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Homem faz trilha pela natureza

Mudança de carreira: de executivo de multinacional ao trabalho com turismo comunitário na Bahia

Por Rafael Carvalho

Marcelo Cavalcanti abriu mão do salário opulento e viagens de primeira classe e, aos 37 anos, mudou-se para uma ecovila escondida na Bahia em busca de uma vida com mais propósito

Emprego em uma das melhores empresas para se trabalhar no país, salário de executivo, viagens internacionais (com direito a passagem de primeira classe e hospedagem em hotéis cinco estrelas) e uma vida cheia de luxo na maior metrópole do Brasil. O sonho de carreira de muitos se tornou uma realidade para o mineiro Marcelo Cavalcanti.

Mas, mesmo com tudo isso, ele logo percebeu que não era bem o que queria. E resolveu recomeçar, por mais que fosse taxado como louco. Mudou-se para uma ecovila escondida na Bahia para trazer um verdadeiro sentido para sua vida. Hoje, com 44 anos, finalmente, consegue levar a vida que pretende: trabalha com turismo de base comunitária em Serra Grande (também na Bahia) e consegue levar a filha caminhando por uma trilha para a escola isso tudo depois de meditar no início do seu dia.   

Para compreender como se deu essa transformação em sua vida, que impulsionou uma mudança de carreira mas foi muito além do âmbito profissional, vale entender um pouco mais a fundo a sua história e suas decisões.  

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Marcelo no Workshop O Chamado, na Pedra do Sabiá [AcervoPessoal]

Primeiros passos de Marcelo Cavalcanti

Antes de entrar na faculdade, Marcelo Cavalcanti fez um intercâmbio na Dinamarca e considera essa a primeira grande mudança de sua vida. Depois, formou-se em Comércio Exterior e logo começou sua batalha para crescer na carreira. Foi vendedor de enciclopédias e trabalhou em uma empresa de pedras preciosas em Belo Horizonte, e depois na empresa que fazia o desembaraço aduaneiro para eles.

Mas o intercâmbio tinha deixado um desejo de, novamente, viver fora do país. “Vendi cookies na faculdade, vendi roupas, promovi festas temáticas para juntar dinheiro para voltar para a Europa e fui morar na Bélgica. Lá eu trabalhei em dois restaurantes e fiz uma pós em relações internacionais, mesmo ainda não tendo concluído a faculdade”, lembra.

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Na volta ao Brasil, acabou sendo selecionado para fazer um estágio em uma empresa canadense do ramo de alimentação, que o levou para viver por seis meses no Canadá. Na volta, decidiu por mais uma mudança. Foi trabalhar em uma empresa de turismo de familiares em Salvador. “Tive um dos momentos mais felizes de minha vida nessa fase, levando turistas para conhecer lugares incríveis e exóticos”, afirma.

Depois desse período em Salvador, voltou para a capital mineira e, durante o Encontro das Américas, evento internacional em que trabalhou, teve contato com diplomatas. “Foi incrível, mas a convivência com os diplomatas me mostrou que a vida deles não era exatamente o sonho que eu tinha, pois eles declaravam ter pouca liberdade em suas vidas pessoais”, conta.

Luxo e depressão 

Ser aprovado em processos seletivos parecia uma rotina para Marcelo, e logo ele conseguiu ser chamado para trabalhar na Nortel Networks, gigante das telecomunicações. “Era a empresa dos sonhos, com sede em um edifício incrível, super luxuoso. O primeiro dia de trabalho foi na Flórida para conhecer a sede nos EUA e morar lá por três meses, como trainee. Fomos tratados como reis. Era café da manhã com o presidente da empresa, viagens de primeira classe, almoço com executivos e tudo o que você pode imaginar”, descreve.

E Marcelo aproveitava tudo o que o emprego podia lhe oferecer. “Eu gostava do status, do conforto. Tinha sessenta gravatas, quinze ternos, não sei quantos pares de sapato e camisas brancas. Ainda muito jovem eu já tinha comprado meu primeiro apartamento e o meu primeiro carro”, conta.

Mas todo esse glamour tem seu preço. “Como era o boom das telecomunicações, tínhamos prazos curtos e multas altíssimas caso perdêssemos as datas acordadas. Assim sendo, acabávamos trabalhando seis, sete dias por semana e muitas horas extras diariamente. Tinha dia que eu chegava às 7h da manhã e ficava até as 23hs no escritório. Mas sentia um grande vazio e uma falta de propósito naquilo que fazia. Viajei bastante nessa época, ainda queria mudar o mundo. Mas estava ocupado demais para fazer isso e sempre ia adiando…”, pondera.

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Foi diagnosticado com depressão e decidiu mudar seu estilo de vida. “Vi que se eu morresse naquele dia [quando passou mal durante uma aula de capoeira], não faria falta para ninguém… E fui chorando, chorando por dias. Senti que precisava trazer um significado maior para a minha vida. Fiz terapia, mas dessa vez não seria mais suficiente. A consciência de que eu estava mal foi o trampolim para a minha recuperação e, a partir daquele momento, me comprometi a viver uma vida de qualidade, com significado”.

Impacto social 

Passou a fazer trabalho voluntário no asilo e na creche que a empresa apoiava e conheceu uma jovem indígena que o levou para visitar aldeias. Em pouquíssimo tempo já estava trabalhando para uma ONG alemã com o tema indígena, para ganhar cerca de um quarto do salário anterior, sem deixar de fazer seus trabalhos voluntários em diversas entidades.  

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Com a esposa Olivia, e a filha Clara Iris [AcervoPessoal]

“Quando sai da Nortel e comecei a trabalhar na área social, vi que aquele CV glamoroso [para se ter uma ideia, ele fala cinco idiomas com fluência] não servia para quase nada naquela nova realidade. Sai em busca de cursos, de atuar como voluntário, de correr atrás do prejuízo, pois sabia que era um caminho sem volta, mas que eu tinha pouca experiência nele. Cheguei a ficar nove meses sem receber nada, pagando para trabalhar. Muita humildade, curiosidade, leituras e conversas”, explica.

A mudança gerou espanto, até mesmo nas pessoas mais próximas. “Muita gente achou que eu estava ficando louco. Minha mãe mesmo falava de mim como se eu estivesse passando por uma fase, que eu já ia voltar ao normal… Namorada e amigos questionavam na época, e daí, quando acabou o dinheiro, até eu comecei a questionar a minha sanidade. Foi aí que eu tive a oportunidade de participar do Fórum Social Mundial em Porto Alegre. E me reencontrar. Duzentos mil loucos como eu, de todas as partes do mundo, ali, lutando por um mundo melhor”.

E seu trabalho na área social começou a aparecer, tanto é que foi chamado para trabalhar na Artemísia, aceleradora que já alavancou mais de 28 milhões de reais para projetos de negócios de impacto social. Foram seis anos como diretor-executivo da organização e muito aprendizado. “Foi muito desafiador para mim começar isso tudo, era um ‘mauricinho subindo o morro´ segundo uma jovem da periferia que se tornou minha amiga. Com a Artemísia tive a oportunidade de ser muito feliz, de me sentir útil, de me conectar com as pessoas, de dar a minha contribuição ao mundo”.  

Durante esse período, viajou o mundo conhece mais de 40 países atualmente e se sentiu feliz profissionalmente. “Senti-me com propósito, viajei para vários países, interagi com jovens do mundo inteiro. Fiz o que queria fazer quando escolhi a profissão de Comércio Exterior. Fui para diversos locais compartilhando sobre os nossos projetos, apoiando os jovens, dando workshops e falas inspiradoras em conferências”, revela.

Adeus, cidade grande

O novo estilo de vida de Marcelo não combinava mais com a cidade grande. Por isso, ao lado de sua esposa Olívia (casaram-se nesse meio tempo!), passou a procurar um local tranquilo para viver e acabou optando por Piracanga (BA). Nessa época, tinha 37 anos de idade.  “Nossa experiência nesse lugar lindo foi incrível e sentimos que cumprimos com muitos de nossos anseios morando lá. Cuidamos de nossa água, de nossa alimentação. Reciclamos nossos resíduos, construímos nossa casa de forma ecológica, com energia solar, paredes de adobe, esteios de aroeira que haviam sido postes, captação de água de chuva, círculos de bananeira como fossas e por aí vai. Ajudamos a conduzir encontros para se tomar decisões coletivas para esses cuidados e participamos ativamente desses momentos”, relata. Lá nasceu sua filha, Clara Íris. “Pude e posso ser um pai muito presente para ela, e me orgulho muito disso”, afirma.

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Vivência de percussão de Turismo de Base Comunitária com o grupo  Levada da Serra, em Serra Grande [Guga Cerqueira]

Depois dessa experiência, Marcelo sentiu necessidade de compartilhar com o mundo tudo que aprendeu nessa ecovila e mudou-se com sua família para Serra Grande, também na Bahia.  “Começamos a sentir um novo chamado para a ação, para ir ainda mais fundo, colocando novamente no mundo esses aprendizados em um lugar na natureza, com pessoas lindas, mas que tem desafios grandes, de desigualdade social, e várias das carências desse nosso Brasil, mas com um grande potencial de mudança”, explica.

Em Serra Grande, Marcelo trabalha na articulação de uma rede de turismo de base comunitária. “Meus dias nunca são iguais. Tenho reuniões, escrevo projetos, desenvolvo novas trilhas, facilito processos, participo de diferentes conselhos aqui da vila e faço pesquisas. Sou articulador do movimento pelo turismo de base comunitária de Serra Grande, mas também atuo com facilitação de encontros e eventos de autoconhecimento de empresas e ONGs aqui na região. Cada vez mais estou envolvido também em receber os grupos de visitantes aqui e os acompanho, organizando roteiros personalizados”, revela.

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Simplicidade e felicidade 

Depois que abandonou a vida na cidade grande, Marcelo percebeu que precisa de muito menos para ser feliz.  “Quando sai da Nortel eu comecei a entrar em um processo de reduzir, de simplificar a minha vida e necessitar de menos para viver. Eu morava em um apartamento de três quartos, piscina no Morumbi, em São Paulo. Cada quarto tinha um armário cheio de roupas minhas. Ao sair da empresa eu me dei conta que precisava de menos de um terço daquilo que eu tinha e fui doando minhas coisas. É o conceito da simplicidade voluntária, de ter menos, de precisar de menos coisas e ter mais qualidade”, relata.

Ele ainda recebe convites para voltar à cidade grande, em empregos e estilo de vida que ele parece não querer mais. “Meus amigos que trabalharam comigo me ligavam para dizer que tinham um trabalho para mim, uma nova oportunidade. E eu agradecia, dizia que estava feliz. Daí a pessoa insistia, dizia para mandar um currículo, que o trabalho era excelente, muito bem pago, a minha cara… Daí eu tinha até que ser um pouco grosso e dizer:  ‘agradeço, mas NÃO estou buscando um trabalho nesse momento’. Estou feliz, fazendo aquilo que acredito”, diz.

Diante de tantas mudanças de rumo em sua vida, Marcelo tem a convicção que as pessoas devem correr atrás de seus sonhos. “Acredito que a gente merece seguir os nossos sonhos, que a gente está aqui nesse mundo para ser feliz. Viver como se fosse o último dia e sonhar como se não houvesse nunca um fim. É preciso brilho no olho, é preciso se sacrificar para bancar o sonho. Por que nem sempre é fácil. Tem que perseverar, ter muita fé. E depois você vê que valeu a pena! Sempre vale!”.

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