Um Projeto: Fundação Estudar

Dez reflexões do fundador da Easy Taxi sobre empreendedorismo e liderança

Por Rafael Carvalho

Veja os conselhos de Tallis Gomes, empreendedor mineiro que transformou sua empresa em uma das maiores startups brasileiras

O mineiro Tallis Gomes, aos 27 anos, já é sócio de uma empresa com o valor de mercado de 1 bilhão de reais, criada por ele mesmo: a Easy Taxi, aplicativo de chamada de táxis. A empresa surgiu em junho de 2011, e desde a sua criação captou 145 milhões de reais em investimentos. O primeiro deles, em 2012, quando a empresa recebeu aporte de 10 milhões de reais da Rocket Internet, gigante alemã especializada em negócios online. Em 2014, a empresa se tornou a primeira startup brasileira a movimentar mais de 1 bilhão de reais em transações.

Daí para a presença em 35 países da América Latina, Ásia e África; 20 milhões de usuários; 400 mil táxis cadastrados, 172 escritórios e 1 300 funcionários, foi uma estrada longa, mas percorrida em altíssima velocidade. Tudo isso era inimaginável para os outros, que por diversas vezes não embarcaram na ideia do garoto da pequena Carangola, no interior de Minas Gerais, com apenas 35 mil habitantes. Não para Tallis, que vislumbrou a multinacional dominando o planeta quando bolou a Easy Taxi em um fim de semana.

Leia também: Especialista em coaching fala sobre formação de líderes e empreendedores

Tallis Gomes [Magnus Höij]

Aqui, ele compartilha reflexões que surgiram ao longo dessa trajetória de sucesso e podem ajudar outros empreendedores:

Hiperatividade

Minha mãe fala que eu não era muito fácil, que sempre fui uma criança muito hiperativa. Sou, de fato, já tratei isso alguns anos. Também era muito bagunceiro, arrumava problema. Então basicamente ela ficava com medo de me levar para as festinhas infantis porque ia fazer arte. Eu dava muito trabalho. Quebrava muito as coisas. Não conseguia prestar muita atenção na aula por conta da hiperatividade, mas tive notas boas.

Glamourização do empreendedorismo

Sou contra essa glamourização do empreendedorismo. Sempre teve gente vendendo cachorro quente na rua, picolé, mate na praia. Esses caras são empreendedores. Viram a necessidade deles e a oportunidade. É que agora ficou mais na moda falar que é empreendedor. Antigamente as pessoas tinham vergonha. Quando eu era moleque e falava que trabalhava as pessoas olhavam e… putz… Não era bem legal, não. ‘O cara é meio estranho’. Hoje em dia é super bonito falar que você incentiva os seus filhos a empreender, o que acho certo, mas aconteceu uma valorização.

Liderança

Na Namíbia, os líderes tribais não eram os mais fortes, os mais rápidos, ou os que caçavam melhor. Eram os mais inteligentes. E o que eles consideram inteligente na tribo é o que sabe direcionar as peças, ou seja, colocar o melhor caçador no lugar que tem mais caça etc. Ele era meio que o maestro. Tinha uma inteligência emocional diferente, lidava melhor com as pessoas da tribo. Tinha o respeito delas. Essa é uma característica do líder. Não necessariamente ele vai entender mais de BI, de marketing, ou de operação, mas sabe escolher as pessoas certas para executarem as tarefas e participar de todas as discussões, por mais que ele não conheça profundamente todo o assunto.

Timing

Tenho tenho certeza de que os driveless cars, os carros que dirigem sozinhos, vão tomar completamente as ruas daqui a 10, 15 anos. Mas, não faz sentido lançar uma agência com aplicativo focado nisso agora. Foi o que eu percebi com a E-Spartan, não adianta vender gamificação sendo que as pessoas nem sabem o que é isso direito, e as empresas nem usam mídia social. Eu estava muito à frente do meu tempo. É uma das principais dicas que eu dou: será que está na hora certa de lançar esse negócio? Tem mercado para ele?

Leia também: Já pensou em ter Luciano Huck como sócio?

Formação

Sempre fui muito autodidata. Estudava muito na internet. Por mais que tenha saído da faculdade, sempre me cobrei uma rotina de estudo – e até hoje faço isso. Tenho um conceito na vida que é estar 1% melhor todos os dias. A cada 100 dias você está duas vezes melhor. Às vezes você acha que não dá, mas se parar meia hora só para estudar uma coisinha, já fica 1% melhor.

Dados e estratégia

O Bernardinho é sinistramente freak com dados. Ele não toma nenhuma decisão sem ter uma planilha gigante – como que o time adversário ataca, qual é o melhor atacante, a defesa, a estatística. Ele monta a estratégia jogo por jogo baseada nisso. Aprendi que decisão não tem que ser tomada por feeling, mas por dados. Costumo dizer que tomar a decisão por feeling é o caminho mais prazeroso para o fracasso. No business e na vida, achismo não leva a nada. Você tem que ter dados que comprovam aquela hipótese e aí você toma e executa a ação. Assim que um bom gestor age.

Investimento

Fiquei seis meses atrás de investidor e meu business não andou nada. Quando deixei de procurar, virou a Easy Taxi. É muito importante focar na execução quando você tem um negócio à mão. Ninguém investe em ideia. O investidor investe em um negócio. O investimento só deve ser captado no momento em que você sabe o que fazer com o dinheiro.

Fracasso

Existe uma glamourização do fracasso, principalmente no Silicon Valley. Os caras lá veem isso como um mal necessário. Mas, na maioria das vezes, a verdade é que você não aprende nada. Não acho bonito ficar falando. Você está mandando mal, faliu empresas. Se falhar, precisa fazer o trabalho básico, olhar pra dentro, o que fiz de errado, o que posso melhorar. Acabei fazendo isso. Errei no timing. De fato, melhorei com a falha, mas a maioria das pessoas insiste no erro. A culpa não foi minha, foi do mercado, do funcionário. Mas no fim do dia a culpa é sempre sua.

Sócios

Meu maior aprendizado é que as pessoas que você traz para tocarem o negócio é que, basicamente, vão definir o futuro da companhia. Às vezes, você tem que abrir mão de algo e ficar com 20% de uma companhia que vale alguns milhões. É melhor do que 100% de uma que não vale nada. Além da qualidade técnica, o sócio tem algo que é deal breaker: caráter.

O que é melhor: uma boa ideia ou um bom espírito empreendedor?

Se você traduzir espírito empreendedor como competência técnica, acho melhor um empreendedor melhor do que uma boa ideia. Um grupo de bons empreendedores com uma ideia ruim transforma isso em negócio, e a ideia acabaria ficando boa. Um grupo de empreendedores ruins com uma ideia genial no máximo viraria um bom planejamento, não um negócio – a Easy Taxi em 2011. Gente ruim não executa, só consegue pensar coisas legais. Gente boa geralmente executa, faz o negócio acontecer.

Leia também: Conheça os jovens executivos que estão reinventando a indústria financeira

Este artigo foi originalmente publicado em DRAFT 

O que achou do post? Deixe um comentário ou marque seu amigo