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A história da musicista que se tornou CEO de um banco no Brasil

Por Ana Pinho e Rafael Carvalho

A francesa Sandrine Ferdane, que preside a operação brasileira do BNP Paribas desde 2014, fala sobre sua carreira, liderança feminina e o futuro do mercado financeiro; “Ser jovem hoje é fantástico”, afirma

No começo, Sandrine Ferdane queria ser música.

Ela tinha estudado o tema a vida inteira e passava onze horas por semana no conservatoire, escola francesa onde aprendia temas como teoria musical, piano e música de câmara.

Quando chegou a hora de escolher sua graduação, decidiu ter também algo mais tradicional no currículo. Estudou Administração na Emlyon Business School, em Lyon, onde tomou gosto por finanças.

Começou a trabalhar no então banco Paribas logo após se formar, em 1992, e descobriu que tinha talento na área – e ainda conseguia ter suas aulas de música.

Foi uma decisão acertada. Hoje com quase 25 anos de experiência, Ferdane é CEO da operação brasileira do BNP Paribas, banco líder na zona do euro e onde fez toda sua carreira. “Em 2014, de forma muito surpreendente para mim, fui chamada para assumir a posição de presidente do banco”, conta ela, que aceitou imediatamente. “Eu estava focada no que fazia.”

A carreira no BNP Paribas

A cultura do banco é um dos motivos de sua permanência. “É um lugar em que você se sente bem, que é grande mas preza muito pela interconexão”, explica. “E gosto de estar numa empresa que é líder no que faz.”

Foi essa mesma cultura também lhe permitiu transitar entre diferentes áreas e passar do financiamento estruturado na França ao departamento internacional e à América Latina, em 1995, sua introdução à região.

“Comecei com Argentina e Chile”, lembra ela, destacando que aquele fluxo interno é algo comum no BNP Paribas. “O Brasil não era o que é o hoje: era um país mais fechado, tinha uma dinâmica diferente e sua importância para os bancos era bem menor.”

Três anos depois, visitou o país ao lado do marido pela primeira vez. Mesmo em uma época turbulenta, enxergaram potencial de desenvolvimento e decidiram ficar pelos próximos cinco anos.

Em 1999, Ferdane passou a integrar o BNP Paribas Corporate Banking, uma das áreas de atuação da instituição no país e onde trabalhou até 2003, ano em que retornou para Paris.

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Pelos próximos quatro anos, utilizando sua experiência in loco, ela trabalhou como chefe de finanças de exportação para América Latina.

Em 2007, já com três filhos, o casal fez as malas mais uma vez e se instalou em São Paulo.

Durante os sete anos seguintes, Ferdane trabalhou como diretora e chefe de corporate coverage da operação nacional. As tarefas mudaram em outubro de 2014, quando foi convidada a assumir o cargo de CEO no Brasil.

“O que me motiva é fazer da melhor maneira possível a tarefa que tenho”, afirma. “Focar, fazer bem e ir a fundo nas coisas é a equação para o sucesso.”

Foco e resultado

Essa, para ela, é a palavra mágica para quem quer ascender na carreira: foco. “É fazer bem o que você faz, extrair todo o conhecimento que puder e ter uma cultura de resultado”, fala. “Seja uma empresa grande ou pequena, ou você tem ou não tem resultado.”

No Brasil desde 1950, o BNP Paribas atualmente opera em várias frentes, como banco de investimentos, gestor de ativos, financeira e seguradora. E, ao longo das décadas, inevitavelmente presenciou muitos altos e baixos da economia.

Se em 2015 – o primeiro ano completo no cargo para Ferdane – os resultados foram bons, em 2016 foi hora de “jogar na defesa” para se proteger do pior da crise. Diante da incerteza das receitas que entrariam, o banco atuou cortando custos e ganhando eficiência. A estratégia traçada pela equipe de Ferdane também investiu na diversificação de clientes e produtos, sem duvidar que tempos melhores virão.

“Em 2017, já podemos pensar em crescimento de receita através da diversificação”, afirma Ferdane. “Tenho certeza que é só o começo para o Brasil.”

Liderança feminina

“Havia na proposta [da presidência] o fato de que eu era mulher”, fala ela, que é uma dentre as apenas duas mulheres à frente de grandes bancos no país. No mundo, vale lembrar, apenas 9% dos CEOs são do sexo feminino. 

“É fato que há poucas mulheres no setor financeiro”, diz Ferdane. “E conforme você sobe, há uma dispersão. É isso que as empresas querem mudar.”

Mãe de três filhos, ela afirma que é essencial que cada um encontre as melhores soluções para equilibrar cuidados com a família e com a carreira, encontrando uma maneira de ter tempo qualitativo com os filhos sem pensar no trabalho e vice-versa. “Sem esse equilíbrio, eu não conseguiria estar focada no trabalho.”

É igualmente essencial, para a sociedade, capacitar e incentivar o desejo feminino de liderança, que acaba sendo desfeito em ambientes dominados por homens e que premiam comportamentos tipicamente masculinos.

“É preciso trabalhar muito, competir, se posicionar, defender suas opiniões. É difícil para todos, mas as mulheres precisam estar preparadas como os homens estão”, afirma.

“A solução não são mulheres entrando e se adaptando a esse mundo de homens, mas contribuindo e transformando esse mundo executivo. Não é um combate, é uma parceria.”

O mercado financeiro do futuro

Para alguém de qualquer gênero, estar à frente de um grande banco atualmente significa presenciar inovações tecnológicas que estão transformando a indústria, como inteligência artificial, em áreas que vão da escolha de ações a relacionamento com clientes.

A razão para a velocidade das mudanças é simples. “As inovações permitem que os bancos entreguem os mesmos serviços de forma mais eficiente”, diz Ferdane. “Todos os bancos estão enxergando esse desafio e essa oportunidade ao mesmo tempo.”

Ter conhecimento sobre tecnologias se tornará essencial para ter sucesso, assim como ser proativo e um bom colaborador. “Num mundo complexo, é perda de tempo querer saber tudo. É mais eficiente tentar saber tudo através da rede a qual você pretende e que potencializa o que você faz.”

Para quem quer começar no mercado financeiro, essa é uma boa notícia.

Segundo Ferdane, tais mudanças terão consequências para o perfil dos executivos, tanto em termos de habilidades quanto de comportamento, e pode facilitar a ascensão de jovens num futuro próximo, já que a troca de conhecimentos entre profissionais juniores e seniores será mais intensa e igualitária. 

“O mundo está evoluindo nessa direção e não cabe ter medo, mas se capacitar para encarar esses desafios para fazer parte dessa transformação”, conclui ela. “Ser jovem no mundo hoje é fantástico.”

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