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Por que você não precisa (e não deve) ser workaholic para ter sucesso

Por Tatyane Mendes

A diretora de comunicação Suênia Dantas se define como uma workaholic em recuperação. Ela explica que sua própria personalidade faz dela uma pessoa muito acelerada e que gosta de trazer as responsabilidades para si. Essas características, dentro do ambiente de trabalho, fizeram com que a comunicóloga se tornasse uma workaholic – algo como “viciado em trabalho” -, chegando a trabalhar até 18 horas por dia, de domingo a domingo.

“Minha carreira sempre foi a coisa mais importante para mim. Era o único aspecto da vida que desde criança eu tinha como meta ser bem-sucedida. E sempre gostei muito do que eu faço, então o prazer de trabalhar me dava energia. Juntando isso a minhas características de querer ser a pessoa que toma conta de tudo, eu entrei em um ritmo de trabalhar muito acelerado sem direito a descanso”, explica.

Isso se intensificou quando Suênia resolveu empreender e abrir a própria agência, a Prezz Comunicação. “Eu não tinha a muleta do chefe. Era responsável por tudo, então não me permitia parar com medo de fracassar. O mínimo que eu trabalhava era dez horas todos os dias da semana, sem direito a feriado, nem fim de semana”, revela.

O corpo reclama

Depois de mais de quinze anos em um ritmo intenso de trabalho, a executiva começou a sentir os efeitos da sobrecarga. Ela aponta que os primeiros sinais foram falha de memória, irritabilidade e imunidade baixa. “Eu comecei a ver que me tornei uma figura muito distante de mim, porque eu estava sempre irritada por conta do cansaço. Esse modo de ‘ataque’ me causou mais problemas do que me ajudou a resolver”, analisa.

Foi então que Suênia percebeu que não precisava fazer tudo sozinha, como ela mesma aponta. “Entendi que eu podia demandar e delegar, que um dos grandes méritos de você ter sucesso no seu negócio é justamente montar uma equipe na qual você tenha plena confiança de que a entrega vai ser feita”, conta.  

E os efeitos da mudança foram positivos, com 60% de melhora no rendimento da empresa. “Tanto minha vida pessoal, como o empreendimento só melhoraram. Quando sua vida está equilibrada, o trabalho funciona melhor. Uma mente descansada te torna mais criativo e te ajudar a pensar de forma mais clara. Percebi que não precisava daquela agonia e de pensar que só eu poderia resolver as demandas”.

Suênia ainda possui um lado workaholic, mas se esforça para não trabalhar mais de seis horas por dia, faz acompanhamento psicológico e tirar as manhãs para cuidar da saúde física.

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Trabalhar demais atrapalha a produtividade

O psicólogo organizacional Igor Barros concorda com a estratégia de Suênia de que o equilíbrio se traduz em mais eficiência. Ele caracteriza que os trabalhadores compulsivos são pessoas com um senso de competitividade, ganância e vaidade grandes e que muitas vezes se excedem por uma necessidade de sobrevivência.

Contudo, Igor afirma que esquecer o mundo externo e focar demasiadamente no ambiente trabalho de  pode ter consequências graves. “Geralmente, os workaholics extrapolam alguns limites trabalhistas, como mandar mensagem para o subordinado às duas horas da manhã, costumam ter dificuldade para se alimentar bem e dormir direito, possuem um índice de irritabilidade maior, ignoram o próprio bem-estar e não conseguem descansar a mente”, exemplifica.

Ele complementa que existe um índice muito alto de divórcios e processos de separação que são feitos por falta de dedicação à família, que geralmente ocorre pelo trabalho vir em primeiro lugar. Dentro do ambiente organizacional, Igor ainda analisa que ser workaholic não costuma ser positivo porque a pessoa tende a precisar refazer o trabalho diversas vezes por conta de lapsos de memória.

Mostrando um bom trabalho

O psicólogo aponta que quem trabalha demais geralmente é impaciente, intolerante e irritadiço. “São características muito agressivas para um ambiente onde as pessoas costumam passar a maior parte do tempo e esperam um pouco de compreensão e motivação. Pode acontecer também do workaholic ter espasmos de agressividade e gritar e xingar com os colegas”, avalia. Igor conclui que todo excesso é prejudicial e que é preciso manter o equilíbrio entre todos os aspectos da vida.

Coach ontológico, Flávio Resende afirma que definitivamente não é preciso ser workaholic para desenvolver um bom trabalho dentro da empresa. “Isso implica em ter habilidades técnicas e comportamentais que levem o indivíduo a atingir os resultados esperados. Capacidade de organização, compromisso com a qualidade do que se entrega, habilidade relacional para interagir com as pessoas e responsabilidade frente ao papel que desenvolve dentro da organização podem ser apontados como as principais características de um bom profissional”, aponta.

Ele ainda esclarece que muitos especialistas na área de recursos humanos já consideram os workaholics como um padrão comportamental de desequilíbrio que pode levar a futuros transtornos. “Acredito que um bom trabalho tem a ver com a inteireza do indivíduo no momento em que ele está no papel de profissional. A capacidade de entrega é perceptível (aos chefes e à organização) e o estabelecimento dos limites para si e para o outro evidencia uma maturidade que fará a diferença na vida da pessoa – seja pessoal ou profissionalmente”, finaliza.


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