Um Projeto: Fundação Estudar
jovem cansado, um dos sintomas da síndrome de burnout

Burnout: o que é a síndrome que toma conta das gerações mais jovens?

Por Tatyane Mendes

Excesso de competitividade e tarefas no ambiente de trabalho, associado com falta de inteligência emocional, faz com que a nova geração adoeça com o esgotamento. Conheça as características e consequências dessa síndrome.

Carolina Batista tem 23 anos e trabalha em dois empregos. Ela acorda por volta das 10h da manhã e segue para o primeiro turno, como nutricionista. Sua função é visitar restaurantes para fazer vistoria nutricional. Às 17h, a jovem chega para o segundo expediente em uma hamburgueria, onde atua como chef. O expediente acaba meia-noite.

Já em casa, Carol não consegue dormir. O sono vem por volta de 4h da manhã, dando a ela no máximo seis horas de descanso até a rotina recomeçar. A prática se repete de segunda a sexta (pela manhã) e de terça a domingo (de noite).

“Alguns dias, eu trabalho até 19 horas. Quando chego em casa, não consigo dormir rapidamente, porque o corpo ainda está muito agitado. Fico horas pensando em várias coisas que eu terei que fazer, que aconteceram e que poderão acontecer. Estou emocionalmente esgotada”, compartilha.

Aspectos físicos e sociais

Crises de ansiedade, insônia, falta de apetite, cansaço constante, dores musculares, gastrite, perda de vitaminas e minerais, diminuição de massa muscular, aumento de peso, falta de ânimo e disposição viraram parte de seu cotidiano.

A rotina da Carol pode parecer extrema, mas é uma realidade vivida por muito jovens. Cobranças pessoais e sociais exigem cada vez mais das novas gerações. A crescente busca por independência, necessidade de se destacar no mercado de trabalho e de realização pessoal faz com muitos cheguem ao ponto do esgotamento mental.

Entendendo o conceito de Burnout

Chamado pela psicologia de Síndrome de Burnout, a doença é relativamente nova. Membro titular da Sociedade Brasileira de Psiquiatria, Fábio Leite explica que o Burnout não fazia parte da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID), mas já aparece no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais americano como doença psíquica.  

“O Burnout é um desgaste muito grande que se manifesta com sintomas ansiosos e depressivos. Geralmente o paciente está exaurido com o excesso de atividades e cobranças e pouca proteção emocional.”

“O grande fluxo de produção de informações, competitividade e exigências são fatores que contribuem para o aparecimento da condição”, explica.

Características da síndrome

Cansaço, perda de energia, apatia, dificuldade de realizar tarefas, falta de disposição, problemas para dormir, sonolência, falta de concentração e alteração de humor são algumas das maneiras que o Burnout pode se expressar.  

Fábio Leite analisa que ocorrência da doença é maior hoje por falta de inteligência emocional. “No mercado de trabalho, os mais jovens tem que ser muito atualizados. Isso causa cobrança e eles sofrem. É uma doença dos tempos modernos. A inteligência emocional não é uma característica dessa geração, o que a prejudica”, percebe.

Em contrapartida, o psiquiatra acredita que as novas gerações são extremamente racionais e com altas capacidades técnicas. “Apesar disso, eles não lidam bem com pressão e frustração. No mercado, se destaca quem tem controle emocional”, garante.

Mais tarefas em menos tempo

Jurema Braga. psicóloga do trabalho do Hospital Anchieta, percebe que na sociedade moderna as pessoas colocam cada vez mais coisas para fazer em menos tempo. “Chegamos a fazer jornadas triplas, sem conseguir gerir tudo e por isso vem o adoecimento. O Burnout é consequência do atual ritmo de trabalho e suas condições desgastantes”, indica.

A psicóloga ainda aponta que hoje existe um índice altíssimo de doenças ocupacionais mentais porque as pessoas não conseguem gerir as dificuldades da vida cotidiana.  “O trabalho é considerado como necessidade e a todo momento há cobrança por produtividade maior e mais competitividade. A facilidade da tecnologia de levar trabalho para casa e estar sempre conectado também contribui para esse desgaste prolongado”, ressalta.

Não é de se espantar que, segundo relatório da International Stress Management Association, os transtornos mentais são a terceira causa de afastamentos do trabalho por doença, no Brasil. Em 2011, as saídas renderam mais de R$ 211 milhões a novos beneficiários da Previdência Social.

Leia também: Como aumentar sua inteligência emocional

Como remediar

Fatores externos, como problemas financeiros ou emocionais, podem agravar situações de desgaste, aponta João Silvestre, diretor da Associação Nacional de Medicina do Trabalho. “Além disso, se a pessoa já tem uma saúde fragilizada aumentam as chances. Há componentes da história e personalidade do indivíduo que favorecem o desencadeamento de quadros de esgotamento e/ou a gravidade dos casos”, explica.

Para impedir que as pressões e o ritmo do dia a dia adoeçam as pessoas, cuidar da saúde é primordial. “O ideal é que as empresas não exponham seus trabalhadores a condições de risco, mas medidas paliativas para controle do dano podem ser o estímulo a hábitos e estilo de vida mais saudável, com prática rotineira de atividade física e práticas de relaxamento mental” finaliza.

O que achou do post? Deixe um comentário ou marque seu amigo