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Entenda o processo criativo do polêmico diretor Oliver Stone

Por Rafael Carvalho

“Se você acredita em algo que ninguém mais acredita, talvez você esteja certo", aconselha o diretor, conhecido por suas produções controversas

Enquanto se dirigia a executivos brasileiros na manhã de hoje (9/11), durante a HSM Expo, o diretor norte-americano Oliver Stone não poderia deixar de falar de política. Afinal de contas, descobrira há algumas horas assim como o resto do mundo que o seu país tinha um novo (e controverso) líder.

Associou a situação com o cinema, sua área de atuação: “Descobrimos uma nova capacidade da sétima arte, a de prever o futuro. De volta para o futuro previu que um bilionário seria o presidente dos Estados Unidos”, brincou, referindo-se a Donald Trump. Ativo nas discussões políticas, Stone era crítico aos dois principais candidatos que concorreram nas eleições americanas mas achava que Trump “não tinha a menor chance”.

Responsável por filmes clássicos como Platoon (1986) e Wall Street (1987) – este último inspirado em seu pai, que era corretor da Bolsa –, Stone foi colega de George W. Bush em Yale, mas largou a universidade para se alistar no Vietnã e lutar durante a guerra. No total, dirigiu ou escreveu mais de 20 filmes, levando Oscar em dois deles: Platoon e Nascido em quatro de julho (1989). Esse ano lança Snowden, em que conta a história do ex-agente da CIA e da NSA que revelou esquemas massivos de espionagem do governo norte-americano mirando outros países e os próprios cidadãos.

O processo criativo de Oliver Stone

“É um ponto importante no mundo moderno essa questão de espionagem, e como nós usamos a informação que nós coletamos”, ele conta. “Eu contei a história do Edward Snowden através dos olhos dele. Esses nove anos em que ele mudou, de um forte conservador tornou-se esse radical progressista”. Aqui existem duas questões interessantes sobre o processo criativo do diretor.

Primeiro: ele se interessa em mostrar pontos de vista novos, muitas vezes o de seu próprio personagem. É um valor que ele vê em fazer diferente, tentar trazer uma perspectiva diferente daquela padrão, popular ou vista na mídia. “Essa é a versão dos fatos de Edward Snowden, e é muito importante ouvi-la porque não é o que está sendo mostrado na imprensa”, defende. “Como dramaturgo, eu entro no ponto de vista do meu personagem. Esse é o meu estilo”.

“O mesmo vale para George Bush, que foi um presidente horrível, mas mesmo assim eu contei a história de sua eleição do ponto de vista dele, de como ele se tornou presidente”, explica, sobre W., drama biográfico que dirigiu baseado na vida e carreira política do ex-presidente.

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Segundo: ele começa a criar a partir de perguntas. Não são pesquisas de mercado, e sim suas próprias dúvidas e inquietações que servem de ponto de partida para as investigações que empreende nos filmes. É o caso da série documental para TV A História não contada dos Estados Unidos. “Eu estava fascinado pelo tema porque estava estudando a atuação do Bush, e queria entender como a guerra aconteceu, e como ele pode ser reeleito. E as resposta estão nessa série”.  

Os assuntos que têm que lhe interessar e lhe instigar. “Eu fiz um filme sobre dois policiais que eram pessoas reais e passaram pelo inferno no World Trade Center. É uma história humana muito interessante”, explica, sobre World Trade Center.

oliver stone dirigindo world trade center


Oliver Stone dirigindo World Trade Center [reprodução]

Como surge de suas inquietações, o processo criativo de Stone também tem muito de político. São usuais temáticas polêmicas em sua obra. Além de Snowden, dirigiu Ao Sul da fronteira e Mi amigo Hugo, ambos sobre o ex-presidente venezuelano Hugo Chávez; uma sequência de dois filmes sobre fraudes financeiras em Wall Street e diversos filmes críticos sobre as guerras empreendidas pelos Estados Unidos.  

O mercado do cinema

A originalidade têm seu preço. Embora já tenha trabalhado com os grandes estúdios de Hollywood, muitos projetos seus são barrados, segundo o diretor, por serem polêmicos. Nisso, ele prefere manter certa independência e critica a corporativização do universo do cinema. Vê com maus olhos a possível compra da Time Warner pela AT&T – que, ironicamente, foi confirmada no decorrer de sua palestra.

Ele acredita que o cinema tem também um papel de impactar a sociedade, mas que não vem sendo bem desempenhado. Na contramão da tendência que observa no mercado, busca deixar um legado positivo (ou ao menos reflexivo) com o que produz.  

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“O filme hoje é feito para lucrar, então são sempre os mesmo temas se repetindo. Mas estamos no século 21, as situações mudaram. Em alguns lugares as pessoas vivem situações terríveis, e o cinema tem que abordar isso, não de uma forma chata, mas de uma forma que envolva”. Para isso, é necessário olhar mais para fora, para os outros – uma capacidade que o cinema americano vem perdendo. “Eles não querem mais olhar para o mundo”.

Por essas e outras, não é tão otimista em relação ao futuro do cinema. Gostaria que as pessoas fossem mais ao cinema em si, mas admite o saudosismo e reconhece que as novas plataformas vieram para ficar, e podem também oferecer experiências muito interessantes.

Conselhos para os jovens

“Nós todos precisamos aprender a engatinhar antes de sair correndo”, respondeu Stone a uma jovem que participava do evento e perguntou sobre como lidar com bloqueios criativos frente a vontade de ser uma grande roteirista. “Eu também tinha muitas ambições quando tinha a sua idade. Escrevia roteiros porque queria entrar na indústria. Meu primeiro sucesso nesse sentido foi com Salvador, mas só consegui sucesso mesmo com Platoon [ambos de 1986, quando o diretor tinha 40 anos]. Tem gente que o sucesso vem antes, logo, mas não foi assim para mim”.

Enquanto isso, o importante é, de fato, ir fazendo as coisas. “Eu visitei muitos países e aprendi muitas coisas. O mundo é cheio de surpresas, e a gente aprende sempre que é apresentado a novas ideias, por novas pessoas, e pouco a pouco vai conseguindo sucesso”, diz.

Aprendeu também a valorizar o prazer que sente naquilo que está fazendo, independente do resultado. Até arrisca um paralelo com o dia a dia corporativo: “Muitas vezes um profissional de marketing, por exemplo, tem que se esforçar muito, trabalhar duro, e às vezes o resultado da campanha, do lançamento depois desse tempo não é o esperado. Mas você sabe que fez um trabalho bom, e isso é bom pra alma, acalma”, explica o diretor.

“Eu aprendi a apreciar todo o conhecimento que eu adquiro na produção de um filme. É mais uma pecinha do quebra-cabeça. É um processo exaustivo esse de constante aprendizado, mas você aprende a não cometer os mesmo erros”. Conclui sua fala com conselho final ao jovem, resumido em uma frase: “Se você acredita em algo que ninguém mais acredita, talvez você esteja certo, e é aí que as coisas mudam”.

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