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Profissionais do Itaú, YouTube e outras compartilham experiências criativas

Por Rafael Carvalho

Durante evento promovido no Dia Mundial da Criatividade pelo ProjectHub, profissionais de diversas indústrias se reuniram para trocar experiências sobre como a criatividade pode ser promovida dentro e fora das corporações

No último dia 17 de novembro, o Brasil participou pela primeira vez das comemorações do Dia Mundial da Criatividade. Isso aconteceu no formato de um evento, organizado pela ProjectHub, de Lucas Foster, e ocupou todo o dia no moderno prédio da Escola Britânica de Artes Criativas, recém inaugurada, na Vila Madalena, em São Paulo.

Ali, reuniram-se jovens profissionais, empreendedores, pensadores e executivos de grandes empresas que investem em inovação de diversas maneiras para apresentar cases, discutir cenários e compartilhar perspectivas. O Dia Mundial da Criatividade também acolheu o encerramento da SPTW, a São Paulo Tech Week. O Draft foi parceiro de mídia do evento e, a seguir, reuniu algumas das principais falas dos participantes.

A agenda começa com Denise Hills, superintendente de sustentabilidade do Itaú Unibanco. “Sustentabilidade, dentro de uma empresa, vai bem além de lixinhos coloridos. A sociedade está mudando, o consumidor percebe que consumir é um ato político”, diz.

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Ela conta que no Itaú há um grupo de trabalho discutindo diversidade — inclusive geracional também — traz o case do banco digital com as vovós. “Vai além de uma campanha. Fizemos um evento para as pessoas acima de 60 anos, com treinamentos de segurança, tanto numa agência bancária como numa compra online. A nova relação entre as pessoas e as marcas está aí, acontecendo. Precisamos correr atrás”, conta. E sonha com ainda mais mudanças: “Espero o dia em que todos os investidores do banco queiram falar de questões socioambientais também”.

dia mundial da criatividade
Palestra durante Dia Mundial da Criatividade [ProjectHub]

Em seguida, Nayara Ruiz, coordenadora de Digital PR do Bradesco, contou como a sua área lida com influenciadores digitais, em diversos âmbitos. “O objetivo de enviar lembranças não é awareness, é criar um relacionamento do Bradesco com eles. Outra parte do nosso trabalho com eles é cocriar conteúdo. E, ainda, patrocinar eventos como o youpix, que hoje virou uma pegada de discutir o mercado”, diz. Ela fala também de como o Bradesco patrocinou os Jogos Olímpicos 2016 e o revezamento da tocha olímpica, gerando novas interações e aprendizados.

Maia Mau, head de Marketing do YouTube Brasil atualizou a plateia do universo em que está inserida. “O Brasil é o segundo mercado do YouTube no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. E 60% dessa audiência é mobile”, diz, e conta o que faz um youtuber se destacar: autenticidade, relevância e humor. Entre as 10 maiores celebridades do país, cinco são youtubers. “O Youtube é a primeira vitrine desse conteúdo, que depois se expande para TV, livros, álbum de figurinhas, eventos etc.” Nesse contexto, ela dá um destaque especial ao canal YouTube Educação, que conta com a curadoria da Fundação Lemann para abalizar milhares de conteúdos educativos. “Vemos cada vez mais alunos consumirem isso, e até professores, trazendo uma forma diferente de ensinar na sala de aula.”

No bate papo seguinte, Roberta Simões, da equipe de relações institucionais da Braskem conta como funciona, dentro da química, a gestão de projetos inovadores e criativos — com destaque para o Braskem Labs: “Cada projeto da Braskem é como uma pequena empresa e seus líderes, os intraempreendedores, têm responsabilidades como se fossem CEOs”.

Ela conta que o Braskem Labs é uma forma de tangibilizar o impacto positivo da empresa, capacitando empreendedores. “Buscamos os que trabalham com plástico, que tenham impacto sócio ambiental,  sejam inovadoras e tenham potencial de mercado. Esse ano abrimos uma categoria especial para soluções que combatessem o Aedes aegypti, quer usassem os nossos produtos ou não”, conta. E fala de como foi o início do programa: “Quando abrimos o Braskem Labs, não sabíamos sequer se existiam empresas trabalhando nisso, e percebemos que existem muitas”.

Da teoria para a prática

A seu lado, em frente à plateia, estavam os irmãos Lucio e Julio Oliveto, fundadores da Livre, uma startup cujo produto, o Kit Livre, transforma qualquer cadeira de rodas em um triciclo motorizado elétrico. Eles contam que o projeto é mais antigo, mas que o produto começou a ser comercializado apenas no ano passado. Em um ano e meio, eles já entregaram 250 kits e, no ano que vem, graças à entrada de um investidor — fruto da visibilidade que eles tiveram ao participar do Braskem Labs — querem chegar a 1 200 unidades entregues.

Julio fala que o propósito da empresa é dar mais autonomia e liberdade a quem usa cadeira de rodas: “Nosso grande diferencial é o vento no rosto. Com 20 km por hora, o Kit Livre proporciona algo que nenhum dos nossos concorrentes oferece”. Ele prossegue, e conta como o incentivo de grandes empresas — eles também ganharam o prêmio Santander Universitário, e no Braskem Labs recebem mentoria da Endeavor — foi fundamental na evolução do negócio, que tem implicações sociais.

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“Mais do que um produto, a gente está transformando a autoestima dessas pessoas, que por estarem numa cadeira de rodas não eram vistas, agora são. Esses programas são fundamentais para as ideias se tornarem realidade”, diz Lucio. Roberta pega a deixa e fala do papel das grandes corporações: “Feliz ou infelizmente, é dentro do mundo corporativo que o dinheiro está. Se a gente não a atuar pelos empreendedores criativos, quem vai? Podemos fazer muito mais.”

Cada mesa durava cerca de uma hora, e a seguinte sempre parecia, de alguma forma, seguir e complementar uma grande mesma conversa. Lucas fazia as transições e amarras, e a reflexão compartilhada, sobre criatividade, mudança e os tempos atuais, seguia fluindo. Janara Lopes, fundadora o IdeaFixa e esta que vos escreve, Phydia de Athayde, editora-chefe do Draft, conversaram sobre narrativas de transformação — ou como, no mundo atual, tão importante quanto empreender criativamente é saber contar e espalhar essas histórias. O trato com a informação de qualidade, seja produzindo-a ou consumindo-a, é um dos desafios do presente-futuro que vivemos.

Marcas, pessoas e vínculos

Há outros em pauta. “Como a sensibilidade é capaz de garantir relações de confiança?”, provoca Lucas, já na próxima mesa. Ao seu lado, agora, estão Alvaro Almeida, diretor na GlobeScan e João Mariano, gerente de Projetos, Conceito e Inovação do Grupo Pão de Açúcar. João pega a primeira deixa: “Vivemos num mundo complexo, com problemas muito complexos, e não precisamos ter medo disso”.

Ele fala que solução boa é aquela realizada, não a que fica no papel, e que, diante disso, o vínculo que se realiza com as marcas hoje está ligado a essa vontade de resolver determinados problemas. Em seguida, coloca a criatividade em uma perspectiva interessante: “Por muito tempo, os criativos ignoraram a visão de negócios, mas sempre vai existir o Excel. A grande questão é como a criatividade, como capacidade de solução, pode contribuir para o negócio dar retorno.”

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Álvaro, falando de vínculos e como criá-los, conta que o grande ponto de seu trabalho é “reconectar as organizações já estabelecidas com o mundo aí fora”, pois a seu ver essa desconexão é um risco tanto para a continuidade das corporações como para a sociedade como um todo, porque elas acabam gerando danos em terceiros. “A grande questão, hoje, é ampliar e permitir que haja escuta, de quem está liderando organizações, para o mundo exterior”, diz, e finaliza: “Só ampliando essa capacidade de escuta a gente chegará a um entendimento e a uma posterior transformação”.

O bate-papo seguinte foi com Ricardo Moraes, CEO e co-fundador da Memed, startup ajuda médicos a fazerem prescrições digitalmente (e, por tabela, ajuda os pacientes a compreendê-las). Mais do que falar de sua jornada particular, ele compartilha ensinamentos úteis a qualquer empreendedor. A elas:

1. A execução vale muito mais que ideia
Sua ideia não é genial. A ideia genial é a que é executava genialmente, aguentando os altos e baixos. Outros vão fazer o que você faz. Faça logo, faça melhor, atraia as pessoas para o seu negócio.

2. Empreender leva tempo
Construir grandes coisas leva tempo, é um período longo e você precisa entender isso.

3. Acredite em você
Não só do lado poético da coisa, mas acreditar mais em você como brasileiro mesmo, ter gana de fazer o melhor. Acredito muito nisso, estou fazendo a minha parte, resolvendo uma parte de um problema. Tem um milhão de coisas para ser feitas. O Brasil é um playground para quem quer empreender”

Ainda era tempo de mais uma conversa, agora com Lucas Corvacho, co-fundador da Retalhar, e Daniela Teixeira, gestora do Pimp My Carroça. A ele, que é biólogo de formação, não faltou a gana da qual Ricardo sentiu falta pouco tempo antes: “Não dá para as coisas se manterem do jeito que elas estão, então vamos fazer as coisas do jeito que a gente acredita”.

Ele fala mais sobre como é empreender sem formação na área: “Tudo começa com um mínimo fazer. O desconhecimento, a ausência de paradigmas, esse não saber o que é considerado certo ou errado, trazem muita liberdade para criar. O Retalhar não tem conceitos por trás. A meu ver, qualquer coisa que se faça com o pé na porta, o mercado vai validar”.

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Em seguida, Daniela fala sobre algo estratégico e superimportante para validar, e mesmo consolidar, negócios criativos: o financiamento coletivo. “A experiência do crowdfunding sempre traz mais do que o recurso financeiro”, ela diz, e desenvolve: “Primeiro, porque você encontra malucos que acreditam no que você está fazendo. Depois, porque você vai sentir que o dinheiro acaba não sendo suficiente, mas a sua campanha traz parceiros e gente disposta a te ajudar”. É só a deixa para eles conversarem mais uma meia hora, também interagindo com a plateia e respondendo a perguntas.

Já quase noite, é hora de todos passarem ao terraço do primeiro andar, onde o pessoal da SPTW faria o enceramento de sua semana, onde Juliano Seabra, da Endeavor, também amarraria o evento e o dia especial, e onde o time da ProjectHub começaria a brindar pelos cinco anos de trabalho. As mudanças do mundo estão aí, os desafios não são poucos, mas há uma infinidade de caminhos para se percorrer. Há que ser criativo.

 

Este artigo foi originalmente publicado em DRAFT

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