Um Projeto: Fundação Estudar
pessoas agachadas selecionando fotografias

Inventure Cycle: como pensar de forma empreendedora?

Por Rafael Carvalho

De onde vêm inspiração, imaginação e criatividade para criar uma startup? Steve Blank tem uma metodologia para transformar inspiração em inovação!

O Lean Startup é um processo para transformar ideias em empreendimentos comerciais. Sua premissa é a de que as startups começam com uma série de hipóteses não testadas e se tornam bem-sucedidas ao sair do escritório, testar essas hipóteses e aprender através da repetição e refino de produtos minimamente viáveis (MVP) diante de potenciais clientes.

Isso é tudo muito bom se você já tem uma ideia. Mas de onde é que as ideias para uma startup vêm? De onde vêm inspiração, imaginação e criatividade? E como é que tudo isso se relaciona à inovação e ao empreendedorismo? O Inventure Cycle pode te ajudar.

Sinceramente, eu nunca tinha parado para pensar nisso. Como empreendedor, meu problema era que eu tinha ideias demais. Minha imaginação rodava vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, e para mim todo problema era um desafio para resolver e um novo produto para criar. Só quando eu comecei a dar aulas foi que eu percebi que a cabeça das outras pessoas não funciona da mesma forma. Com o lean startup, ganhamos um processo para transformar ideias em negócios, mas continuamos sem resposta para esta questão: “de onde é que as ideias vêm? E como podemos obtê-las?”

Me preocupava o fato de que, na prática do empreendedorismo (incluindo o lean startup), estivesse faltando um conjunto de ferramentas para soltar a imaginação dos meus alunos e um método para aplicar a sua criatividade. Percebi que o processo de inovação/empreendedorismo precisava de uma “base”: as habilidades e processos que impulsionam a imaginação e criatividade de um empreendedor. Precisávamos definir a linguagem e as peças que compõem uma “mentalidade empreendedora.”

Por sorte, isso aconteceu bem quando eu estava dando aula em Stanford no mesmo departamento que a Tina Seelig. A Tina é professora de Prática na Escola de Engenharia da Universidade de Stanford e Diretora Executiva do Programa de Empreendimentos Tecnológicos da universidade. Quando li seu livro Ingenium: Um Curso Rápido e Eficaz Sobre Criatividade, percebi pela primeira vez que alguém tinha desvendado o mistério de como transformar a imaginação e a criatividade em inovação.

Compartilho aqui as ideias mais recentes da Tina sobre as habilidades fundamentais necessárias para se construir um novo empreendimento:

Existe uma demanda insaciável por inovação e empreendedorismo. Essas habilidades são necessárias para ajudar os indivíduos e empreendimentos a prosperarem em um mercado competitivo e dinâmico. No entanto, muitas pessoas não sabem por onde começar, afinal, não tem nenhum caminho delimitado entre a inspiração e a implementação.

Outras áreas — como a Física, a Biologia, a Matemática e a Música — têm uma enorme vantagem quando se trata de ensinar esses tópicos, já que eles têm termos bem-definidos e um modelo de relacionamentos que proporciona uma abordagem estruturada para dominar essas habilidades. E é exatamente disso que precisamos em empreendedorismo! Do contrário, só nos resta a crença obstinada de que essas habilidades não podem ser ensinadas ou aprendidas.

A seguir, você conhecerá uma proposta de definições e relações para o processo de dar vida às ideias que eu chamo de Inventure Cycle. Esse modelo fornece um andaime de competências, começando com a imaginação e levando a um aumento coletivo na atividade empreendedora.

Veja a seguir os quatro passos para o Inventure Cycle:

1. Imaginação é vislumbrar o que não existe

2. Criatividade é aplicar a imaginação para enfrentar um desafio

3. Inovação é aplicar a criatividade para gerar soluções únicas

4. Empreendedorismo é aplicar a inovação, concretizando ideias e inspirando a imaginação dos outros

Esse é um círculo virtuoso: empreendedores manifestam suas ideias, inspirando a imaginação dos outros, incluindo aqueles que se juntam a eles financiando o empreendimento e comprando os produtos. Esse modelo é relevante para startups e empresas estabelecidas, bem como para inovações de todos os tipos, em que a realização de uma nova ideia — seja ela um produto, serviço ou obra de arte — resulta em um aumento coletivo de imaginação, criatividade e empreendedorismo.

Esse modelo nos permite analisar o percurso, descrevendo as ações e atitudes necessárias a cada passo ao longo do caminho:

1. Imaginação exige engajamento e a capacidade de vislumbrar alternativas

2. Criatividade exige motivação e experimentação para enfrentar desafios

3. Inovação exige foco e reformulação para gerar soluções únicas

4. Empreendedorismo exige persistência e a capacidade de inspirar outras pessoas

Nem todas as pessoas em um empreendimento precisam ter todas as habilidades do ciclo, mas o empreendimento como um todo precisa cobrir todos esses pontos. Sem imaginadores que se envolvam e tenham visão, não há oportunidades atraentes para resolver. Sem criadores que estejam motivados a experimentar, problemas de rotina não são solucionados. Sem inovadores que se concentrem em pressupostos desafiadores, não há novas ideias. E sem empreendedores que inspirem os outros persistentemente, inovações ficam para sempre no papel.

Vamos ver um exemplo de como esses princípios funcionam:

Como membro da área de inovação em Biodesign na Universidade de Stanford, Kate Rosenbluth passou meses em um hospital acompanhando de perto neurologistas e neurocirurgiões a fim de compreender as maiores necessidades não satisfeitas dos médicos e seus pacientes.

Imaginação: Na fase de imaginação, Kate trabalhou com uma equipe de engenheiros e médicos para fazer listas de centenas de problemas que precisavam de solução, de questões ambulatoriais a desafios cirúrgicos. Por estar imersa no hospital com um olhar atento, ela foi capaz de ver oportunidades de melhoria que tinham sido negligenciadas. Esse estágio exigiu empenho e visão.

Criatividade: Na fase da criatividade, a equipe se surpreendeu com o número de pessoas que lutam com tremores nas mãos que os impedem de segurar uma xícara de café ou abotoar uma camisa. Eles aprenderam que até 6 milhões de pessoas nos Estados Unidos sofrem de Parkinson e outros problemas que causam tremores. O tratamento mais eficaz é a estimulação cerebral profunda, um procedimento caro que requer implantar permanentemente fios no cérebro e uma bateria na parede torácica. Como alternativa, os pacientes tomam medicamentos que frequentemente têm efeitos colaterais incapacitantes. A equipe foi impulsionada a ajudar esses pacientes e começou a se reunir com os peritos, analisando a literatura a respeito e testando tratamentos alternativos. Nessa etapa, foram necessárias motivação e experimentação.

Inovação: Na fase da inovação, Kate teve um insight que mudou a maneira como ela via o tratamento de tremores. Ela questionou o pressuposto de que o tratamento tinha de focar a raiz do problema no cérebro e, em vez disso, focou o sistema nervoso periférico das mãos, onde os sintomas ocorrem. Ela fez uma parceria com um professor de Stanford, Scott Delp, para desenvolver e testar um tratamento relativamente barato, não invasivo e eficaz. Nesse estágio, foi preciso foco e capacidade de questionar e reformular ideias.

Leia também: Dez cursos rápidos que mudam a vida de um empreendedor

Empreendedorismo: Na fase de empreendedorismo, Kate lançou uma empresa, a Cala Health, para desenvolver e oferecer novos tratamentos para tremores. Ela ainda vai enfrentar inúmeros desafios ao longo do caminho para trazer os produtos para o mercado, incluindo a contratação de uma equipe, a busca pela aprovação da FDA (a agência de vigilância sanitária dos Estados Unidos), o levantamento de rodadas subsequentes de financiamento, e a fabricação e comercialização do dispositivo. Essas tarefas vão exigir persistência, inspirando outros a continuar empreendendo.

Durante o desenvolvimento do primeiro produto, Kate teve insights adicionais, que estimularam novas ideias para o tratamento de outras doenças com uma abordagem similar, fechando o círculo de volta na imaginação!

O Inventure Cycle é a base de estruturas para a inovação e o espírito empreendedor como o Design Thinking e o Lean Startup. Ambos se concentram na definição de problemas, gerando soluções, construindo protótipos e reformulando ideias com base em feedbacks. O Inventure Cycle descreve habilidades fundamentais para que esses métodos funcionem. Assim como devemos dominar a Aritmética antes de mergulhar em Álgebra ou Cálculo, é preciso desenvolver o espírito empreendedor e a metodologia antes de projetar produtos e lançar empreendimentos.

Ao entender o Inventure Cycle e aperfeiçoar as habilidades necessárias para completá-lo, identificamos mais oportunidades, desafiamos mais pressupostos, geramos soluções únicas e tiramos mais ideias do papel.

Com definições claras e um modelo que ilustra a relação entre cada etapa, o Inventure Cycle nos dá o caminho da inspiração até a implementação. Ele capta as habilidades, atitudes e ações necessárias para promover a inovação e trazer cada vez mais ideias inovadoras para empreender o mundo.

Steve Blank é um empreendedor serial que se tornou educador e está mudando a forma como startups são construídas e como empreendedorismo é ensinado. Ele criou a metodologia Customer Development (Desenvolvimento de Cliente), que gerou o movimento Lean Startup, e escreveu sobre o processo em seu primeiro livro, The Four Steps to the Epiphany

. Seu segundo livro, Startup. Manual Do Empreendedor. O Guia Passo A Passo Para Construir Uma Grande Empresa, é um guia passo a passo para montar um negócio de sucesso. Blank já deu aula em Stanford University, U.C. Berkeley, UCSF, NYU, Columbia University, The National Science Foundation e The National Institutes of Health. Ele escreve regularmente sobre empreendedorismo em www.steveblank.com, onde o artigo apareceu pela primeira vez.

Este artigo traduzido foi originalmente publicado em Endeavor

 

Dica do Na Prática:

Ainda não sabe qual rumo dar para a sua carreira? Não deixe de conhecer bem de perto o mercado de trabalho antes de tomar qualquer decisão, pois um erro nesta etapa pode gerar grandes frustrações, te levando até caminhos que não fazem sentido para você. Mas fique tranquilo, foi pensando neste desafio que a Fundação Estudar criou o Carreira Na Prática, um curso no qual você irá visitar empresas, entender a rotina de trabalho e tirar dúvidas com profissionais para tomar decisões mais embasadas. Inscreva-se até este Domingo, 29/05, com 20% de desconto usando o cupom MINHACARREIRA. Clique aqui para saber mais!

 

 

O que achou do post? Deixe um comentário ou marque seu amigo