Um Projeto: Fundação Estudar
José Frederico, cofundador do Vetor Brasil

‘Cada aula melhor conta’, diz co-fundador da Vetor Brasil sobre carreira em educação

Por Rafael Carvalho

José Frederico fez parte do time liderado pelo então Secretário Thiago Peixoto na reforma educacional de Goiás, quando o estado passou de 16º a primeiro lugar no IDEB, índice que mede a qualidade da educação no Brasil. Veja como isso aconteceu!

José Frederico Lyra Netto, bolsista da Fundação Estudar, é goiano, e foi em Goiás que realizou um de seus maiores feitos. Ele fez parte do time que implementou uma série de melhorias na educação do estado, por meio do chamado Pacto pela Educação de Goiás, que impactou diretamente a atuação de 1100 escolas e 600 mil alunos da rede pública. O resultado foi animador mesmo para os mais céticos: em três anos, Goiás foi de 16º a 1º lugar no IDEB, índice que mede a qualidade da educação no país.

Mas, antes de integrar o time que construiu esses resultados, José Fred passou por muita coisa. Formado por engenharia mecatrônica na UNICAMP, encontrou no Movimento Empresa Júnior identificação com a postura de uma juventude que queria transformar o país através do empreendedorismo. Esse sonho grande despertou sua paixão pelo setor público, pois via nele a melhor maneira de conseguir produzir mudanças em escala. Ao se formar, fundou a primeira versão do Vetor Brasil. Hoje, esta organização – liderada pela também bolsista Joice Toyota – trabalha com o desenvolvimento de lideranças dentro de entidades do governo.

Seu primeiro projeto, um planejamento estratégico, foi apresentado para a prefeitura de Araguaçu, cidade de 10 mil habitantes no interior de Tocantins. Interessada pelo plano, a prefeita o convidou a assumir a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico para colocá-lo em prática. Atraído pela oportunidade de ver como as coisas funcionavam “na ponta”, José Fred abriu mão de uma vaga de trainee e aceitou o desafio – ficou um ano como secretário municipal, até ser convidado pelo então Secretário da Educação de Goiás, Thiago Peixoto, para fazer a reforma educacional do Estado. Aí começa sua história com a educação.

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Chegando ao governo, o diagnóstico: Goiás era a nona economia do Brasil e o décimo-sexto desempenho educacional pelo IDEB. Além disso, seu desempenho relativo a outros estados vinha caindo de forma sistemática nos últimos cinco anos. O primeiro passo para a reforma: estudar. O time visitou o Chile e a Finlândia, referências em educação básica; os Estados Unidos, referência em inovação, e diversas cidades no Brasil (e do próprio Goiás) que apresentavam desempenho superior à média – os chamados cases internos.

Analisando a situação das escolas do estado, montaram dois gráficos: um para ambiente socioeconômico e outro para seu desempenho no IDEB. As escolas com bom desempenho, especialmente aquelas de regiões desafiadoras, foram analisadas como referências para outras em situação vulnerabilidade – o foco maior do projeto. A abordagem era simples: “Mapeamos essas escolas-referência e íamos visitar, perguntando: ‘O que você faz, diretor?’ Às vezes, nos deparávamos com atuações complexas, mas geralmente se tratavam de ações simples, como avaliação permanente e integração com os pais”, explica José Fred.

A partir deste diagnóstico e com o apoio de uma consultoria, montaram o Pacto pela Educação de Goiás – uma grande reforma em educação que compreendia 25 iniciativas distribuídas em 5 pilares de atuação. Naturalmente, uma proposta com tamanha complexidade e abrangência tornou-se um prato cheio para críticas. As ações de reconhecimento por mérito eram as mais polêmicas: existia uma resistência grande às políticas de incentivo para as escolas que batiam metas e aos prêmios para os estudantes de bom desempenho.

O programa de remuneração variável e bonificação dos professores foi alvo, ao mesmo tempo, de economistas e de sindicatos. Mas, para o time da secretaria o importante era que foram propostas simultaneamente ações de curto e longo prazo: “Quando se trabalha em uma rede tão extensa, é importante ter pequenas conquistas – como era o caso dos bônus. Os bônus só funcionam enquanto se está corrigindo um problema, não é uma proposta perene”, explica.

Terminado o ciclo de aplicação do Pacto, José Fred sentiu que precisava se aprofundar no tema educação. Aprovado para um mestrado na Harvard Kennedy School of Government, mudou-se para os Estados Unidos em 2013. Em 2015, concluído o curso, retomou sua atuação como diretor no Vetor Brasil e também na Falconi Educação, prestando consultoria em educação para ajudar outros governos a fazerem essas reformas.

José Fred respondeu algumas perguntas do Na Prática sobre sua experiência empreendendo grandes transformações no setor público. Confiram:

1. Como é pensar em um projeto de urgência mas que, ao mesmo tempo, tem uma repercussão tão grande no longo prazo?

A ideia de longo prazo sempre nos deixava agoniados, mas eu gosto de refutá-la, porque ela passa uma impressão errada, de que a urgência não é tão grande. É lógico que a educação tem resultados no longo prazo – seus reflexos no PIB e em indicadores sociais, por exemplo. Mas, para o aluno, cada aula melhor importa. As pessoas no Brasil acham que a educação é complicado e isso se torna uma desculpa para você demorar para fazer uma ação – e isso é mais um ano de pessoas evadindo, mais um ano de alunos sem aprender. Em três anos levamos Goiás de 16º a 1º IDEB do Brasil, e isso mostra que o senso de urgência deve ser levado a sério.

2. E como foi, para você, apresentar e implementar esses projetos no âmbito político?

Muita gente concorda que educação é importante, sabe que precisa mudar, mas pouca gente está disposta a fazer o necessário. O custo político de uma medida desse porte era muito grande. É curioso, por exemplo, notar que o secretário de educação, na época, levou Goiás para o primeiro lugar do Brasil e teve menos votos como candidato a deputado na eleição seguinte. Não é fácil, não acontece sem pessoas que assumam o risco. Pensar, planejar, é importante, mas a implementação é o mais difícil. Para mim, foi importante ter contato com a ponta – entender como era o dia a dia das escolas, se eu conseguiria aprender estando em um ambiente daqueles, entender questões de infraestrutura e administração… Fizemos muitos estudos, mas nada substitui ir lá, na escola, discutir e estudar, com eles, o que pode ser feito. E isso me dava uma segurança muito grande sobre o que eu estava propondo e fazendo.

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3. Qual o papel da sociedade e da opinião pública no sucesso de um Pacto como o que vocês fizeram?

Em geral, os sistemas que mudam a educação no mundo têm a sociedade abraçando o projeto. No Brasil, o que eu sentia era muito empurra-empurra, sendo que, na verdade, a culpa por um sistema falho é de todo mundo. Nós precisamos nos sentir responsáveis pela educação. O primeiro passo é levar a sociedade a assumir o problema e pensar em soluções. 

4. Como você vê o papel do setor privado na melhoria da qualidade do ensino?

Existe um papel de inovação – o setor privado tem mais agilidade, mais incentivos e mais facilidade para isso. Desde inovação em materiais, métodos de ensino, tecnologia. Existe o risco de ter um setor privado inovando, pensando em soluções, mas nunca se cruzando com o setor público, que anda em paralelo. Então o desafio é como cruzar essa ponte e influenciar, com a suas soluções, o setor público. Ter um bom ensino privado é excelente – e mesmo isso ainda não temos no Brasil,  então, mesmo que ele melhore por si só já é um alcance.

5. Como evitar que as mudanças no governo afetem as conquistas ou os projetos em andamento?

O grande desafio dessas conquistas é justamente a sustentabilidade. Principalmente quando foi muito desgastante para chegar ao resultado, é difícil que não aconteça um retrocesso. O que se pode fazer nesse sentido é deixar o máximo possível dessas medidas em forma de lei, para que se tornem medidas mais institucionais e não personalistas. E, vejam, não estou falando de partido A ou B, e sim da troca, da quebra do processo.

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