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Luana Genot

Luana Génot: “Existe uma opressão coletiva e histórica em pessoas negras e precisamos levantar nossas vozes”

Por Tatyane Mendes

Fundadora do Instituto Identidades do Brasil e ativista da igualdade racial, Luana explica as dinâmicas de opressão a profissionais negros no mercado de trabalho e como é possível melhorar esse sistema.

Questionadora desde criança, Luana Génot percebeu ainda jovem que existia uma opressão sistemática e coletiva contra pessoas negras na sociedade. Vivendo a dor dessa realidade na pele, ela criou o Instituto Identidades do Brasil (ID_BR), organização que busca reduzir a desigualdade racial no mercado de trabalho. Comprometida com a missão, a executiva compartilha vivências e conselhos sobre como se posicionar enquanto profissional negro e como empresas podem promover a igualdade racial.

Igualdade racial como propósito de vida

No processo de descobrir qual era seu propósito, Luana Génot se questionou bastante sobre como melhor aproveitar seus talentos e qual seria a melhor oportunidade para aplicá-los. “Durante toda minha vida, refleti bastante sobre essas questões e minha própria existência. Acho que isso se deve muito ao fato de eu ser filha única e enxergar que minha mãe sempre fez um grande esforço para que eu tivesse as melhores oportunidades. Sempre estudei em escola particular e eu era uma das únicas meninas negras, de pele escura, nas salas de aula. Aquilo já me dava um destaque que eu não necessariamente pedi para ter. Eu já carregava o peso de uma representatividade desde pequena dentro de uma esfera de racismo institucional”, analisa.

Determinada em ser motivo de orgulho para a mãe, a jovem se destacava academicamente entre os colegas. “Na minha cabeça, eu precisava ser a melhor possível para fazer valer todo o esforço da minha família. Então, eu sempre dava o máximo de mim. Me coloquei para ler e escrever muito. Tinha um processo catártico muito forte. Isso fez com que eu me destacasse como aluna. Óbvio que quando eu conto essa narrativa, parece algo muito meritocrático, que eu me esforcei e me destaquei. Isso em tese é algo legal, mas não deixa de fazer parte de um processo violento contra pessoas negras”, indica.

 

 

A violência desse método é que Luana Génot precisava trabalhar para fazer o dobro ou o triplo do que os demais colegas, simplesmente pela cor de sua pele. “A gente precisa mudar isso para que as crianças negras não se vejam responsabilizadas porque elas estão dentro de uma estrutura racista em que precisam performar muito mais justamente para não serem subjugadas. Mais tarde, quando eu entendi esse processo todo, vi que não era da minha cabeça e que não era só eu vivendo esse tipo de violência simbólica. São milhões e mais milhões de pessoas no Brasil e no mundo. Foi nesse momento que eu entendi que precisava levantar minha voz para esse propósito e que as coisas não podiam continuar a ser desse jeito”, revela.

Observando sua trajetória pessoal, a jovem entendeu que essa era uma vivência coletiva de pessoas negras e que era preciso, de alguma forma, fazer com que esse grupo tivesse mais oportunidades e meios de se destacar, sem ser pela opressão. “O processo de descoberta do propósito foi muito a partir do entendimento de que existia uma opressão coletiva em cima de pessoas negras, que ela é histórica e que a gente precisa levantar as vozes a respeito disso. Acredito que todo mundo ganhe quando os negros conseguem se desenvolver a partir de seus talentos, não sendo apenas um efeito colateral desse sistema”, opina.

Decidida a trabalhar com a promoção da igualdade racial, Luana Génot se encontrou na comunicação e optou por estudar publicidade e propaganda na PUC-Rio. Durante a graduação, ela foi bolsista do extinto programa Ciências Sem Fronteiras na Universidade de Wisconsin – Madison, onde se especializou em pesquisa na área de raça, etnia e mídia. Na mesma época, foi voluntária na campanha eleitoral do ex-presidente dos Estados Unidos Barack Obama, atraída pela pauta da representatividade. Posteriormente, fez mestrado em Relações Étnico-Raciais pelo CEFET-RJ.

“Depois fui trabalhar em uma agência de publicidade que tinha um discurso bastante alinhado com essa questão. Fui trilhando minha carreira profissionalmente dentro daquilo que eu considerava que também era meu propósito de vida: a promoção da igualdade. O nascimento do Instituto Identidades do Brasil vem a partir desse olhar, de uma trajetória na qual eu entendo que existe uma opressão sistemática e coletiva e que posso usar minha voz, não só como individuo mas para chamar outras pessoas para coletivamente levantarem suas vozes, e ativamente ajudar na mudança dessa estrutura no seu dia a dia”, esclarece.

O reconhecimento da pessoa negra

Luana Génot entendeu muito cedo os desafios que enfrentaria por ser negra. Aos 18 anos, quando trabalhava como modelo, chegou a ouvir que a cor de sua pele era um problema. “Um booker, profissional que seleciona novas modelos para agências, disse para mim: você é muito bonita, mas tem tem um problema que é ser negra. Questionei ele sobre isso e ele me explicou estruturalmente como funcionava. Mostrou uma parede com 300 pessoas que compunham o casting daquela agência e só tinham 3 negras. Eu entendi que aquilo não era só no mundo da moda, mas no mundo do trabalho de forma geral”, revela.

A comunicóloga explica que quando se fala em distribuição de cargos, sobretudo posições de liderança e destaque, trata-se de profissões com cor definida. “É um número ainda muito tímido de profissionais negros em cargos de liderança, sobretudo em países fora do continente africano. Logo entendi que existe um problema estrutural e histórico, de um mundo pós colonização onde os negros foram escravizados e colocados à margem de oportunidades em diversas partes do mundo. Esse é um capitulo de certa forma recente na nossa historia e é uma questão que precisa entrar em pauta porque, se a gente não mexer nisso, o mundo vai continuar sendo desenvolvido parcialmente”, examina.

Por serem problemas grandes, as pessoas podem ter dificuldade em enxergar como podem contribuir com soluções, conforme percebe Luana Génot, mas ela indica que cada indivíduo deve analisar como pode ajudar dentro da sua realidade. “Olhe para si mesmo, sua profissão, sua família e comece a pontuar ali algumas ações que você pode implementar no seu dia a dia, como ler mais autores negros, comprar de pessoas negras ou contratar pessoas negras se você tiver uma empresa. É importante transformar um pouco dessa culpa que a gente pode ter em responsabilidade e entender o que pode ser feito para desmantelar essa estrutura, ainda que seja no meu círculo pessoal. Se cada um fizer sua parte, a gente consegue mudar a história daqui para frente”, defende.

A questão das cotas e a presença negra no mercado

O mercado de trabalho costuma ter aversão às costas raciais, de acordo com a executiva, mas essa pode ser uma prática positiva para reduzir a desigualdade racial. “Cota é um termo que basicamente significa uma medida de correção de desigualdade. Então, se a empresa tem uma cota para corrigir uma desigualdade histórica, ela está fazendo o que é certo e o que está na lei. O mundo corporativo usa isso de uma forma muito vulgar e banal mas cumprir cota deveria ser uma obrigação. A questão é que, mais do que cumprir a cota, a empresa deve se preocupar em desenvolver os profissionais porque a gente entende que não foi todo mundo que teve uma educação racial, antimachista ou antitransfóbica. Então, as organizações também têm esse papel educador”, observa.

Luana Génot sinaliza que isso é essencial para criar um ambiente no qual as pessoas não só se sintam convidadas a entrar, mas a se desenvolver. “As empresas precisam subverter essa aversão a cotas em relação à questão racial. Precisamos sim ter metas e objetivos específicos. Tem que ter intencionalidade na questão da igualdade racial, isso é de direito. E isso deve ocorrer de maneira transversal, não só para contratação mas para o desenvolvimento e treinamento de pessoas. Não adianta achar que tudo vai acontecer organicamente de graça. Tem que investir no assunto”, reforça.

Como conselho para jovens profissionais, ela sugere buscar o máximo de letramento possível. “Hoje em dia, existem vários conteúdos de fácil acesso para ajudar os jovens a identificarem empresas que tem práticas mais inclusivas. Procure saber quem está olhando de maneira mais intencional para você. É uma forma inteligente de criar um novo filtro de onde direcionar a carreira. Busque saber como estão se dando as dinâmicas de raça e gênero no mercado de trabalho. Saiba que esse discurso meritocrático não é real porque a gente não sai do mesmo lugar do que as outras pessoas. Essa ideia que diz ‘se você trabalhar, vai conseguir ou todo mundo que trabalha, consegue’ é falaciosa porque a gente não sai do mesmo lugar”, ressalta.

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A especialista indica que é importante levar essa informação aos jovens para que eles se sintam menos culpados ou incapazes. “É comum que os negros se sintam inferiores, mas o que acontecem é que eles recebem menos investimento ao longo da vida, e isso não inclui apenas uma questão financeira. Eles precisam se fortalecer por outros caminhos, como entender por exemplo que desenvolveram mais soft skills ao longo da vida, como ser resiliente e criativo. Talvez o mercado não esteja olhando para isso como deveria, mas eles podem procurar empresas que vão valorizar isso”, indica.

Luana Génot espera que as próximas gerações não precisem desenvolver as mesmas habilidades que a população negra atual teve que desenvolver. “A gente não quer ser resiliente e forte para sempre, queremos desenvolver tantas outras competências a partir de mais igualdade de oportunidades que sistematicamente a gente pode criar. É para isso que eu luto, para que as próximas gerações não precisem empreender os mesmos esforços para entrar no mercado de trabalho e se desenvolver, que isso seja mais fluido. Isso vai acontecer graças a uma intencionalidade atual que a gente está tendo de olhar para esses assuntos”, pondera.

Contudo, ela percebe que ganhar menos e ter menos oportunidades é a realidade atual do profissional negro. Conhecer isso dá mais argumento para os negros se valorizarem no mercado, questionarem o empregador e a cadeira de valores. “Se você conhece esse contexto, entende que a falta de valorização não tem a ver com falta de competência, porque muitas vezes jogam isso para nós. É preciso questionar essa estrutura. Os movimentos antirracistas estão ajudando as pessoas a terem noção de que é possível levantar a voz contra essas desigualdades estruturais. Ainda estamos em uma fase de tomar consciência, mas é um passo muito importante de questionar o que achávamos que era normal e mostrar que não é, que faz parte do racismo institucional e são micro agressões que a gente sofre no dia a dia”, pontua.

Conselhos para jovens profissionais

Para Luana Génot, buscar o autoconhecimento é extremamente importante para o profissional entender o que é capaz de fazer melhor. “Para isso, é preciso se ouvir e ouvir outros que estão à sua volta. Testes vocacionais ajudam com alguns indícios também. Às vezes, negligenciamos o autoconhecimento e vamos no piloto automático. Isso pode nos levar a frustrações. É fundamental se perguntar sempre para onde está indo. Assim, você direciona seu caminho e tenta trilhar algo que te faça brilhar os olhos. Busque o que te faz especial e te diferencia das outras pessoas”, sugere.

Além disso, ela aponta que é importante ter como referências profissionais negros de diversas esferas. “Ter essas pessoas em redes sociais mostrando sua vida e falando do seu trabalho é uma forma de criar referências. É super válido, mas ainda é preciso levar em conta que nem todo mundo vai ter acesso à internet ou saber como acessar essa informação. Contudo, gostos são construídos, por isso precisamos questionar quais questões vamos fomentar para as próximas gerações e entender que se a gente conseguir construir novas referências educacionais, certamente vamos ter negros e mulheres que vão ter a possibilidade de construir sua vida profissional a partir dessas referências, que atualmente são mais escassas”.

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