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Diversas mulheres subindo o morro

O que faz um intraempreendedor social?

Por Rafael Carvalho

O que você mudaria no mundo empresarial? Taciana Abreu acredita na possibilidade de ser protagonista dessa tranformação e mudar as empresas por dentro!

Ganhar muito dinheiro já não é sinônimo de sucesso para muita gente. Segundo a pesquisa “Millennial Survey”, organizada pela Deloitte, 83% dos brasileiros nascidos entre 1980 e 2000 — tidos como tecnológicos, multidisciplinares e imediatistas — não consideram estabilidade e benefícios, como plano de saúde, suficiente para mantê-los nas satisfeitos trabalhando numa grande empresa. Como reter esses talentos? Uma alternativa cada vez mais interessante é possibilitar que empreendam dentro da empresa em que trabalham, o chamado intraempreendedorismo: gerar inovação no local de trabalho, seja criando de novos processos, negócios, produtos, serviços ou estratégias.

Assim se pode enxergar a carreira de Taciana Abreu, 33, que desde o seu primeiro emprego desbrava novas possibilidades dentro da organização, qualquer que fosse ela. Desde abrir um novo departamento num escritório de design até capitanear o negócio social de uma agência de propaganda, Taciana faz do intraempreendedorismo social a sua bandeira e sua motivação. Sem tempo para mimimi.

Formada em design pela PUC-Rio, em 2004 ela começou a estagiar na Tátil, escritório criativo de design, onde foi efetivada como designer júnior. Percebendo que os processos internos poderiam ser melhores, começou a, silenciosamente, mexer nas estruturas, melhorando a maneira como o briefing chegava até o departamento de criação. A mudança foi tão bem recebida que acabou resultando na criação do Núcleo de Inspiração e Estratégia da Tátil. A área, responsável pelo planejamento criativo, existe até hoje. Começava, assim, sua carreira como intraempreendedora.

O que é preciso para mudar empresas por dentro? Taciana acredita que, para empreender dentro de uma empresa, é necessário muita resiliência. “O ambiente interno muitas vezes é hostil e tenta te boicotar”, diz, e menciona que para enfrentar isso é preciso contaminar as pessoas à sua volta. “Os mais jovens chegam com a mente mais aberta e gostam das ideias inovadoras. Mas é importante que os cargos de gerência comprem a proposta. Por isso é preciso pensar na empresa como um potencial investidor. É preciso saber para quem você está vendendo a sua ideia dentro da empresa, mapear todos os stakeholders.” Além de não perder a motivação, o intraempreendedor precisa também de muita paciência, “porque o jogo não vira do dia para a noite”. Taciana foi aprendendo sobre a arte de intraempreender à medida em que sua carreira avançava.

Taciana com Yunus

Em 2007, ainda na Tátil, já como gerente do núcleo de inovação e estratégia, ela foi convidada para trabalhar na NBS, uma das grandes agências cariocas, como gerente de planejamento. Mudou de emprego e, por três anos, atendeu contas como Coca-Cola e Oi, até que a gravidez a levou à licença maternidade. Ao voltar, tinha uma clareza sobre sua carreira: queria gerar alguma transformação social para que sua filha pudesse viver num ambiente mais saudável. Sincronicamente, a agência estava buscando caminhos para se aumentar sua relevância na publicidade e Taciana tomou para si a responsabilidade de tocar o projeto. As pesquisas feitas na cidade apontaram que a segurança pública era o que mais afligia os cariocas. O Complexo do Alemão, na zona norte do Rio, havia sido ocupado pela polícia e os resultados positivos foram percebidos na cidade. Para Taciana estava claro: se a NBS queria se posicionar como uma agência carioca, esse tema precisava estar em foco. Mas… como?

Leia também: É possível conciliar impacto social com uma carreira de sucesso no mercado financeiro?

Durante mais de um ano, Taciana e uma equipe da NBS visitaram todas as comunidades pacificadas, promovendo mesas redondas com os comandantes das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) e líderes comunitários. Também entrevistaram jovens formadores de opinião das favelas, sociólogos e antropólogos e chegaram até a Secretaria de Segurança. Ela lembra desse momento: “Ao me sentar com os comandantes da polícia, me senti idiota pela vida que levava até aquele momento. Eu precisava desembestar e aquela era minha chance”

Concluída a fase de pesquisas, ficou claro que o papel da NBS era, em parceria com seus clientes, desmistificar as favelas cariocas e mostrar que todos poderiam participar da construção de uma nova cidade gerando valor compartilhado tanto para as comunidades como para os clientes da agência. Nascia a NBS Rio+Rio, o primeiro negócio social de uma agência de propaganda, uma ponte entre a iniciativa privada, o poder público e as comunidades pacificadas.

De repente, Yunus e escala No processo de desenvolvimento do modelo de negócios da Rio+Rio, Taciana conheceu Muhammad Yunus, ganhador do Prêmio Nobel da Paz, pai do microcrédito e dos negócios sociais (ou seja, empresas que têm como missão de solucionar um problema social, ser autossustentáveis financeiramente e não distribuir dividendos). Foi durante a Rio+20, em 2012, em um workshop com o indiano, que o modelo de negócios do projeto da NBS foi decidido. Os sócios da agência abriram mão do lucro para que todo o excedente financeiro fosse reinvestido no projeto.

Com isso, um escritório foi montado no morro Santa Marta, em Botafogo, e se desdobrou em projetos para marcas, como o “A Beleza que Transforma Vidas” para O Boticário. Este, em parceria com a Fundação de Apoio à Escola Técnica (Faetec), formou cerca de 300 maquiadores profissionais, com informações sobre estratégias e oportunidades de emprego na área da beleza.

A identificação de Taciana com esse universo foi tamanha que ela se tornou voluntária no Yunus Negócios Sociais Brasil, que tem como objetivo desenvolver negócios sociais pelo país através de seu fundo de investimentos e aceleradora. Ela começou como coordenadora dos projetos no Rio e, com o crescimento do time, hoje se envolve em projetos pontuais, estrutura cursos e é embaixadora do movimento.

Taciana seguiu por este caminho. Depois de desenhar projetos como uma colônia de férias no Santa Marta com o apoio do Gloob, o canal infantil da Globo, e alçar o cargo de diretora de planejamento, Taciana deixou a NBS e foi para a WMcCann, uma das maiores agências de publicidade do Brasil. “Abrir mão do meu filhote não foi nada fácil”, ela diz, referindo-se à Rio+Rio. Mas, no seu entender, era hora de aceitar novos desafios e a proposta era tentadora, pois além do salário maior ela também teria mais autonomia — o que era essencial já que, além de ser voluntária no Yunus Negócios Sociais Brasil, Taciana faz também parte da Liga de Intraempreendedores, um movimento global de agentes de mudança do mundo corporativo que atuam para transformar negócios de dentro para fora. A Liga entende o empreendedorismo social e a mudança no paradigma de atuação das grandes corporações inovação como chave na criação de uma nova economia. “Quando um transatlântico vira (se referindo a grandes empresas), a gente ganha escala”, diz Taciana.

Hoje em dia ela enxerga o panorama de sua área de atuação com um misto de otimismo e descrença. Por um lado, diz ela, crescem as formas de apoio aos empreendedores: editais, aceleradoras, cursos e espaços de coworking. Mas, apesar disso, os intraempreendedores estão, em geral, sozinhos e desmotivados. A Liga vem para apoiá-los na organização de uma rede de pessoas que querem transformar e gerar valor dentro dos ecossistemas onde trabalham. Taciana conta que há hubs ativos no Canadá, Reino Unido, Austrália, México, Alemanha e Brasil, bem como seminários globais. No Rio de Janeiro, o movimento é representado pela Liga OP, que se reúne periodicamente para trocar experiências reais e gerar de soluções a partir da inteligência coletiva.

Em seu cargo na WMcCann há um ano, Taciana vem atendendo clientes como L’Oréal, TIM e Coca-Cola. Se elajá estruturou algum projeto social ali dentro? Ainda não. “Estou tecendo a rede e descobrindo como trazer impacto. Preciso de paciência se quero fazer transformações com os clientes, vejo potencial neles e estou caminhando para isso”, conta ela, que acredita que a mudança é escalável, em menor medida, também no individual. “Para quem está no impacto negativo, qualquer avanço é avanço. E à medida que se caminha nesse universo de negócios sociais, você vai se encantando por ver que está transformando pra melhor a vida de outro ser humano. A transformação nasce no um para um.”

 

Este artigo foi originalmente publicado em DRAFT

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