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Barbara Ramos trabalhar com pesquisas - trab

Como é trabalhar com pesquisa fora da área acadêmica, de acordo com pesquisadora do Centro de Comércio Internacional

Por Tatyane Mendes

Chefe do setor de pesquisa e estratégias de exportação do Centro de Comércio Internacional, Barbara Ramos compartilha como traçou uma carreira que mistura atuação técnica e pesquisa dentro de relações internacionais e como é ser pesquisadora fora da academia.

Chefe do setor de pesquisa e estratégias de exportação do Centro de Comércio Internacional, organização conjunta da Organização Mundial do Comércio e das Nações Unidas, Barbara Ramos conseguiu consolidar uma carreira que combina trabalhar com pesquisa, mas com uma atuação mais técnica de relações internacionais, criando projetos de desenvolvimento econômico. Membro da rede de líderes da Fundação Estudar, a doutora em comércio internacional compartilha como é possível agregar pesquisa e campo dentro da profissão.

O interesse por trabalhar com pesquisa

Formada em relações internacionais, Barbara afirma que sempre gostou muito de estudar e pesquisar. “Eu era uma criança muito curiosa. Queria não só entender as coisas como explicá-las também. Então, essa afinidade com a pesquisa foi algo muito natural para mim por conta da minha personalidade. Na faculdade, tive a oportunidade de participar de um programa especial de treinamento que selecionava um pequeno grupo de estudante para se dedicar à pesquisa. Foi assim que comecei a me envolver na área de fato”, revela.

No Programa Especial de Treinamento (PET), a jovem teve um tutor que a inspirou a se dedicar mais ao campo e futuramente trabalhar com pesquisa. “Durante a vida, você acaba encontrando pessoas que moldam sua trajetória. Ele me expôs ao mundo da pesquisa científica, mas com um viés de aplicação prática. Não ficávamos fechados em uma sala calculando números. Trabalhamos com o poder da pesquisa como um instrumento para moldar políticas públicas. Fiquei fascinada por esse mundo”, relembra.

A internacionalista aponta que muitas pessoas acreditam que as universidades brasileiras não fomentam pesquisa, mas foi sua vivência na faculdade que moldou sua afinidade com a área. “É interessante isso por ser uma luta constante das universidades. Minha experiência talvez seja algo incomum porque eu fui bastante exposta à pesquisa, assim como sua aplicação prática. Mas é algo em que o Brasil precisa investir mais. Mesmo na minha época, menos de 2% dos estudantes conseguiam participar de um programa de pesquisa. Para mim, essa oportunidade foi muito importante e a pesquisa deveria ser mais incentivada no Brasil”, opina.

Ida para o mestrado e doutorado

Depois de formada e tendo seu primeiro contato com a pesquisa na faculdade, Barbara percebeu que precisava estudar mais e se especializar. Por isso, ela entrou em uma programa de mestrado em relações internacionais com foco em desenvolvimento econômico e comércio internacional na universidade norte-americana Tufts, que abriga a mais antiga escola de relações internacionais do país, a Fletcher School.

“A decisão do mestrado sempre esteve na minha cabeça porque relações internacionais é uma área que não é nova, mas também não é tão tradicional. A formação é muito generalista, então você tem que continuar sua trajetória educacional e se especializar. Por isso, o mestrado foi uma continuidade natural da faculdade. Eu sabia que queria ir para área de desenvolvimento econômico, mas saí da faculdade com um conhecimento amplo em muita coisa, mas pouco aprofundado”, analisa.

Depois dos dois anos de mestrado, Barbara se voltou para o mercado de trabalho mas não abriu mão de trabalhar com pesquisa. Ela afirma que a experiência foi extremamente importante para que ela conquistasse posições na área de desenvolvimento internacional. A jovem se mudou para a Tunísia para trabalhar em projetos de desenvolvimento no Banco Africano de Desenvolvimento.

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Mas logo ela percebeu que para crescer no segmento, principalmente sendo mulher, precisaria de um doutorado. Barbara fez doutorado em comércio internacional também na Universidade Tufts, onde recebeu um prêmio da Fundação Horowitz para pesquisa em política social. “São poucos os pesquisadores internacionais que conseguem abrir espaço sem ter doutorado. É quase um pré-requisito. Tanto o mestrado como o doutorado eram coisas que sempre quis fazer e gostei, mas também eram uma necessidade para poder continuar na área que escolhi”, reforça.

Já doutora, Barbara viu sua carreira decolar. Ela trabalhou como consultora até receber uma oferta para trabalhar em Genebra, baseada no Fórum Econômico Mundial. “Foi uma carreira que foi de um lado para o outro mas sempre focada em trabalhar com pesquisa em desenvolvimento econômico e comércio intencional. Eu diria que sou uma acadêmica híbrida. Minha carreira é voltada para a área acadêmica mas eu não estou no ambiente universitário, mas sim dentro de organizações internacionais fazendo pesquisa para embasar projetos”, esclarece.

Academia versus o mercado

Barbara afirma que a oposição entre escolher uma carreira acadêmica ou técnica foi uma das grandes questões da sua vida, mas ela percebeu que não necessariamente elas precisam ser coisas distintas. “As pessoas tendem a criar essa relação exclusiva. Ou você é acadêmico e trabalha com pesquisa exclusivamente dentro de instituições de ensino ou está no campo botando a mão na massa. Essa é uma visão artificial e prejudicial”, pontua.

Ela explica que o conhecimento da academia não é gerado simplesmente por gerar. “Ele precisa ser aplicado na prática e faz falta na criação de políticas públicas. Nós precisamos construir essa ponte entre academia e prática, que é a pesquisa aplicada. A academia precisa de um choque de realidade e a prática precisa de um choque de conhecimento. É saudável a aproximação desses dois mundos”, pondera.

Por isso, além do trabalho no Centro de Comércio Internacional, ela também dá aulas na universidade onde realizou seu mestrado e doutorado. “Eu achei que era importante manter contato com a academia porque tem muito conhecimento lá. Quando você sai, perde essa proximidade. Eu sabia que queria estar na pesquisa aplicada mas mantendo contato na academia. É o melhor dos dois mundos porque eu aprendo muito”, avalia.

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Para chegar lá e trabalhar com pesquisa

Quem deseja seguir uma carreira que combine as duas práticas precisa ter muita disciplina, de acordo com Barbara. “A caminhada de quem trabalha com pesquisa é longa e solitária. Muitas vezes você erra mais do que acerta. Mas tem que errar para chegar perto do certo. Por isso, a disciplina e a resiliência são tão importantes, para manter o foco no objetivo e não no processo”, indica.

Além disso, ela acredita que ter uma mente aberta é outro fator importante. “Às vezes, achamos que temos resposta para tudo. As coisas podem funcionar na teoria, mas na prática não. O mundo é complexo e a pesquisa tende a simplificar muita coisa. Por isso, é importante estar em contato com a realidade para entender a complexidade fora do laboratório. Paixão é outra coisa importante porque é uma área que as pessoas fazem por motivação pessoal, por acreditar em algo maior que si, não pela remuneração”, salienta.

Para os universitários, a dica da pesquisadora é absorver tudo que a faculdade tem a oferecer. “Participe de grupos de pesquisa, atividades extracurriculares e busque o máximo de conhecimento possível. Mas tente aplicar isso em um estágio. É uma forma de começar esse caminho duplo com um pé na academia, adquirindo conhecimento, e uma formação robusta em métodos de pesquisa. Mas não se isole nisso, busque estágios”, sugere.

Barbara afirma que alternar experiências profissionais com o estudo acadêmico foi essencial. “Para mim, foi muito bom não emendar um no outro. Tem gente que faz isso e eu entendo. Mas para essa carreira dupla é importante esse choque de realidade de trabalhar e estudar. E, caso você queria uma bolsa, precisa se preparar muito, se conhecer bem e saber se vender. É importante saber onde se quer chegar para que alguém possa investir no seu futuro e apostar em você”, finaliza.

 

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