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cortes nas pesquisas afetam inovação

Sem investir em educação e pesquisa não há inovação, defendem especialistas

Por Tatyane Mendes

Cortes nas universidades públicas anunciados pelo governo preocupam profissionais da área da inovação, que acreditam que o conhecimento é essencial para o desenvolvimento de novas tecnologias dentro das empresas e no âmbito acadêmico.

Profissionais que buscam o desenvolvimento tecnológico estão preocupados com o futuro do setor no Brasil. Recentemente, o governo brasileiro anunciou cortes de mais de 1 bilhão de reais no orçamento de universidades federais. Isso porque, segundo especialistas, a inovação depende de investimento em capacitação e tecnologia.

“Para inovar, dependemos de conhecimento, habilidades e treinamento. Por isso, é preciso desenvolver tecnologia, que não vem necessariamente de campos como inteligência artificial. Saber fazer algo bem e entender por que se faz de determinada forma, com base em fundamentos científicos, é uma forma de fomentar a ciência de qualquer área”, explica a doutora e professora-pesquisadora em administração Josivania Farias.

Ela aponta que países desenvolvidos possuem um alto nível de investimento em educação, desde o ensino fundamental.

“A inovação depende de um ambiente que tenha uma cultura orientada à mudança e o Brasil ainda é fraco nesse sentido. Precisamos de um meio que estimule as pessoas a se arriscarem e aprenderem, mesmo lidando com a incerteza”, ressalta.

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Dentro das universidades

Economista e professora associada no departamento de administração da Universidade de Brasília, Solange Alfinito percebe que a falta de investimento em pesquisa e educação já vem de vários anos. “Temos trabalhado com o mínimo. Os alunos não encontram um ambiente apropriado para aprenderem por causa do mau funcionamento das universidades, que afeta itens básicos como água, luz, banheiro, equipe e segurança”, exemplifica.

Para a docente, a pesquisa é feita sem apoio até mesmo administrativo. “O professor tem que coordenar a pesquisa, tramitar os processos, fazer prestação de contas, administrar a equipe e ainda buscar financiamento externo. Ou seja, bem diferente do que é feito em instituições de referência pelo mundo. O governo fala que a pesquisa no Brasil é insignificante, mas claro, você não tem condições de fazer. Esse processo é muito frustante”, critica.

Solange percebe que bons pesquisadores acabam desistindo por conta do alto nível de estresse causados pelas más condições de trabalho. “Pesquisa boa demora dez ou vinte anos para maturar, não é algo que se faz rápido. Mas dentro da pós-graduação, que anda lado a lado com a pesquisa, estamos formando pessoas com massa crítica e capacidade de analisar questões mais a fundo e a partir disso trazer desenvolvimento e tentar criar políticas mais efetivas dentro das organizações”.

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Impacto nas empresas

Doutor especialista em inovação, Antônio Isidro analisa que o modelo de inovação que o Brasil adota mostra um distanciamento entre as empresas e as universidades. “O conhecimento científico e pesquisa que são gerados dentro das instituições acadêmicas têm um impacto menor do que seu potencial e com baixa aplicabilidade, em termos de competitividade”, explica.

Ele afirma que as universidades precisam se aproximar mais do mercado e simplificar procedimentos para conseguir desenvolver tecnologias que ajudem as empresas a se tornem mais competitivas, colaborando com o desenvolvimento econômico do país. “Essa aproximação começa desde a graduação, que precisa estar mais voltada às necessidades do mercado e das características locais para assim ter um impacto positivo na vida empresarial brasileira”.

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As pesquisas universitárias também precisam estar alinhadas com uma agenda de desenvolvimento econômico do país. “Em geral são pesquisas que têm relevância, mas que é relativa em relação ao que o país precisa. Nesse sentido, muitos empresários poderiam se beneficiar, mas há esse distanciamento. Precisamos formar mão de obra qualificada e fazer frente aos desafios de uma economia global”, sugere.

Josivania analisa que as empresas privadas não investem tanto na área porque percebem que a inovação não é uma agenda de Estado. “Nós temos agendas de governo, alguns que valorizam mais, outros menos, mas não é uma prioridade do país. Então ficamos nessa montanha russa e isso não nos leva a uma política pública de longo prazo que apoie indústrias e empresas a inovar”, percebe.

Ela ainda aponta que o departamento de gestão de pessoas está ligado ao sucesso do processo de inovação dentro das empresas. “Porque ela que vai desenvolver as pessoas e investir em habilidades de liderança. Se o próprio chefe barra iniciativas inovadoras, a inovação não se desenvolve. A empresa precisa querer a inovação e transformá-la em uma estratégica de negócio para se manter competitiva”, recomenda.

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