‘Desisti do sonho de ser milionário e estou muito feliz no meu emprego’

"Aprendi que ser milionário não é um destino, mas sim o reconhecimento do que fazemos com tesão, paixão e dedicação", escreve o empreendedor

Antônio Marcello, para , em 30.09.2015
Trabalhador com mala apreciando vista da natureza

Formado em Propaganda e Marketing pela ESPM, em São Paulo, Antonio Marcello construiu sua carreira na área de TI com passagens em agências, startups e  portais nacionais. Atualmente trabalha como webdeveloper e está finalizando dois projetos na área enquanto, paralelamente, se prepara para estrear como ator em curtas independentes, e termina seu primeiro livro. Como parte de acreditar que é capaz de mudar o mundo, é o idealizador do Despertarium, e hoje faz escolhas pautadas muito mais em realização pessoal do que exclusivamente financeira. A seguir, o empreendedor de 30 anos escreve para o DRAFT sobre como abriu mão do sonho de ser capa de revista:

Ser milionário, quem não quer? Difícil resistir à tentação de poder fazer o que quiser, principalmente quando livros, filmes, cursos e todo lugar que olhamos parecem nos bombardear com dicas de como trilhar esse caminho de sucesso. Há sempre aquele garoto que, na adolescência, teve uma ideia fantástica; ou uma mulher que aos 50 largou uma bem-sucedida carreira para se dedicar a bolos artesanais, ser feliz e ainda fazer rios de dinheiro. É possível ser milionário e feliz, e eu também quero!

Com onze anos aprendi sozinho a programar sites. Aos quinze, já tinha meu primeiro emprego na área. (Acham que) eu sou o mais inteligente da família, o filho prodígio, e que o futuro promissor é tão certo na minha vida como 2 + 2 = 4. Os holofotes já estavam voltados a mim antes mesmo de chegar lá. Como futuro promissor, leia-se “um milionário fantástico, capa de revista por acumular fortunas com um cérebro genial”.

Me formei na considerada melhor faculdade de propaganda e marketing da América Latina. Acreditava que seria um excelente Diretor de Arte mas não me identifiquei com a área. “O que eu tô fazendo aqui?”, era uma pergunta constante enquanto rabiscava o caderno, viajando no meio da aula enquanto o brainstorm rolava solto. No final do 2º ano, pensei em desistir e buscar uma formação em TI – que eu já dominava – mas “eu sou o gênio da família, não posso desistir”.

Bateu desânimo, insegurança e o medo de frustrar as pessoas (mentira, a mim mesmo); respirei fundo, deixei meu orgulho falar mais alto e optei por ir até o fim do curso. Não me arrependo. Embora eu não tenha seguido os tijolos dourados de um renomado profissional da Publicidade, consegui obter uma formação acadêmica fantástica, que é alicerce para os projetos que desenvolvo e também para a forma como conduzo minha carreira – seja ela em qual área for.

Mas, tá, eu ainda quero meus milhões e a lâmpada da genialidade acendeu na minha cabeça: eu sou um programador, que aprendeu sozinho a fazer sites, na era onde os nerds deixaram o limbo de figurantes bobões e se tornaram superstars! Eu estou destinado a ser milionário – é apenas questão de tempo.

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Em 2012, cinco depois de finalizar minha graduação, vivíamos o boom da área de TI, momento em que startups surgiam como gremlins: jogou água, nascem mais 5 em algum lugar do mundo. Tio Zuckerberg, bilionário conhecido por fazer fortuna antes dos 30 e ser o fundador da rede social que possivelmente levou meu texto até você, está aqui para nos provar que sim, podemos ser jovens milionários,  começando no quarto de casa com uma ideia bobinha.

Startup é como um grande bolo sem fim: todos querem um pedaço. Não foram poucas as vezes que ouvi, “quero ter uma startup porque é um jeito fácil de ficar rico”. Oi? Eu também estava nesse caminho, me esfacelando para garantir o meu pedaço desse irresistível bolo. A cada momento surgia uma ideia nova, fantástica na minha cabeça. E os olhos, como em desenho animado, ganhavam um cifrão bem dourado

Depois de três anos tendo ideias fantásticas, percebi que eu não estava mais feliz. Ficava meses sem ver os amigos ou enfurnado no meu quarto trabalhando sem parar em linhas de códigos intermináveis. Passava pouco tempo com minha família, mas horas em reuniões, Skypes e trocas exaustivas de e-mails. Estava em um loop frenético e incontrolável em busca da perfeição que garantiria meu lugar ao Sol, na companhia de boas doses de café. Depois de um tempo, sempre descobria uma forma de fazer melhor o que eu já tinha feito minutos atrás.

A  falta de tesão nos projetos aliada a decepções na minha vida pessoal me empurraram para parcerias que conseguiram transformar projetos, que eram objetivos de vida pra mim, em experiências totalmente decepcionantes. Todos queriam comer esse pedaço de bolo milionário também. E eu, como único programador com know-how para desenvolver plataformas e aplicativos com potencial, era a galinha dos ovos de ouro. Os holofotes estavam voltados a mim mais uma vez, só que desta vez era eu o pedaço do bolo.

Não ganhei milhões, mas gastei recursos valiosos: dinheiro, tempo, cérebro, horas de sono, de lazer e prazer. Além disso, acumulei algumas camadas de gordura, os níveis de ansiedade aumentaram, tudo isso misturado a uma boa pitada de humor ranzinza. E todo esse desgaste em prol de “um bem maior”. Ironicamente, eu “me escravizei” com a desculpa de que estava construindo meu caminho de liberdade

Eu era uma bomba-relógio prestes a explodir a qualquer momento. Fuéeen, errei feio, errei rude. Desisti de ser um milionário.

O primeiro a saber da minha decisão foi um grande amigo – e também sócio em grande parte dos projetos que desenvolvi -, “eu quero desistir, nada disso faz sentido pra mim.” Para minha surpresa, ele também sentia a mesma coisa e salvamos da berlinda apenas dois projetos que fazíamos com prazer e que continuam fazendo sentido pra gente.

Como acredito na sincronicidade das coisas, nada é por acaso e tudo que deu errado, na verdade deu muito, mas muito certo. Me mostrou que o caminho que eu estava seguindo era um equívoco. Que, independentemente das responsabilidades que eu tenho, eu não preciso me escravizar.

Eu tenho um emprego que amo, onde me sinto realizado, onde tenho estabilidade, reconhecimento e divido o dia a dia com pessoas queridas. Tenho ainda a possibilidade de fazer os cursos que gosto, me dedicar ao meu primeiro livro, dirigir, produzir e atuar em alguns curtas autorais e experimentais, e me dedicar à marca de doces artesanais, feitos pela minha mãe. E, caraca, eu sinto muito mais prazer em escrever essas últimas linhas do que o que eu senti nos últimos três anos enquanto estava imerso nesse ritmo alucinado de “quero ser um milionário”. 

Aprendi que ser milionário não é um destino, mas sim o reconhecimento do que fazemos com tesão, paixão e dedicação. E se mirarmos apenas no pote de ouro, vamos deixar de aproveitar todas as coisas incríveis que estão ao nosso redor, das quais abrimos mão ao longo do caminho, muitas vezes sem perceber. Claro que quero ter uma vida confortável, poder esbanjar de vez em quando e me dar alguns luxos; quem não quer? Mas antes disso, quero ser feliz, quero dividir o meu tempo com pessoas que amo e me dedicar a projetos que sejam ricos em qualidade mas que, acima de tudo, façam sentido pra mim.

E com uma leveza fantástica que há muito, mas muito tempo, eu não sentia, posso dizer que desistir de ser milionário foi umas das decisões mais libertadoras e felizes que eu fiz na minha vida. E, sim, eu me sinto muito realizado em ter desistido.

 

Este artigo foi originalmente publicado em DRAFT

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