Um Projeto: Fundação Estudar
Equipe da Kidopi

Este jovem transformou um projeto universitário em negócio social premiado pela ONU e pelo MIT

Por Redação, do Na Prática

Mario Sérgio Adolfi Júnior, CEO da Kidopi, fala sobre as oportunidades e desafios de empreender na saúde e porque o fracasso faz parte da jornada

Ao folhear um manual da Universidade de São Paulo para candidatos, a mãe de Mario Sérgio Adolfi Júnior se deparou com um curso novo e que combinava perfeitamente com o que filho buscava: Informática Biomédica.

Combinava sua afinidade com ciências exatas e seu interesse por saúde pública, alimentado por anos de experiências com o irmão, que tem uma doença respiratória crônica, e com a avó, que teve sequelas sérias após um atendimento lento para tratar um AVC.

“Foram coisas que me fizeram ver como a organização na saúde é importante”, resume ele, hoje CEO da Kidopi, um negócio social que cofundou na faculdade e que oferece soluções tecnológicas de gestão para hospitais, planos de saúde e clínicas médicas.

Entre elas estão HealthBI, um programa que oferece a gestores hospitalares acesso à indicadores e ferramentas de gestão em tempo real, e CleverCare, um programa de gestão e acompanhamento de pacientes via SMS.

Hoje são cinco clientes de grande porte, incluindo a Unimed em Belo Horizonte, Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto e o Hospital Albert Einstein, em São Paulo. 

Mario Sérgio também já foi um dos palestrantes do Liderança Na Prática 16h, programa de formação de lideranças voltado para jovens universitários e recém-formados e que já teve edição realizada em Ribeirão Preto. Lá ele compartilhou um pouco da sua história e aprendizados, e que você também pode conferir ao longo dessa matéria.

Para saber sobre outras edições abertas do Liderança Na Prática 16h pelo Brasil inteiro, clique aqui.

A história da Kidopi

Apesar da vontade, Mario – que integra a rede Talentos da Saúde da Fundação Lemann, uma organização que apoia a formação de lideranças nas áreas de Educação, Gestão Pública e Saúde Pública – nunca cogitou ser médico.

Já na graduação, que exigiu uma mudança de São Paulo para Ribeirão Preto em 2005, começou a pensar em maneiras de usar tecnologia de ponta para resolver problemas na área de saúde.

No meio tempo, cofundou a InfoBio Jr, primeira empresa júnior do curso. Ali, foi diretor de projetos e presidente e adquiriu seus primeiros conhecimentos sobre gestão, complementados com aulas do curso de Administração no campus da USP.

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No fim de 2008, empolgado com a experiência que teve empreendendo na empresa júnior, decidiu criar o próprio negócio ao lado dos amigos Fabio Marcon Pallini e Hugo Cesar Pessotti.

Houve também outros componentes importantes na decisão: apesar de gostar de pesquisas acadêmicas, ele queria aproveitar um segmento novo e fazer algo que tivesse impacto social rapidamente.

“Vi que ainda não tinha muito mercado, já que era um curso novo, e que as empresas que atuavam nele não inovavam. Foi quando pensei: ‘aqui tem espaço para criar’”, explica. “E então fui atrás de um problema real para resolver.”

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Um começo frenético

O começo da Kidopi – que une os apelidos de faculdade dos três fundadores – foi frenético.

Num estágio no hospital universitário da USP em Ribeirão Preto, Mario observou um processo central confuso utilizado pelo governo para transferir pacientes urgentes de um hospital para outro, que envolvi papel, caneta e ligações individuais entre 8 hospitais.

Decidiu automatizar e acelerar o processo através da análise de dados. Ao mostrar um protótipo para o professor – “nem sabia o que era MVP na época”, ri –, recebeu uma aprovação animada.

O projeto também foi aprovado pelo diretor regional de saúde, que representava o governo estadual e convidou o trio a se candidatar em uma competição governamental sobre aquele tema que duraria um ano e envolveria um projeto piloto.

“Não iam nos pagar, mas estávamos loucos atrás de uma oportunidade”, lembra Mario.

Hugo e Mario, da Kidopi[Hugo Cesar Pessotti e Mario / Foto: Reprodução]

Entre janeiro e julho de 2009, os três passaram dias e madrugadas desenvolvendo um sistema que funcionasse em computadores antiquados e internet discada, como exigiam alguns equipamentos da época.

Quando estava tudo pronto, viram que podiam mais: ao invés de testar em um município e um hospital, resolveram se prontificar a testar nos 26 municípios e 8 hospitais da região.

“Conversamos com todos os prefeitos, secretários e hospitais”, fala Mario, que alterou o discurso para cada um dos grupos. “De repente, éramos três malucos de 21 anos tocando as transferências de 1,2 milhão de pessoas.”

Apesar de manterem o sistema antigo como backup, poucos hospitais os utilizaram. Ao fim do piloto, 98% dos casos foram resolvidos pelo sistema da Kidopi, que foi premiado pelo governo estadual.

“Como nós três nos dividíamos em plantões, pudemos ver as pessoas sendo salvas. Foi ótimo fazer algo que gerava impacto”, lembra.

Com tantos elogios, passar na licitação para ter o programa implementado seria fácil, imaginaram – mas não deu certo.

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Desafios de empreender

Após oito meses esperando resposta do governo, a licitação enfim veio – e a Kidopi não se encaixava nos requisitos, apesar do projeto vencedor.

“Aí quebramos e voltamos a depender de tudo. Um dos sócios saiu da empresa e a situação era difícil. Estávamos desanimados.”

Resolveram remodelar o negócio na Supera, uma incubadora da USP, e aproveitaram para desenvolver melhor uma ferramenta de previsibilidade que tinham criado para identificar gargalos na gestão de hospitais.

“Análise de dados era um caminho interessante na saúde, já que hospitais têm muitos dados mas não fazem nada com isso”, explica Mario.

Outro impulso veio do mesmo professor que tinha acompanhado toda a história. Ele convidou o jovem para fazer um doutorado em Ciências Médicas na USP e lhe deu “carta branca” para continuar empreendendo. “Foi um apoio na hora que precisávamos”, fala Mario.

Para ter fluxo de receita, a Kidopi se dedicou a criar outras soluções ainda vigentes, como o (Sisos). Após terem verbas reprovadas pela Fapesp e pelo CNPq, reaplicaram e foram aprovados em ambas. A equipe cresceu e, além de Mario e Hugo, passou a ter outras seis pessoas.

“Foram dois anos vivendo por aparelhos”, resume Mario. “O bom é que, no fundo do poço, você se apega às essências do que está fazendo.”

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A guinada

Em 2013, quando já tinham desenvolvido o HealthBI, foram acelerados pela Artemísia, uma organização sem fins lucrativos que visa auxiliar negócios de impacto social, e fortaleceram a empresa e o networking. “Foi um divisor de águas”, define Mario.

Fizeram amizade com Fernando Assad, o empreendedor por trás da Vivenda, outro negócio social sendo acelerado na mesma turma. Através de uma parceria, colocaram o HealthBI em 13 unidades básicas de saúde em favelas do Rio de Janeiro.

Conheceram também os empreendedores do HandTalk, um premiado app de acessibilidade, que os apresentaram a representantes da Organização das Nações Unidas responsáveis pelo World Summit Award, um prêmio de inovação digital.

Em 2014, ganharam a versão brasileira da competição e exposição na mídia. Pouco depois, Mario foi escolhido pelo MIT Technology Review como um dos 10 jovem mais inovadores do Brasil.

Apesar de todos os louros, a Kidopi enfrentava um entrave importante: os hospitais que abordava não queriam liberar acesso aos dados internos. Para uma empresa de análise de dados, era impossível fazer de outro jeito.

Foi quando surgiu a ideia do CleverCare, uma versão do mesmo algoritmo do HealthBI com adições de contexto e diálogo em português.

 

“Para realmente prever como cliente está, precisamos saber como ele está em casa”, explica Mario. Em Ribeirão Preto, por exemplo, o programa é utilizado para monitorar pacientes que receberam transplantes de fígado e hipertensão.

Através dele, os pacientes de hospitais podem enviar diretamente à Kidopi dados sobre medicação e como se sentem. Também é possível que tenham um diálogo ativo e façam perguntas sobre o tratamento.

Na mesma época em que desenvolveram o produto, o hospital Albert Einstein, um dos mais importantes do país, fez contato de repente: queria saber mais sobre os produtos e aplicá-los em seu negócio.

Foram dias de reuniões com a diretoria que resultaram numa parceria ainda vigente.

“Para eles, a questão de que ninguém estava usando o produto era uma possibilidade de serem pioneiros”, fala Mario. “Ter o Einstein – que também se tornou investidor da Kidopi – como case facilitou nossa vida.”

Quer empreender? Desfaça ilusões

Além de pensar em outras novas soluções para o futuro e numa expansão internacional, Mario também dá palestras em universidades e para jovens empreendedores.

Um dos aspectos que mais desenvolve nessas apresentações é justamente aquele que muitos escondem: os erros e fracassos que um empreendedor necessariamente viverá.

“Prêmios importantes abrem portas, mas quem está começando pode ver aquilo e pensar: ‘Ah, olha o que eles conseguiram! Eu não sou capaz.’  Isso é uma grande ilusão”, afirma. “Gosto muito da frase do Winston Churchill: ‘O sucesso é ir de fracasso em fracasso sem perder o entusiasmo.’ Não se deixe abater.”

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Assista também!

O perfil de um empreendedor de sucesso segundo Pedro Passos, co-fundador da Natura:

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