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encontrar seu propósito

O conselho deste jornalista sobre carreira pode te ajudar a encontrar seu propósito

Por Suria Barbosa

Em 1958, o jornalista Hunter Thompson - autor de "Medo e Delírio em Las Vegas" -, aconselhou um amigo em carta em que detalha sua visão sobre propósito e decisões que impactam toda a vida.

Hunter Thompson foi um jornalista e escritor conhecido por ter criado o estilo “Jornalismo Gonzo”, em que fatos e ficção se misturam. Entre suas obras mais conhecidas estão “Medo e Delírio em Las Vegas” e “Diário de um Jornalista Bêbado”. Ambas tiveram adaptações para o cinema e contaram com o ator Johnny Depp como protagonista.

O ponto aqui, no entanto, não é a contribuição de Thompson para os campos da escrita e jornalismo, mas sim o conselho que deu para um amigo sobre escolhas profissionais e encontrar seu propósito. Em abril de 1958, com 22 anos, ele escreveu uma carta para Hume Logan, respondendo a um pedido do colega, em que detalha sua visão sobre missão, objetivos e decisões que impactam toda a vida.

Confira a tradução do Na Prática (o original você pode ler aqui):

 

 

 

“Querido Hume,

 

Você pede conselhos: ah, que coisa mais humana e mais perigosa de se fazer! Pois dar conselhos a um homem que pergunta o que fazer com sua vida implica algo muito próximo da egomania. Presumir apontar um homem para um objetivo certo e último – apontar com um dedo trêmulo na direção CERTA é algo que apenas um tolo faria.

Não sou tolo, mas respeito sua sinceridade ao pedir meu conselho. Peço-lhe, porém, que, ao ouvir o que digo, lembre-se de que todo conselho pode ser apenas um produto do homem que o dá. O que é verdade para um pode ser um desastre para outro. Não vejo a vida através dos seus olhos, nem você através dos meus. Se eu tentasse lhe dar um conselho específico, seria muito parecido com o cego guiando o cego.

‘Ser ou não ser: eis a questão: se é mais nobre sofrer os arremessos e flechas da fortuna ultrajante, ou tomar armas contra um mar de problemas …’ (Shakespeare)

E, de fato, essa é a questão: flutuar na maré ou nadar em busca de um objetivo. É uma escolha que todos devemos fazer consciente ou inconscientemente em um ponto de nossas vidas. Tão poucas pessoas entendem isso! Pense em qualquer decisão que você já tomou que tenha relação com seu futuro: posso estar errado, mas não vejo como isso poderia ter sido outra coisa senão uma escolha, ainda que indireta – entre as duas coisas que mencionei: flutuar ou nadar.

Mas por que não flutuar se você não tem objetivo? Essa é outra questão. É inquestionavelmente melhor apreciar a flutuação do que nadar na incerteza. Então, como um homem encontra uma meta? Não é um castelo nas estrelas, mas uma coisa real e tangível. Como um homem pode ter certeza de que não está atrás da “grande montanha doce”, a sedutora meta que tem pouco sabor e nenhuma substância?

A resposta – e, em certo sentido, a tragédia da vida – é que procuramos entender a meta e não o homem. Estabelecemos uma meta que exige de nós certas coisas: e fazemos essas coisas. Nós nos ajustamos às demandas de um conceito que NÃO PODE ser válido. Quando você era jovem, digamos que você queria ser bombeiro. Sinto-me razoavelmente seguro em dizer que você não quer mais ser bombeiro. Por quê? Porque sua perspectiva mudou. Não é ‘ser bombeiro’ que mudou, mas você. Todo homem é a soma total de suas reações à experiência. À medida que suas experiências diferem e se multiplicam, você se torna um homem diferente e, portanto, sua perspectiva muda. Isso continua e continua. Toda reação é um processo de aprendizado; toda experiência significativa altera sua perspectiva.

Então, seria tolice, não seria, ajustar nossas vidas às demandas de uma meta que vemos de um ângulo diferente a cada dia? Como poderíamos esperar realizar algo além de [ter uma] neurose galopante?

A resposta, então, não deve lidar com objetivos de forma alguma, ou com objetivos tangíveis, ao menos. Seria necessário resmas de papel para desenvolver esse assunto até a conclusão. Só Deus sabe quantos livros foram escritos sobre “o significado do homem” e esse tipo de coisa, e só Deus sabe quantas pessoas ponderaram sobre o assunto. (Eu uso o termo “só Deus sabe” apenas como expressão.) Há muito pouco sentido na minha tentativa de entregá-lo em poucas palavras, porque sou o primeiro a admitir minha absoluta falta de qualificações para reduzir o sentido da vida a um ou dois parágrafos.

  • Vou me afastar da palavra “existencialismo”, mas você deve ter isso em mente como uma espécie de chave. Você também pode tentar algo chamado ‘O Ser e o Nada’, de Jean-Paul Sartre, e outra coisinha chamada ‘Existentialism: from Dostoevsky to Sartre’. Estas são apenas sugestões. Se você está realmente satisfeito com o que você é e o que está fazendo, dê a esses livros um amplo espaço. Mas voltemos à resposta. Como eu disse, confiar em objetivos tangíveis parece, na melhor das hipóteses, imprudente. Portanto, não nos esforçamos para ser bombeiros, não nos esforçamos para ser banqueiros, nem policiais, nem médicos. Nós nos esforçamos para ser nós mesmos.

Mas não me entenda mal. Não quero dizer que não podemos ser bombeiros, banqueiros ou médicos – mas devemos fazer com que a meta de adapte ao indivíduo, em vez de fazer com que o indivíduo se adapte à meta. Em todo homem, a hereditariedade e o ambiente se combinam para produzir uma criatura com certas habilidades e desejos – incluindo uma necessidade profundamente arraigada de funcionar de tal maneira que sua vida seja SIGNIFICATIVA. Um homem tem que SER alguma coisa; ele tem que importar.

Na minha opinião, a fórmula é mais ou menos assim: o homem deve escolher um caminho que permita que suas HABILIDADES funcionem com a máxima eficiência em direção à satisfação de seus DESEJOS. Ao fazer isso, ele está cumprindo uma necessidade (dando a si mesmo identidade ao funcionar em um padrão definido em direção a um objetivo definido), evita frustrar seu potencial (escolhendo um caminho que não limite o seu autodesenvolvimento) e evita o terror ao ver seu objetivo murchar ou perder seu charme à medida que ele se aproxima dele (em vez de se inclinar para atender às demandas daquilo que procura, ele dobrou seu objetivo para adaptá-lo às próprias habilidades e desejos).

Em resumo, ele não dedicou sua vida a alcançar um objetivo predefinido, mas escolheu um modo de vida que SABE que desfrutará. O objetivo é absolutamente secundário: é o funcionamento em direção ao objetivo que é importante. E parece quase ridículo dizer que um homem DEVE funcionar em um padrão de sua própria escolha; pois deixar outro homem definir seus objetivos é abandonar um dos aspectos mais significativos da vida – o ato definitivo de vontade que torna o homem um indivíduo.

Vamos supor que você tenha oito opções a seguir (todos os caminhos predefinidos, é claro). E vamos supor que você não consiga ver nenhum propósito real em nenhum dos oito. ENTÃO – e aqui está a essência de tudo que eu disse – você DEVE ENCONTRAR UM NONO CAMINHO.

Naturalmente, não é tão fácil quanto parece. Você viveu uma vida relativamente estreita, uma existência vertical e não horizontal. Portanto, não é muito difícil entender por que você parece se sentir assim. Mas um homem que procrastina em sua ESCOLHA inevitavelmente terá sua escolha feita por ele pelas circunstâncias.

Portanto, se você se encontrar agora entre os desencantados, não terá outra opção a não ser aceitar as coisas como elas são, ou procurar seriamente outra coisa. Mas cuidado com a busca de metas: procure um modo de vida. Decida como você deseja viver e veja o que pode fazer para ganhar a vida DENTRO desse modo de vida. Mas você diz: ‘Não sei para onde olhar; Não sei o que procurar.’

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E existe o ponto crucial. Vale a pena desistir do que tenho para procurar algo melhor? Eu não sei – vale? Quem pode tomar essa decisão, além de você? Mas, mesmo ao DECIDIR PROCURAR, você vai percorrer um longo caminho para fazer a escolha.

Se eu não parar, vou acabar escrevendo um livro. Espero que não seja tão confuso quanto parece à primeira vista. Tenha em mente, é claro, que este é o MEU JEITO de olhar as coisas. Por acaso, acho que é bastante aplicável em geral, mas você pode não aplicar. Cada um de nós tem que criar nosso próprio credo – esse é simplesmente o meu.

Se alguma parte [da minha visão] parece não fazer sentido, de todo jeito, me avise. Não estou tentando colocá-lo ‘na estrada’ em busca de Valhalla, mas apenas apontando que não é necessário aceitar as escolhas que lhe são dadas pela vida como você a conhece. Há mais do que isso – ninguém tem que fazer algo que não quer fazer pelo resto da vida. Mas, novamente, se é isso que você acabar fazendo, certamente, convença-se de que você TEVE que fazer isso. Você terá bastante companhia.

E é isso por enquanto. Até eu ter notícias suas novamente, eu permaneço

 

seu amigo,
Hunter

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