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Como a pandemia do coronavírus deve impactar a educação do futuro

Por Tatyane Mendes

No Dia Internacional da Educação, o Na Prática convidou alguns especialistas em educação para fazer previsões e tentar entender como deve ficar o setor em um cenário pós coronavírus.

A data de 28 de abril foi escolhida como o Dia Internacional da Educação, em homenagem à realização do Fórum Mundial de Educação de Dakar. Apesar de não ser reconhecida pela Assembleia Geral das Nações Unidas, a comemoração foi adotada por diversas organizações que aproveitam o dia para repensar o setor e imaginar como deve ser a educação do futuro.

Em meio à pandemia do coronavírus, muitas instituições se deparam com os mesmos questionamentos, principalmente devido ao fechamento de escolas como medida protetiva contra a disseminação da doença. Para tentar entender como deve ficar a educação do futuro em um cenário pós-pandemia, o Na Prática convidou alguns especialistas em educação para fazer previsões para o setor.

A educação do futuro

Com o fechamento de escolas, universidades e outras organizações educacionais, estudantes se viram obrigados à recorrer à tecnologia para continuar seus estudos e muitos deles não estavam preparados para essa realidade. Aulas à distância se tornaram a única modalidade de ensino. É assim que deve ser a educação do futuro, mesmo depois do fim da pandemia do coronavírus? Não necessariamente, afirmam especialistas. Confira os principais insights sobre como deve ser a educação do futuro:

Atrasos no processo de aprendizagem

O Brasil já é um dos países com o pior desempenho na área de educação, segundo o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa, na sigla em inglês). E a interrupção nos estudos por conta do fechamento das instituições de ensino vai trazer ainda mais retrocesso para os estudantes, segundo Gerson Rodrigues, empreendedor especializado em educação.

“Crianças e jovens, da educação básica a superior, precisaram parar o que estavam fazendo. Isso por si só vai ter um efeito de quebra no ritmo de estudo, independente da idade. Sem falar no efeito psicológico que todos estão vivendo. Mas quem estuda enfrenta uma série de incertezas porque não sabem quando vão voltar, não sabem se vão perder o ano, se vão ter que complementar ou como vão fazer. O tom de incerteza é muito prejudicial e isso vai contribuir para atrasar o processo de aprendizagem e a educação do futuro”, afirma. 

PhD em educação e CEO da empresa de inovação na educação e impacto social Edufuturo, Rafael Parente avalia ser provável que haja um nível de aprendizagem menor em 2020, em comparação a anos anteriores. “Porque vai ser um ano letivo diferente e todo mundo ainda está se adaptando. Vamos ter que nos esforçar muito nos próximos anos para recuperar esse atraso. Existem algumas pesquisas norte-americanas que prevem que a perda de aprendizagem esse ano pode chegar a 50% em matemática, por exemplo. Nesse sentido, para mim o ideal seria não reprovar ninguém porque é uma situação atípica e no próximo ano implementar uma carga mais pesada com um processo de recuperação paralelo”, sugere.

Presencial vs. digital

O crescimento do ensino à distância tem sido positivo nesse momento, mas isso não quer dizer a necessidade e preferência pelas aulas presenciais vá diminuir depois da pandemia, concordam os especialistas. CEO da Trybe, escola voltada para as profissões digitais mais procuradas pelo mercado de trabalho, Matheus Goyas opina que o convívio social é uma parte importante da educação do futuro e que a digitalização viria mais como um complemento do que uma substituição. 

Gerson também acredita que haverá uma maior integração entre o presencial e o digital na educação do futuro. “As ferramentas digitais ajudam de certa forma para a gente não travar completamente. Mas por mais que a gente tenha hoje um ambiente com muita tecnologia, o contato presencial nunca vai deixar de existir. Nunca vai deixar de ser o mais importante. Depois que passar esse apocalipse, a gente vai conseguir integrar o presencial com as técnicas que de fato funcionam para o todo. Vai ser uma mistura do tradicional com a tecnologia”, complementa.

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A mesma visão é compartilhada pela doutora e professora-pesquisadora em administração da Universidade de Brasília Josivania Farias. “Acho que o ensino à distância vai ocupar um espaço maior do que ocupa hoje, ainda que sigamos com as salas presenciais e tudo mais. Meu desejo seria uma mescla entre os dois. Qualquer curso pode ser ofertado parte dele ou todo ele, por meio das plataformas mediadas pela tecnologia. Agora a proporção vai depender de cada curso”, divide.

Novas habilidades para a docência

Josivania garante que são totalmente diferentes a comunicação e a metodologia em aulas presenciais e à distância e os docentes ainda não estão totalmente preparados para essa nova realidade. “Na universidade pública, por exemplo, nem todos os professores estão capacitados para trabalhar com essas tecnologias. Então precisamos pensar em capacitação das escolas públicas e universidades. Pensar em como vamos migrar para esse mundo em termos tecnológicos e logísticos, quais os investimentos que as escolas têm que fazer e como capacitar o corpo docente. Porque o professor tem que aprender essa nova forma de ensinar”, enfatiza.

Ela aponta que a primeira competência essencial é aprender a lidar com as tecnologias de informação e comunicação. “O problema não é a oferta de tecnologia, o problema é preparar um webinar, saber usar essa plataforma, para fazer essa aula que será mediada pela tecnologia. Entender também que a EAD não é presencial, é outra lógica. Os professores que não atuam na área vão se sentir mais ansiosos e nervosos, mas tem de ser um esforço coordenado para que essa transição seja rápida e não traumática. É um desafio muito grande”, pondera.

Problemas sociais e políticas públicas

Além disso, é preciso levar em consideração as desigualdades socioeconômicas do Brasil ao pensar na educação do futuro, como aponta Josivania.  “O que eu vejo é as pessoas entendendo a tecnologia de informação como um paracetamol que resolve todas as dores e todos os males, e a gente sabe que não é assim. Não basta a gente ter aparatos tecnológicos – e olha que nem todos têm. A Pesquisa Nacional de Amostra Por Domicílio do IBGE mostra que 30% dos lares não têm acesso a internet. A gente está falando de muita gente”, evidencia. 

Matheus Goyas aponta que o cenário atual apenas evidenciou os grandes problemas que o país já enfrentava na educação. “Por exemplo, como deveria ter investido mais nos profissionais de educação, principalmente professores. Todos estão sendo desafiados para manter a rotina no ambiente digital dado que nem todos têm a mesma condição. É essencial investir mais na formação dos professores que já atuam e nos que estão se formando”, salienta.

Ele acredita que é preciso aumentar os investimentos em infraestrutura escolar. “O governo de alguma forma vai ter que oferecer essa educação e benefícios. Várias pessoas que tiveram que interromper seus estudos ficaram sem comer, é um reflexo do problema social. Precisamos de uma estrutura que realmente faça essa inclusão ser universal. Existem tantos problemas na educação básica brasileira que falar das tecnologias é uma quarta derivante, precisamos primeiro focar nas questões básicas e garantir a aprendizagem, a infraestrutura e a preparação dos professores”.

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Com todas essas questões e mudanças, Rafael Parente aponta que existe um risco grande de aumentar a desigualdade educacional do Brasil. “A gente tem quase como certo o aumento das desigualdades sociais no Brasil. A tentativa é a criação de um sistema semi estruturado de aprendizagem remota que a gente tenha uma parte de aulas digitais em uma plataforma, mas também aulas em um canal de televisão aberto, na rádio e apostilas impressas enviadas para as casas dos alunos com atividades”, explica. Ele ainda pondera que a melhor forma de acabar com as desigualdades sociais é investir em educação de qualidade para todos.

Em um mundo ideal, profissionais da educação conseguiriam visitar famílias para fornecer informações, buscar entender como ajudar jovens, levar material didático e até promover aulas comunitárias em grupos pequenos, afastados, que não tenham que ir para a escola, segundo Gerson. Já Josivania acredita que um bom primeiro passo seria oferecer wi-fi grátis para todos, podendo assim fazer com que todos os estudantes estejam conectados e tenham acesso ao conteúdo online, até que o distanciamento social não seja mais necessário.

E apesar da necessidade de investimento na educação do futuro, nem todos estão confiantes que essa será uma prioridade do governo. “As retiradas do investimento para a educação que já estavam correndo, já estavam tirando bastante coisa. Pela situação que a gente está vendo de política, a negligência, hoje eu não acho que essa vai ser uma prioridade para o próximo tempo, infelizmente. E isso vai ter impactos muito negativos no futuro, esbarrando até na força de trabalho do futuro”, avalia Gerson.

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