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Home office veio para ficar? Especialistas compartilham análises sobre o futuro do modelo

Por Tatyane Mendes

Mais de 70% dos trabalhadores adotaram o regime home office durante a pandemia, de acordo com pesquisa do grupo Talenses. Especialistas debatem se a prática deve se manter depois do fim do isolamento social e como fazer a transição.

Segundo uma pesquisa do grupo Talenses, em parceira com a Fundação Dom Cabral, aproximadamente 70,3% dos trabalhadores estão atuando em regime home office. O percentual era de 21,9% antes do COVID-19. Segundo os 375 gestores de recursos humanos que responderam ao levantamento, existe uma expectativa de que o modelo de trabalho permaneça mesmo após o fim da pandemia. Apesar do otimismo dos profissionais, muitos ainda se perguntam se realmente o home office veio para ficar.

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) descobriu em um estudo que somente cerca de 22,7% das posições de trabalho no Brasil conseguiriam se adaptar ao home office. A possibilidade de trabalhar de casa valeria apenas para profissionais de ciências e intelectuais, diretores, gerentes, técnicos administrativos e profissionais de nível médio, segundo os dados.

Além disso, um levantamento do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) apontou que o Brasil é o quinto país do mundo com mais dificuldade de implementar o home office em larga escala, principalmente devido à questões relacionada a baixa qualidade da internet e particularidades demográficas. Então, será realmente possível manter o home office de forma definitiva?

Manter ou não? Eis a questão

Empresário e empreendedor no segmento de pessoas e negócios, Edson Carli é um dos que acredita que o home office veio para ficar. “E isso vai acontecer por três motivos. Primeiro, não haverá espaço suficiente nos escritórios para manter as equipes com distanciamento seguro. Segundo, os custos operacionais se mostraram atraentes sem perda de performance. Por fim, os profissionais, na sua maioria, aderiram ao movimento recriando rotinas e tudo funcionou bem. Acredito que as empresas em geral optarão por ter 20% da força de trabalho presencial, em regime de revezamento”, analisa.

Já Rodrigo Vianna, CEO da Mappit, empresa do Talenses Group especializada no recrutamento para início de carreira, também acredita que o home office veio para ficar, mas que não deve se manter da mesma forma que é praticado atualmente. “A adoção do home office foi um processo muito duro porque ele foi compulsório, imposto às empresas por causa de todo o contexto da pandemia. Mas isso de alguma forma trouxe para o mercado uma lição importante sobre resiliência e tomada de decisão rápida. A nossa pesquisa mostra que os profissionais acreditam que o home office veio para ficar, mas eu pessoalmente penso que ele deve ser manter de forma híbrida”, pontua.

Também entre os que acreditam na continuidade do home office está a CEO da escola corporativa Sputnik, Mariana Achutti. “O formato remoto é algo interessante tanto para os empregadores, quanto para os empregados, aumentando a produtividade e baixando custos. Muito se falou sobre isso, e muitas empresas, prioritariamente as digitais, já ensaiavam esse modelo de trabalho. O que a pandemia trouxe foi nada mais nada menos que acelerar esse processo nos provando que é possível esse formato para muitos setores”, analisa.

Mas serve para todo mundo?

Edson Carli observa que provavelmente haverá muita discussão no campo trabalhista sobre controle de horas e custos com infraestrutura. “As empresas que vão se adaptar melhor são as de serviços clássicos, incluindo consultorias e atendimento aos clientes, além de backoffice com forte viés eletrônico, compradores e vendedores. Já os campos rural, indústria, pesquisa e desenvolvimento e demais rotinas que dependam da infraestrutura da empresa para a realização das tarefas, certamente não. Um capítulo a parte serão as posições de liderança. Mesmo que as equipes se revezem e cada profissional somente compareça um dia por semana na empresa, todos os dias haverá equipe e eles precisam do contato com seus líderes em algum momento”, pondera.

Mariana observa um movimento similar nesses setores. Para ela, trabalhos mais estratégicos, administrativos e criativos dependem menos de presença física do que pessoas que trabalham no comércio e na indústria. “Então, a decisão de trabalho remoto dependerá muito de qual o papel esse funcionário exerce. Antes da pandemia, muitas organizações já flexibilizaram turnos ou dias para o trabalho remoto, mesclando a carga horária total entre a necessidade física e a remota. Pra mim, esse modelo é super assertivo principalmente para grandes organizações da qual ainda tem uma cultura muito enraizada no presencial. Ir flexibilizando de pouco em pouco é importante para chegar a uma cultura que comporte esses novos modelos”, sugere. 

Se o home office veio para ficar, o que é preciso fazer para se adaptar?

Seja em tempo integral ou não, a adoção do home office em um cenário pós pandemia vai exigir que algumas mudanças sejam feitas para que ele realmente funcione. Carli indica que serão necessários novos modelos de cadeia de compromissos, para que as equipes sejam mais autônomas, e de monitoramento de performance. “Tudo bem querer ser 100% presencial ou remoto. O problema estará nos modelos híbridos com profissionais locais lidando com remotos. Os líderes precisam aprender a motivar sua equipe. Quem quer manter o home office precisa testar, aprender e perguntar. Ainda não sabemos de tudo. A inteligência comportamental é a nova habilidade do mundo corporativo nesse cenário”, opina.

Vianna concorda que existem muitas incertezas sobre o futuro e isso torna difícil fazer qualquer tipo de planejamento. “Eu acredito que o home office vai se tornar um benefício que será oferecido aos colaboradores de uma empresa. É uma experiência nova para todo mundo. Tem gente que nunca tinha trabalho antes em home office, mas agora essas pessoas conseguem ver o lado bom e o ruim. Com isso, elas vão saber se querem se manter ou não nesse modelo. A forma como as empresas disponibilizarão (ou não) o home office inclusive se tornará um fator na hora de um profissional escolher um emprego”, pondera.

Mariana aconselha que os gestores interessados em continuar o modelo desenvolvam segurança psicológica em seus times. “Para que eles sintam confiança e senso de responsabilidade diário com suas entregas, se comprometendo com suas tarefas. Trabalhe a auto gestão com seu time e não esqueça de que a comunicação é uma das principais ferramentas para que a mágica aconteça”, garante. 

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Outro ponto que deve ser levado em consideração são as diferentes gerações presentes nas equipes de trabalho, indica Vianna. “É preciso pensar em um formato de home office mais segmentado porque as pessoas das gerações mais jovens, na maioria os millennials e a geração Z, valorizam muito um sentimento de liberdade. Isso faz com que eles tenham um interesse em trabalhar da forma como acharem melhor. O ideal é que eles tenham a opção de escolha. A geração X já é diferente, em geral, são workaholics e estão acostumados a chegar no escritório cedo e ir embora só de noite. Acho importante criar uma rotina, mas consultando os colaboradores para entender a opinião deles e só então construir um plano de trabalho”, sugere.

E se o home office veio para ficar, uma questão que deve melhorar no ambientes de trabalho são as relações interpessoais, como observa Carli. “A educação e o respeito entre as pessoas têm aumentado, dada a limitação de contato e indisponibilidade visual. Percebo mais controle de agenda, pedidos formais de conversa e respeito aos horários de início e final de reuniões. Estamos ficando positivamente mais formais. Isso é bom. Seremos cada vez mais valorizados pelo que fazemos e não por como nos parecemos”, ressalta.

Contudo, o empresário avalia que é preciso repensar formas de cuidar da saúde e evitar passivos trabalhistas e doenças laborais. “Ainda não temos histórico para tanto. Mas a maioria das pessoas não está respeitando seus tempos de intervalo ao longo do dia. No médio tempo, teremos uma grande onda de fadiga. Isso é algo a ser pensado”, finaliza. Mariana complementa que as empresas devem tomar cuidados para que os funcionários não acabem absorvendo custos indiretos como contas de luz e água mais caras, internet e material de escritório, oferece auxílios financeiros para essas questões.

 

 

 

 

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