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Tim Leberecht

Tim Leberecht: não há mágica quando tudo é mensurável

Por Rafael Carvalho

Em palestra sobre a importância do romantismo nos negócios, americano oferece conselhos para empresas e pede: ‘Lutem pelo romantismo. É nosso último refúgio'

Todos os dias, Tim Leberecht acorda como uma referência mundial de marketing. Como CEO da Leberecht & Partners, em São Francisco, ele ajuda empresas a criarem experiências corporativas mais significativas e já trabalhou, no passado, com organizações como Google e Gates Foundation. Em sua visão de mundo, isso envolve trabalhar com romantismo. Não se trata do romance habitual, de velas e flores entre namorados, mas de experiências amplas de deslumbramento e paixão pela beleza do que nos cerca.

Hoje, no entanto, Leberecht despertou mal. “Acordei de coração partido com o resultado das eleições americanas”, começou em sua palestra no HSM Expo, em São Paulo. “A única coisa que me fez sair da cama era o privilégio de estar aqui e falar sobre algo que parece pequeno, mas que é mais importante do que nunca: o romance. Sou uma pessoa de negócios, mas o mundo seria melhor se tivéssemos mais disso em nossas vidas.”

Há tantos objetivos, metas, burocracia a ser cumprida e produtividade a ser comprovada, no entanto, que o cotidiano profissional não parece ser o ambiente mais propício para romancear. É justamente aí, apontou ele, que mora a oportunidade.

Num mundo que passa por grandes transformações na relação entre ser humano e o ato de trabalhar – a consultoria CBRE estima que 50% das ocupações atuais sejam eliminadas até 2025, por exemplo – e em que apenas um terço das pessoas está de fato engajada com seu emprego, tornar-se romântico traz benefícios para a vida pessoal e profissional.

“As máquinas não podem produzir – ainda! – coisas como caráter, espírito e coração. Peço que vocês não ignorem essas coisas que são essenciais para seres humanos assim como solidariedade e compaixão”, falou, ecoando os conselhos de Steve Wozniak.

De maneira resumida, um negócio romântico segue três princípios: faz o bem como cidadão corporativo, faz com que seus empregadores e clientes se sintam bem e permite que todos possam ser eles mesmos de maneira completa no trabalho, não só parcialmente. Não se trata, em si, de esquecer as métricas, mas de entender que elas apenas não bastam. “E o romance tem um retorno sobre investimento: caso você só veja o mundo como é, não vê como poderia inovar”, explicou.

As regras do encanto

As ideias de Leberecht nascem dentro de um contexto maior. A pressão pela produtividade cada vez maior e impecável fez com que surgissem movimentos do tipo “hackeie você mesmo” ou classificação de pessoas, como se os humanos fossem computadores a serem aprimorados ou ranqueados por nota.

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“Começamos a medir o que fazemos para analisar, maximizar e otimizar tudo, como se só uma vida medida fosse uma boa vida”, explicou. “E quando tudo é previsível e mensurável, onde está a mágica? É nosso último refúgio.”

Em seu bestseller “Romantize seus negócios”, de 2015, Leberecht dá 10 conselhos para que negócios aumentem seu nível de romantismo, que ele batizou de “regras do encanto”.

Na palestra, compartilhou três delas:

1. Encontre o importante no pequeno
“O oposto da solidão não é estar conectado, é intimidade”, disse ele, citando a performance da artista Marina Abramovic no Museu de Arte Moderna de Nova York, em 2010, quando ela passou horas fitando estranhos em silêncio. “E estamos muito necessitados em tempos digitais.”



Do ponto de vista corporativo, a pergunta passa a ser: como criar intimidade com pessoas que você conhece, como seus colegas de trabalho?
Pode ser através de uma caminhada offline e de brincadeiras em grupo no escritório que celebrem a vulnerabilidade. O importante é que as pessoas se sintam confortáveis e não sejam ridicularizadas – que se sintam livres para sentir e comparecer por inteiro.

2. Mantenha o mistério
As inovações no campo de processamento de dados trazem novos níveis de transparência e têm muito lados positivos, especialmente na área de prestação de contas. A falta de mistério, porém, afasta o engajamento significativo do consumidor.

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E investir em experiências secretas, temporárias ou pouco familiares é um ótimo jeito de mantê-lo atento e marcar sua memória. Pense em conhecer outros pontos da cidade usando o Pokémon Go, visitar negócios do tipo “pop up”, tirar fotos que somem no Snapchat ou participar de eventos e jantares secretos, sem conhecer mais ninguém. São atos, de fato, emocionantes em algum grau.

“Experiências que nós não processamos completamente ou que não duram tem traços muito fortes de romantismo”, resumiu Leberecht.

3. Sofra (um pouco)
A ideia moderna de gratificação instantânea e conveniência máxima – e a Amazon é o exemplo perfeito – é justificável, mas há ainda algo no cérebro humano que anseia pela descoberta, pela emoção e pela tomada de riscos.

“Por que nós escalamos montanhas para ver os ciclistas da Tour de France por alguns segundos? Por que fazemos fila para ver o lançamento de um produto novo da Apple? Por que milhares de pessoas passam uma semana no meio do deserto para o festival Burning Man, que celebra a autoexpressão?”, questionou. “Precisamos desses tipos de evento para extrair deles significado.”

Quanto mais sacrificamos por algo, continuou, mais significado aquilo tem para nós. A conclusão? “Torne mais difícil para seus clientes conseguir o que eles querem. Assim eles darão valor.”

Introduzindo o romance na empresa

Pelo caráter subjetivo, trabalhar de forma mais romântica ao implementar “regras” como as descrita acima é uma uma decisão individual – e de nada adianta um CEO impô-las num memorando. “Ele diria algo como: ‘Aqui estão 15 indicadores chave e em um ano podemos medir quão românticos somos!’”, brincou. 

Como exemplos de empresários que conseguiram levar o romantismo para seus negócios, o americano cita Richard Branson, Steve Jobs e Elon Musk. São pessoas que tem uma visão clara de como o mundo poderia ser, acreditam que é possível e trabalham para consegui-lo.

Isso se aplica também à conquista contínua da clientela. Uma empresa romântica – como a Virgin, a Apple ou a Tesla, respectivamente – não cria apenas produtos úteis, mas lindos. Oferecer mais que soluções para problemas permite que se crie uma relação apaixonada entre as duas partes.

O lado bom é que cada um pode decidir ser assim por conta própria e começar a construir o que Leberecht chama de músculo romântico – e ele garante os resultados. “Viva de acordo com alguns desses princípios e veja o que acontece. Prometo que serão coisas lindas”, finalizou.

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