Um Projeto: Fundação Estudar
Muhammad Yunus em favela no Brasil

Seu plano de carreira é ajudar um Nobel da Paz a tornar o mundo melhor

Por Rafael Carvalho

Veja como Rogério Oliveira conseguiu que Muhammad Yunus, pai do termo 'negócio social', virasse sócio e apoiador de sua incubadora no Brasil

Em 2011, o paulistano Rogério Oliveira, de 39 anos, foi até Viena, capital da Áustria, para participar do The Global Social Business Summit, um fórum para discutir Negócios Sociais — aqueles no qual a missão da empresa é solucionar um problema social e reinvestir o lucro gerado na própria empresa para ampliar seu impacto positivo.

O principal motivo da viagem era assistir a uma palestra do Professor Muhammad Yunus, ganhador do Nobel da Paz em 2006 por seu trabalho com microcrédito à frente do Grameen Bank e fundador do fundo de investimento Yunus Social Business, que também funciona como incubadora e aceleradora de empresas sociais. Pouco antes do começo da palestra, Rogério tomou coragem e decidiu se apresentar a Yunus. “Fui cara de pau e contei como o livro dele tinha mudado a minha vida”, conta ele, que anos depois, em parceria com o próprio Yunus, iria criar a Yunus Negócios Sociais — que quer investir 40 milhões de reais no Brasil nos próximos dois anos.

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Inspiração Alguns anos antes, Rogério tinha lido Criando Um Negócio Social e, sob o impacto do livro de Yunus, decidira largar a carreira corporativa para se tornar um empreendedor social – por mais de dez anos, ele trabalhou nas áreas de marketing de empresas como Johnson & Johnson e BRMalls. Já despido da antiga vida, ele fundou o Movimento Buena Onda em São Paulo, uma incubadora de negócios sociais que existe até hoje, junto com um amigo, o administrador Guilherme Pereira. Entre os projetos realizados estão palestras sobre felicidade no trabalho para os funcionários de empresas como Coca-Cola e Whirlpool.

Rogério conta que até gostava de trabalhar com comunicação, mas isso não era mais suficiente: “Comecei a sentir um buraco no peito e já não via mais motivo para convencer alguém a comprar alguma coisa. Queria trabalhar com algo que ajudasse a tirar as pessoas do piloto automático”, diz.

Nessa época, ele lia muito sobre a felicidade interna bruta do Butão e temas correlatos, e isso o inspirou não apenas a ter a cara de pau de se apresentar a Yunus, mas a deixar aberta a comunicação entre ele e o Nobel. Rogério manteve contato com Yunus e com a CEO do Yunus Social Business, Saskia Bruysten, nos meses após o fórum. Os três voltaram a se encontrar na Rio+20, a Conferência das Nações Unidas sobre desenvolvimento sustentável.

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Neste encontro, Yunus — que a esta altura já conhecia o Movimento Buena Onda — perguntou a Rogério se faria alguma diferença ter o nome Yunus associado à incubadora. “Na hora, quase dei risada. Respondi que sim, claro”, conta Rogério. Ele sempre teve vontade de ampliar o número de negócios sociais no Brasil, mas não imaginava que um dia o sujeito que o inspirou a largar uma vida que já não o satisfazia e que o ajudou a encontrar o seu propósito como empreendedor social iria simplesmente se convidar para ser seu sócio.

Rogério Oliveira em Bangladesh [acervo pessoal]

Juntos, eles então decidiram que o melhor seria criar uma nova incubadora, que também fosse aceleradora e fundo de investimento – como o Yunus Social Business, que é global – e chamá-la de Yunus Negócios Sociais. Os sócios do Yunus no Brasil são Rogério e o Yunus Social Business, sediado na Alemanha. Há outras empresas como a brasileira em países como Colômbia, México e Índia.

Investimento O fundo pretende investir 40 milhões de reais nos próximos dois anos. O Yunus Brasil já incubou e acelerou 22 projetos (e quer investir em pelo menos seis destes ainda em 2015). O impacto dessas empresas incubadas e aceleradas só poderá ser medido no futuro, quando elas já estiverem atuando e ganhando escala. O Yunus conhecerá os primeiros impactos daqui a um ano. As cidades impactadas são várias, porque, apesar da maior parte das empresas ser do eixo São Paulo-Rio de Janeiro, muitas delas atuam nacionalmente.

A Yunus, então, possui uma incubadora no Rio de Janeiro e outra em São Paulo. A primeira é dedicada a projetos de moradores de territórios de baixa renda. A segunda incuba empresas como a Anfib, que monta lockers para guardar bicicletas e vestiários para ciclistas tomarem banho em estacionamentos de outras empresas. Os sócios da Anfib, a advogada Victoria de Sá, de 24 anos, e o designer Bruno Rosa, de 26, foram para o Yunus quando tinham somente uma ideia – melhorar a mobilidade nas cidades através da bicicleta. “Foi durante o período de incubação, que durou pouco mais de três meses, no ano passado, que decidimos qual seria o nosso produto”, conta Bruno. “É agora que estamos fazendo tudo funcionar.”

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Para a maior parte dos empreendedores, pode parecer estranho decidir qual vai ser a missão da empresa antes de saber o que ela vai vender – mas isso faz todo o sentido para os empreendedores sociais, que querem, antes de tudo, ajudar a resolver um problema. “Gostamos de usar a bicicleta para trabalhar e até para viajar”, diz Victoria. Por causa da paixão pela bicicleta, os sócios sabem bem quais as dificuldades de quem a utiliza como meio de transporte. Com isso, dentro do processo de incubação, ficou mais fácil transformar o que era uma ideia em um negócio.

Em São Paulo também ficam a aceleradora e o fundo de investimentos do Yunus. Nos próximos meses, a paulistana Solar Ear, empresa que produz aparelhos auditivos de baixo custo carregados por energia solar, deverá ser a primeira a receber aporte do fundo de investimento do Brasil. A empresa foi acelerada pelo Yunus no ano passado. “O aparelho chega a ser 80% mais barato que um modelo comum e a bateria não precisa ser trocada”, diz Rogério. “A empresa tem tudo para dar certo.”

Local e global No mundo, o Yunus Social Business é conhecido por alguns projetos, como o negócio social Grameen Danone Foods, uma joint-venture entre o grupo de Yunus e a fabricante de iogurte criada em 2006 em Bangladesh, que tem como missão combater a desnutrição. O principal produto da empresa é um iogurte enriquecido com vitaminas e minerais, que, se ingerido duas vezes por semana ao longo de um ano, pode tirar uma pessoa da linha de desnutrição. Os principais ingredientes são comprados de pequenos agricultores locais e a mão-de-obra também é contratada na região. O iogurte é vendido nas áreas rurais de difícil acesso num sistema porta-a-porta.

Como empresa social, a Yunus do Brasil se sustenta financeiramente com o apoio externo. Grandes empresas, como a Fundação Via Varejo e a KPMG, são parceiras do Yunus no Brasil. A primeira ajudou na construção dos projetos da incubadora e da aceleradora. A segunda é responsável pela auditoria do fundo e das empresas investidas pelo fundo no país. Entre os apoiadores, também estão o Instituto Asas, o escritório de advocacia Mattos Filho e o Banco Petra.

O professor Muhammad Yunus, aliás, já está no Brasil para uma série de eventos realizados pela organização – é só acompanhar a agenda pela página oficial. Será que mais alguém vai se apresentar para o Nobel, na cara de pau, como fez Rogério? Tomara.

Este artigo foi originalmente publicado em DRAFT


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