Um Projeto: Fundação Estudar
Edu Lyra, Ralf Toenjes e Joice Toyota

“A gente tem uma juventude muito rica e que está muito fortalecida no Brasil”, diz Joice Toyota

Por Nathalia Bustamante

Confira o papo entre Edu Lyra, Ralf Toenjes, Joice Toyota e Lara Lemann sobre empreendedorismo, impacto social e o poder transformador de uma juventude inquieta.

Joice Toyota é uma empreendedora que está transformando a gestão de estados e municípios brasileiros através do Vetor Brasil. Ela é Líder Estudar, assim como Ralf Toenjes, que fundou a ONG Renovatio ainda na faculdade e em 5 anos já doou mais de 50 mil pares de óculos em 19 estados do país.

Ralf foi reconhecido como um dos 30 brasileiros mais promissores com menos de 30 anos pela revista Forbes. Assim como Edu Lyra, que é fundador do Gerando Falcões, uma rede de ONGs que atua na transformação de periferias e favelas.

As histórias destes 3 jovens só reforçam nossa crença de que uma geração inquieta e preparada é capaz de transformar o país e sua própria realidade. 

Na conversa que se segue, os empreendedores são entrevistados por Lara Lemann, co-fundadora da Maya Capital, fundo que investe em negócios sociais.

 

 

Não pode ouvir agora? Então confira um trechinho do papo em que Edu Lyra, Ralf e Joice falam sobre como identificaram o problema que queriam resolver:

 

Lara Lemann:

Nós todos aqui somos empreendedores e na Maya a gente procura negócios altamente escaláveis porque a gente reconhece que negócios escaláveis normalmente estão solucionando algum problema grande. E no Brasil, como todos sabemos, existem infinitos problemas gigantes e consequentemente infinitas soluções. Então eu queria entender de vocês como vocês identificaram esses problemas e uma vez identificados esses problemas, como vocês os transformaram em soluções.

Joice Toyota:

Pra mim foi super direto ao ponto. Eu estava trabalhando do lado de dentro do governo, trabalhando na Secretaria de Educação, e já tinha trabalhado na Secretaria de Educação do Amazonas e depois na Secretaria de Educação do Goiás. E quando eu estava no Governo pra mim ficou muito claro a capacidade que a gente tinha de fazer mudanças, de realmente conseguir mudar coisas que tinham um impacto muito grande.

Normalmente quando a gente pensa no setor público, a gente pensa em corrupção, em ineficiência e burocracia e a gente pensa – eu não quero me associar a esse tipo de coisa porque eu quero um lugar em que meu trabalho possa ser mais relevante. E quando eu tava no Governo eu percebi que por menor que fossem as mudanças que a gente conseguisse fazer, essas mudanças iam impactar a vida de milhões de pessoas, e isso era muito gratificante.

Que a gente pudesse fazer a conexão entre quem tá a fim de ser a mudança (…) com as oportunidades que existem dentro do governo.

Eu fiquei muito maravilhada com isso, estava tentando formar meu time, contratar pessoas, e todo mundo com quem eu conversava falava “não, acho que o governo não vale a pena, não quero fazer isso, não sei se tá no meu momento”. E com isso eu comecei a perceber esse problema que era – ok, dentro do governo a gente pode trabalhar com impacto, com desafios realmente complexos, mas a nossa geração que está a fim de trabalhar com propósito e com desafios grandes não enxerga isso no governo. A gente deveria conseguir mudar isso.

Foi aí que eu comecei a entender que isso era um problema, junto com um amigo meu que também é Líder da Estudar – deve estar por aí, o Zé Fred, a gente começou a pensar em como a gente conseguiria mudar essa realidade e começamos a pensar em modelos, em formatos de programas em que a gente pudesse fazer a conexão entre quem tá a fim de ser a mudança. Não só quem tá a fim de reclamar – gente pra reclamar tem um monte, eu sempre falo, e não tem nenhum problema, pessoal, quem gosta de reclamar do governo na mesa do bar, tranquilo, eu também faço isso, mas vocês devem saber isso não vai mudar absolutamente nada.

Então a gente queria identificar quem está a fim de reclamar e também está a fim de fazer com as oportunidades que existem dentro do governo com pessoas que são sérias e estão a fim de fazer essas transformações. E aí a gente começou bem pequenininho, com um grupo de 12 pessoas no nosso primeiro ano de atuação, e hoje a gente já chegou em 400 pessoas em todos os estados do Brasil fazendo essa conexão para quem quer fazer a transformação do lado de dentro. 

Ralf Toenjes:

Eu estava na faculdade ainda – eu fiz direito na USP, economia e administração no Insper. Eu fiz os três cursos ao mesmo tempo – foi meio loucura, uma gestão de pauta eficiente – e eu pude estudar porque muita gente me ajudou. Eu tive bolsa do Insper, tive bolsa do meu colégio de Ensino Médio, que pagou um ano da minha faculdade porque eu não tinha condição, eu tive bolsa da Fundação Estudar. Eu eu pude estudar em escolas de excelência porque muita gente me ajudou, e aí eu queria retribuir isso de alguma forma.

E aí eu decidi que queria trabalhar com algo de impacto social. Nisso, eu fundei a Enactus na minha faculdade, no Insper, e eu ganhei um prêmio para participar do Mundial da Enactus no México. E lá eu conheci uma solução – eu conheci a solução primeiro do problema. Um alemão, que inventou uma máquina que produzia um óculos de grau cujo custo de produção era um dólar – é isso aqui. E ele inventou essa máquina e levou ela pra África, pro Nepal, Burkina Faso, Malawi. Ele ensinava essas pessoas a produzir, a tecnologia era bem simples, e fazia esses países terem acesso – as pessoas às vezes nem sabiam que óculos existiam.

O maior motivo de evasão escolar hoje é ligado à visão; existem 42 milhões de brasileiros que precisam de óculos e não sabem… A gente foi o primeiro médico de muita gente.

Eu vi isso lá, achei sensacional e falei “Nossa, será que falta óculos no Brasil?”. E eu voltei de lá com isso na cabeça, comecei a estudar o problema e aí eu vi que era mega relevante. O maior motivo de evasão escolar hoje é ligado à visão; existem 42 milhões de brasileiros que precisam de óculos e não sabem que precisam ainda… Eu peguei aquilo, entrei em contato com eles, trouxe para o Brasil muito na loucura – não sei como eles confiaram que um moleque na faculdade ia levar para o Brasil – e no começo, sendo bem sincero, era um projeto de faculdade.

A gente queria empreender aquilo, logo o negócio cresceu bastante, mas aí quando você entrega seu primeiro óculos… Tem histórias incríveis que a gente viu, a gente foi o primeiro médico de muita gente. Então a gente foi pra Amazônia, a gente pegou um ribeirinho com 6 graus de miopia que nunca usou óculos na vida. Ele subia o açaizeiro pra chegar lá em cima e ver se tinha açaí. Quando ele botou ele falou “Nossa”, e começou a chorar “eu não preciso mais subir”. Aí você vê o impacto de uma coisa tão simples quanto um par de óculos. Aí quando a gente viu aquilo eu falei – a gente pode fazer algo de escala e realmente mudar um cenário que eu nem conhecia. Em 2014 a gente começou e tem bastante história desde então.

Edu Lyra:

Você já foi na favela comigo duas vezes no presídio uma a Suzana também já foi e vocês viram de perto uma coisa que eu vou falar agora que muito que vocês conhecem. Um dia eu tava jogando futebol – lá na favela o sonho de todo moleque é virar jogador. Era 9:30, e a gente jogando bola, daqui a pouco começou um monte de barulho e a gente pensou que eram fogos porque o Corinthians ia jogar. Eu sou corintiano. Daqui a pouco começou um monte de gente a correr – na verdade não era do jogo do Corinthians, é porque tinham assassinado um amigo nosso, o Edson, com mais de 20 tiros. 

Eu fui crescendo vendo esse tema da violência, da falta de oportunidade, dos amigos morrendo, dos amigos indo para as drogas, dos amigos acessando o subemprego. E eu sempre fiquei me questionando por que tem que ser assim? Por que que o mundo tem que ser assim?

A Lara me ensinou uma coisa que me marcou muito. Ela disse, “Edu, na Suíça não tem favela. E depois eu volto para o Brasil que é a oitava economia do mundo mas que é tão desigual”. E você começa a se questionar – por que tem que ser assim?

Você pega o Marcola, o Fernandinho Beira-Mar, O Nem da Rocinha – todos esses caras que lideram o tráfico em alta escala um dia estiveram no banco da escola. Um dia estiveram na periferia – e a gente perdeu a oportunidade de fazer com que esses caras usassem o pleno potencial para ser um empreendedor. Como é o Mark, como é a Sofia [Esteves], como esse caras incríveis que estão aqui. E eu comecei a me questionar – não pode ser assim!

Quanto mais a gente permitir que entrem armas na favela, mais vão surgir traficantes. (…) Agora, quanto mais a gente colocar a tecnologia com wi-fi e professor para ensinar programação… Mais vai sair mais Bill Gates.

Então uma das coisas que a gente fez na favela foi criar uma garagem. Depois que eu comecei a sair da favela e andar um pouco mais eu descobri que as grandes coisas da humanidade vieram da garagem. A Microsoft nasceu na garagem, a Oracle veio da garagem. Aí eu falei: Por que que a gente não cria uma garagem dentro da favela? E eu já disse um monte de vezes que o próximo Bill Gates pode ser que saia da nossa garagem – seja um preto ou uma mulher.  

Então a minha visão é que eu cresci no problema e eu escapei. Com muita sorte eu escapuli e não segui o caminho do meu pai, não virei CEO de uma quadrilha. Virei o CEO da ONG. Então, eu acho que quanto mais a gente permitir que entrem armas na favela, mais vão surgir traficantes. Agora, quanto mais surgir programas como o Proa, que é extraordinário, quanto mais grafite a gente botar na favela, mais Os Gêmeos, quanto mais a gente colocar a tecnologia com wi-fi e professor para ensinar programação… Mais vai sair mais Bill Gates, mais gente extraordinária.

Então eu acho que a gente juntar a sociedade derrubando muros e construindo pontes e levando oportunidade e qualificação, a gente vai distribuir habilidade. E é só distribuindo habilidade para as pessoas que a gente elimina a desigualdade no Brasil. Então se você é líder, um lugar extraordinário para você liderar é na favela. Considere isso quando você for procurar um emprego.

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