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Paul Krugman: a crise brasileira não é tão catastrófica quanto você está pensando

Por Rafael Carvalho

Prêmio Nobel de Economia de 2008 e pesquisador da Universidade de Princeton acredita que reação do mundo e dos próprios brasileiros à situação econômica do país é um exagero

Paul Krugman se diz um cara pessimista. Mas, ao falar sobre o Brasil, surpreende qualquer um que esteja em pânico com a crise brasileira atual. Para o Nobel de Economia de 2008 e pesquisador da Universidade de Princeton, ela não é tão preocupante quanto você está pensando. “A situação é grave, mas temporária. Ela não reflete problemas econômicos fundamentais, como já ocorreu em momentos anteriores da história do país. O clima no Brasil deveria ser de otimismo”, diz o economista, que está em São Paulo para participar do evento HSM ExpoManagement.

Autor de mais de vinte livros sobre teoria econômica e economia internacional, ele não nega a existência de uma crise. A desaceleração da China, a fraqueza da economia europeia e a lentidão da melhoria dos Estados Unidos fazem com que a situação mundial seja desfavorável, especialmente para países que dependem da exportação de commodities, como é o caso do Brasil. 

No entanto, Paul vê semelhanças entre a atual situação do Brasil e a de outras nações que também têm registrado baixo crescimento ou mesmo crescimento negativo. Ele explica que países como Canadá e Austrália estão passando por uma crise parecida, mas, nesses casos,  população e governos têm a clara percepção de que ela é temporária e estão otimistas em relação a uma recuperação no médio prazo. Mas por que no Brasil é diferente? Para o economista, essa é uma combinação de alguns fatores:

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A ‘modinha’ passageira dos BRICs
Para Paul, tudo começou quando Jim O’Neill, ex-economista do Goldman Sachs, criou o termo BRICs. “Os países envolvidos – Brasil, Rússia, Índia e China – não têm nada a ver entre si, e essa alta expectativa colocada em cima deles pelo mundo não poderia ser positiva no longo prazo”, diz. “Houve, sim, um crescimento dos mercados emergentes, mas não durou muito. Mesmo a China não vai conseguir desafiar a lei da gravidade econômica – há um limite para o crescimento.”

O histórico brasileiro de inflação elevada
“Historicamente, o Brasil tem inflação elevada. Em momentos como este, apresentar inflação crescente seria algo surpreendente em outras economias – o esperado seria que caísse”, explica Paul. Com o choque duplo da queda dos investimentos estrangeiros e da exportação de commodities, o país sofreu ainda mais economicamente, se vendo forçado a ajustar a taxa de câmbio e adotar políticas orçamentárias e fiscais que reforçaram o problema – seguindo na direção oposta do que outros países fariam. 

A visão derrotista da mídia local e global
“Há também um elemento de pânico espalhado por uma mídia sensacionalista, que tem retratado o Brasil como um caso de desastre total”, critica Paul. Em parte, isso é reação à própria promessa das BRICs que não aconteceu – como grande parte das grandes revistas e meios de comunicação nacionais e internacionais foi entusiasta dessa ideia, o cenário atual impulsiona uma frustração exagerada. Ao mesmo tempo, o pesquisador enxerga uma tendência entre os jornais financeiros de abordar com mais severidade as crises que ocorrem sob governos de centro-esquerda.

A perda de credibilidade do atual governo
Todos os fatores anteriores criam um clima de pessimismo, desconfiança e caos que desestimula os negócios no país, além de moldar políticas públicas que tornam a passagem por esse momento mais penosa e turbulenta – ainda mais para um governo que já tem problemas históricos com gastos descontrolados e corrupção. “Com esse clima de nervosismo, o Banco Central e os definidores de políticas públicas não conseguem adotar uma postura mais calma e esperar que a inflação caia normalmente”, diz o economista.

Diante de tudo isso, como é que Paul Krugman pode estar otimista?

Paul está confiante na recuperação da crise e na retomada do crescimento do país em um futuro próximo. Em comparação com outros países, como a Grécia hoje, a Argentina em 2001 ou a Indonésia em 1998, o tamanho da crise brasileira não é tão grande quando se imagina.

“Não vai ser no mês que vem, nem no ano que vem, mas em breve ficará óbvio que os danos estavam sendo superestimados”, antecipa. Assim que o declínio do real ficar para trás, a economia deve voltar a crescer: a inflação vai cair, as taxas de juros poderão ser reduzidas e, com esse alívio na pressão sobre a economia, a situação orçamentária vai melhorar também. “Não digo que tudo ficará perfeito, mas em alguns anos o Brasil verá uma grande reviravolta”, defende Paul. 

No entanto, se a visão a médio prazo é otimista, a longo prazo ele não acredita que um dia a empolgação com os BRICs será justificada. Em sua opinião, o Brasil nunca vai ser uma ’nova Coréia do Sul’, país que fez a transição completa de emergente para primeiro mundo. “O Brasil sempre teve muito empreendedorismo e dinamismo, mas nunca um crescimento de produtividade profundo a ponto de legitimar essa promessa”, diz. “Em dez anos, o Brasil ainda não será uma supereconomia.”

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