graduação e cheguei a fazer doutorado em gestão de saúde. Mas quando terminei o doutorado, já não queria mais ficar na docência e voltei novamente para a gestão”, explica.

Durante seis anos, ele atuou como gerente na área de tecnologia da informação, ainda dentro de uma universidade. Mas quando abriu um concurso para trabalhar na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Dércio decidiu retomar a profissão de professor. “Comecei dando aula no departamento de administração por um ano. Depois, abri mão da docência novamente e fui gerenciar a parte de saúde da universidade junto ao diretor do setor, o que fiz por mais seis anos. Até que ano passado decidi voltar a dar aula, agora na área de engenharia. Dei uma volta enorme e voltei para onde comecei”, brinca.

Desafios de ser professor no Brasil

Para Dércio, o país oferece condições difíceis para quem quer seguir a profissão de professor. “Não existe uma valorização da docência. Pelo contrário, a ignorância é valorizada há muitos anos. A medida do FHC foi uma das que mais valorizou a profissão, mas não houve uma continuidade de iniciativas como essa. E com isso o valor da docência foi diminuindo novamente. A profissão acaba sendo algo complementar para quem tem uma carreira executiva ou técnica como principal ou uma possibilidade para quem não precisa de tanto dinheiro ou não tem outra alternativa”, critica.

Como consequência disso, o professor analisa que o Brasil está perdendo talentos da educação. “Quem está no começo da vida e termina um doutorado, por exemplo, enxerga que é mais vantajoso ser doutor na Europa, nos Estados Unidos, no Canadá ou na Austrália do que aqui. Com isso, perdemos muitos profissionais de qualidade. E quem fica, por questões familiares ou outros motivos, muitas vezes acaba insatisfeito com a própria situação, já que não encontra condições favoráveis”, pondera.

Apesar das dificuldades da profissão, o engenheiro afirma que uma das coisas que mais gosta em ser professor é aprender com seus alunos. “Em cada turma, você tem várias cabeças com ideias diferentes. Toda hora surge algo que você não tinha pensado antes, seja uma pergunta ou uma forma de enxergar uma questão. O que eu ganho de melhor em ser professor é a possibilidade de aprender pela criatividade dos outros. Quando você se dispõe a dar aula, você se dispõe a escutar o outro. Você não vai com uma solução pronta, você vai construir soluções em conjunto com outras pessoas”, analisa.

O que é preciso para seguir essa carreira?

Habilidades de comunicação são tão importantes para a profissão de professor como o conhecimento técnico, segundo Dércio. “Não adianta saber muito e não conseguir transmitir essa sabedoria para o aluno. Quem quer ser professor precisa ser capaz também de se atualizar e reaprender constantemente. Para isso, dar aulas não pode ser um bico, nem ocupar todo o tempo da pessoa porque ela precisa estudar. Além disso, tem que ser capaz de lidar com as tecnologias de comunicação porque elas vêm crescendo e seu uso deve se intensificar, ainda mais em um cenário pós-pandemia. A empatia também é fundamental”, pondera.

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Mas Dércio recomenda, para quem quer ser professor, experimentar o mercado de trabalho antes de ir se especializar com um mestrado, por exemplo. “Uma dificuldade grande que se tem dentro da docência são professores que não são capazes de fazer o que o trabalho propõe. Você coloca alguém para ensinar administração, mas não confia que ele consiga performar bem como gerente, por exemplo. Praticar a profissão é muito bom e ajuda até na hora de dar aula. E, como as pessoas se formam muito jovens, esse período permite o amadurecimento também”, avalia.

A experiência no mercado de trabalho também auxilia os professores a ensinar com exemplos da vida real. E, para Dércio, essa habilidade se torna cada vez mais importante com o aumento do ensino à distância. “Os próprios alunos às vezes têm muito conhecimento mas não conseguem traduzi-los na prática. Por isso, é tão importante essa conexão e saber transformar a teoria em realidade. E para fazer isso, você tem que ter estado no campo, no mercado. Você não pode ser um teórico puro”, garante.

 

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