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moedas empilhadas sobre relatório de investimentos

Como é feito um investimento venture capital?

Por Rafael Carvalho

Além de números, trabalhar com venture capital também está muito relacionado a entender e lidar com pessoas empreendedoras

Venture capital, muitas vezes abreviado pela sigla VC, é o nome usado para descrever investimentos de risco, normalmente em empresas de pequeno e médio porte, que já têm um faturamento expressivo e estão envolvidas em algum tipo de inovação — muitas vezes de alta tecnologia. A função dos fundos de venture capital é ajudar essas empresas a dar um salto de crescimento.

Vale lembrar que se trata de um tipo de investimento diferente de private equity, focado em grandes empresas, e do investimento-anjo ou capital semente, focado em companhias em fase bastante inicial.

O Na Prática esteve presente no evento HighTech Nation, onde Verônica Serra, bolsista da Fundação Estudar e sócia-fundadora da Pacific Investimentos e Innova Capital, contou como o capital pode ser bem empregado em um investimento venture capital: “Não é só colocar dinheiro em uma empresa para que ela se desenvolva e cresça. É necessário virar um parceiro e arriscar junto”.

A missão em seus fundos é clara: “proporcionar retornos superiores aos investidores, construindo um portfólio diferenciado em parceria com empreendedores proeminentes”. Para isso, o investimento em venture capital segue alguns passos.

Primeiro, é necessário ter um olhar mais amplo, e identificar em quais áreas vale a pena investir. É aí que entra a análise top-down, um método que envolve olhar para a big picture — o cenário geral — em primeiro lugar, e, em seguida, analisar os detalhes de componentes menores.

Dessa forma, o profissional de venture capital deve estar bastante antenado às tendências de mercado e economia, e também aos movimentos de inovação. Ele vai analisar dados como o histórico do setor, a sua resiliência à mudanças no cenário macroeconômico, seu crescimento e o tamanho do mercado consumidor.

Como exemplos de tendências e indústrias de alto potencial, Verônica cita desenvolvimento de conteúdo mobile, fintech (uso da tecnologia para disponibilizar serviços financeiros), adtech (tecnologia para anúncios), conteúdos de vídeo, dados (incluindo big data), agtech (tecnologia aplicada ao campo e à produção agrícola), saúde e educação.

Assim, ao analisar o quadro geral, como uma tendência macroeconômica, o investidor pode começar a estreitar sua visão para potenciais empresas a analisar.

Nesse momento, são outros dados e fatores que compõem a análise. O foco, segundo Verônica, está em empresas de alto crescimento, com negócios escaláveis e que podem gerar valor estratégico.

Para entrar no radar do fundo de investimentos venture capital, a companhia deve passar por uma espécie de checklist. É necessário ter um modelo de negócios já comprovado, uma proposição de valor clara, um bom time no comando e o potencial para alavancar e gerar mais valor. Além disso — e talvez mais importante — é imprescindível ter empreendedores apaixonados.

Lidar com gente

“É importante conhecer o empreendedor antes, se envolver com ele”, explica Verônica. É o que ela chama de pre-diligence. “O investidor não deve só pedir números e performances. Ele tem que querer entender o negócio, a visão de negócio, e ser apaixonado por isso”, diz.

Assim, ela vai olhar para diversas informações da companhia como margens, valuation, ROIC (retorno sobre o capital investido), crescimento, break-even, potencial de consolidação, posição de liderança no mercado, escalabilidade, barreiras de entrada, inovação, binary risk analysis, entre outras — é a famosa due-diligence, a análise profunda de uma empresa, principalmente dos dados financeiros, realizada antes de qualquer investimento.

Mas, além disso, também vai precisar olhar para o empreendedor. No final das contas, venture capital também tem muito a ver com entender e lidar com pessoas.

Depois de todas essas análises, é o momento de tomar a decisão: vale investir ou não? Se o parecer for positivo, as duas partes envolvidas na negociação (investidor e empresa investida) começam a trabalhar na fase do deal, ou seja, de discutir os termos do contrato para fechar o acordo de investimento.

Uma vez feito o investimento, o fundo estará lado a lado do empreendedor para fazer a empresa crescer. “Há vários empreendedores muito inteligentes e cheios de ideias, e nós, os investidores, precisamos trazer foco para eles”, explica.

Leia também: Como é, na prática, o trabalho com venture capital?

Além do capital investido propriamente dito, também faz parte das funções do fundo ajudar a empresa a crescer. “Essa é a questão: realmente estar lá como sócios do negócio”, resume.

Como? Uma das formas é através de conselhos estratégicos, seja mapeando oportunidades de melhorar o modelo de negócios, ou mesmo buscando e executando ações de expansão, como fusões e aquisições.

Também é possível trazer mais disciplina financeira para as operações da empresa, montando uma estrutura de capital ideal, implementando processos e criando uma cultura de meritocracia e corte de custos.

Segundo Verônica, também faz parte da atuação do venture capilatist ajudar a atrair pessoas-chave. Isso inclui desde a atração e retenção de talentos para a equipe ou membros destacados para o conselho, até apresentar o empreendedor para potenciais parceiros.

“Há muitas companhias que nós gostamos muito, porém que não passam na due diligence”, alerta Verônica, dessa vez falando mais para os empreendedores do que para os investidores.

Acesso a financiamento é um dos grandes desafios para o Brasil, apesar de — segundo ela — o cenário estar melhorando bastante. “É importante que os empreendedores também se informem sobre como é feito esse levantamento de capital, o que é preciso ter para conseguir esse dinheiro”, explica.

Somente inovação e capital também não bastam. Estruturar o negócio, do ponto de vista financeiro e legal, é vital para o sucesso ou a própria sobrevivência da empresa, especialmente uma startup, afirma Alexandre Barreto, sócio fundador do Souza Cescon Advogados, escritório que idealizou o evento High Tech Nation.

Segundo Alexandre, os novos empreendedores precisam escolher e organizar a melhor forma de desenvolver o projeto e, de preferência, contando com a parceria de grandes empresas para crescerem juntas. O advogado avalia que as start-ups precisam se cercar de planejamento para superar sistemas mais burocráticos, como o do Brasil. Quando o empreendedor tem toda a estrutura interna organizada, é possível criar um relacionamento com investidores e crescer ainda mais.

Esta reportagem faz parte da seção Explore, que reúne uma série de conteúdos exclusivos sobre carreira em negócios. Nela, explicamos como funciona, como é na prática e como entrar em diversas indústrias e funções. Nosso objetivo é te dar algumas coordenadas para você ter uma ideia mais real do que vai encontrar no dia a dia de trabalho em diferentes setores e áreas de atuação.

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