Um Projeto: Fundação Estudar
empresas fundadas por mulheres

Mesmo recebendo menores investimentos, as empresas fundadas por mulheres dão mais lucro

Por Suria Barbosa

Estudo promovido pela consultoria estratégica BCG, em parceria com rede global de aceleradoras MassChallenge, revela que a desigualdade entre os gêneros no mundo dos negócios vai bem além do salário.

Neste ponto da história, a diferença salarial entre homens e mulheres é um fato bem conhecido e documentado. No entanto, menos conhecida é a diferença de investimento entre os gêneros. A consultoria estratégica global Boston Consulting Group (conhecida como BCG) realizou uma pesquisa que aprofunda no assunto e traz descobertas ainda mais desconcertantes sobre a desigualdade de gênero no mercado.

Uma delas, por exemplo, é que mesmo que as empresas fundadas por mulheres, no fim das contas, deem mais lucro, quando elas apresentam suas ideias para investidores recebem significativamente menos dinheiro – em média, cerca de 1 milhão de dólares – do que os homens.

Leia também: Nova pesquisa da McKinsey reafirma ligação entre diversidade e rentabilidade nas empresas

O estudo, realizado em parceria com a MassChallenge, rede global de aceleradora, tinha como objetivo analisar como as companhias abertas por mulheres diferem das que são criadas por homens. Confira esses e outros resultados.

A diferença (gender investment gap)

Reprodução Boston Consulting Group

 

Segundo a consultoria, há muita evidência de que organizações com mais mulheres na liderança têm performance melhor do que as que são dominadas por homens. No entanto, empresas de propriedade de mulheres não conseguem mesmo nível de apoio financeiro do que as fundadas por homens.

Aproximadamente 42% dos empreendimentos acelerados pela MassChallenge possuem pelo menos uma cofundadora. Da análise deles, que compreendeu cinco anos, o BCG descobriu que as empresas fundadas por mulheres (ou cofundadas) recebem, em média, 935 mil dólares de investimento. Apesar de uma quantia grande, é menos do que a metade do que as fundadas por homens recebem, cerca de 2,1 milhões de dólares.

Apesar dessa disparidade, startups fundadas e cofundadas por mulheres tiveram um desempenho melhor ao longo do tempo. Geraram 10% a mais em receita acumulada nos cinco anos: 730 mil dólares, em comparação com 662 mil dólares. Em termos de eficiência da transformação de investimento para lucro, as empresas fundadas por mulheres se saem significamente melhor. Para cada dólar de financiamento, elas geram 78 centavos, enquanto as outras geram 31 centavos.

Por que a disparidade?

Para investigar, os pesquisadores conversaram com fundadores, mentores de negócios e investidores – afiliados ou não com o MassChallenge. Das entrevistas, três explicações surgiram. A pesquisa não se debruçou sobre o preconceito que pode ser a causa raiz delas.

Mulheres são mais sujeitas a desafios

Mais mulheres disseram terem sido questionadas sobre conhecimentos tecnológicos básicos. E, frequentemente, os investidores presumiam que elas não sabiam sobre esse assunto – muitos demonstravam isso perguntando diretamente ao homem que acompanhava a apresentação.

Além disso, ao fazerem seus pitches, as mulheres hesitavam mais em responder diretamente às críticas. Se um possível financiador fazia comentários negativos sobre aspectos do discurso, em vez de discordarem e argumentarem, é mais provável que elas aceitem como um feedback legítimo.

Mulheres fazem menos projeções ousadas

Homens que abrem negócios são mais propensos a fazerem projeções e suposições ousadas nos seus pitches. Em contraste, as mulheres são geralmente mais conservadoras nas suas previsões.

Menos familiaridade com os produtos e serviços

De acordo com o estudo, investidores homens alegam menos familiaridade com produtos e serviços de negócios fundados por mulheres que são direcionados a outras mulheres. Segundo dados do Crunchbase, que rastreia investimentos, 92% dos sócios das principais investidoras dos Estados Unidos são homens.

Muitas das entrevistadas afirmaram que as suas ofertas de serviço ou produto – em categorias como cuidados infantis ou beleza – haviam sido criadas com base em experiência pessoal e que tinham lutado para que os investidores do sexo masculino compreendessem a necessidade ou vissem o potencial valor das suas ideias.

Recomendações com base na pesquisa

A partir dos resultados do estudo, o BCG definiu recomendações para três grupos de agentes envolvidos no contexto.

Para venture capitalists e outros investidores

“As pessoas que escrevem os cheques têm o maior poder para fazer mudanças”, diz a consultoria.

Companhias de venture capital e outras investidoras precisam estar cientes dos vieses presentes e agir de acordo. Por exemplo, evitar investir apenas em produtos, serviços e pessoas que lhes são familiares.

E também é importante incluir mulheres nos processos de decisões, o que pode significar resolução de problemas mais criativa e ajudar a ampliar a lente de possíveis investimentos.

Além disso, os investidores precisam entender que as forças de mercado atuais fazem com que as empresas fundadas por mulheres configuram oportunidades ainda mais promissoras. Em suma, a falta de financiamento significa que há menos concorrência para as empresas apoiadas por mulheres, e essas empresas, em média, apresentam um desempenho melhor.

Para aceleradoras

As aceleradores e outras organizações que desenvolvem startups também têm um papel significativo a desempenhar para acabar com o gender investment gap. Primeiro, é necessário garantir um equilíbrio entre aplicantes e, para isso, precisam recrutar mulheres empreendedoras.

Adicionalmente, as aceleradoras devem ter número suficiente de mulheres especialistas em todas as indústrias que abarcam, e que elas possam atuar como modelos e mentoras.

Por fim, o BCG aponta a importância das aceleradoras compartilharem dados sobre empresas fundadas por mulheres e se tornarem defensores em toda a comunidade de investidores.

Para mulheres empreendedoras

“O atual sistema de financiamento para startups coloca as mulheres em clara desvantagem, mas no curto prazo, a realidade é que as empreendedoras devem trabalhar dentro do sistema falho”, afirma a consultoria global BCG.

Para esse fim, é aconselhado utilizar descobertas (como as do BCG) para fortalecer sua abordagem, além de procurar coachs – idealmente, com experiência em venture capital.

Durante as apresentações, as empreendedoras devem pedir mais vezes por investimentos maiores e evitar diminuírem o valor de sua ideia. “Não é preciso se gabar, mas elas precisam se concentrar em enfatizar os aspectos positivos”, explicam os consultores autores do estudo.

E, por último, mulheres empreendedoras e investidores devem estar cientes de quais venture capitalists são lideradas por mulheres ou têm um forte histórico de investimento em mulheres. Essas empresas não devem ser a única opção, mas podem ser priorizadas.

O que achou do post? Deixe um comentário ou marque seu amigo