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Equipe da legaltech Nós 8

Quer empreender na área jurídica? Conheça a história (e os desafios) de 3 legaltechs brasileiras

Por Redação, do Na Prática

Conhecidas como lawtechs ou legaltechs, startups do segmento jurídico surgem no país com produtos e serviços diversos. Conheça os empreendedores por trás da Nós 8, Justto e Advys

O empreendedorismo não deixou de lado o segmento jurídico. Startups da área costumam se denominar como lawtechs ou legaltechs (o que muda é a preferência pessoal por um termo ou outro) e criam serviços e produtos jurídicos diversos.

De tecnologia de processamento de dados a consultas, plataformas de marketplace e algoritmos que ajudam na resolução de conflitos, sua gama de atuação é ampla. O público também: podem ser pessoas físicas, empresas, escritórios de advocacia ou departamentos jurídicos, por exemplo.

Em expansão, o segmento já consolidou até uma organização, a Associação Brasileira de Lawtechs & Legaltechs, que atualmente reúne 42 startups do tipo.

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Para entender melhor os desafios e oportunidades desse mercado, o NaPrática.org entrevistou empreendedores por trás de 3 startups jurídicas – Nós 8, Justto e Advys – para que compartilhassem insights, desafios, oportunidades e o perfil profissional de quem trabalha na área.

As experiências de legaltechs no Brasil

Nós 8

Além dos oito advogados do título, a equipe da Nós 8 – que oferece consultoria jurídica em formato freemium para empreendedores em fase inicial – também conta com um estagiário, uma designer e dois colaboradores.

Até hoje, mais de 1000 empreendedores foram atendidos e 14 recebem assessoria jurídica contínua, como a startup Rio Art Gallery, um e-commerce especializado em grafites de artistas urbanos criado por um trio de empreendedoras.

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A ideia também já foi parar na Escola de Direito da FGV-Rio, que criou um laboratório de assessoria jurídica para startups em que seus estudantes, supervisionados pelos advogados da Nós 8, atendem empreendedores de forma gratuita.

Segundo Helder Galvão, advogado e professor fundador da startup, não são raros os e-mails de advogados que querem se juntar à empreitada, mesmo que ela não tenha vagas abertas.

“Precisamos crescer de forma orgânica e nossa atuação se limita ao empreendedorismo”, explica. O modelo, no entanto, segue atraente. “Quem sabe não surjam outras Nós 8 em outras áreas do Direito?”

Equipe da legaltech Nós 8[A equipe da legaltech Nós 8 / Foto: Divulgação]

1. Como surgiu a Nós 8?

Surgiu da química de dois fatores. O primeiro veio nas aulas sobre Propriedade Intelectual para alunos de design na PUC-Rio. As dúvidas eram de empreendimentos de alunos, que não estavam interessados em procurar escritórios para ajudá-los – e também não tinham recursos, como a maioria das startups, para remunerar uma assessoria jurídica nessa fase inicial.

Logo depois, passei uma temporada no Vale do Silício, em São Francisco, onde a cultura do compartilhamento é muito comum e as principais empresas de tecnologia exploram o modelo de negócio baseado na experimentação gratuita para depois se tornar paga, chamada de “freemium”.

Daí surgiu a ideia de ajudar empreendedores iniciantes e menos abonados compartilhando tempo e conhecimento jurídico no modelo “freemium”. Reuni sete amigos e lançamos a plataforma em setembro de 2015.

2. Por que empreender no meio jurídico?

Somos advogados e o objetivo é doar o que temos de valoroso – tempo e conhecimento jurídico –  para quem precisa. Quer bens mais preciosos que estes?

3. Quais são os maiores desafios da Nós 8 atualmente?

Sem dúvida é a capacidade de execução. O número de demandas só aumenta e precisamos ser capazes de atender com rapidez e qualidade e deixar o empreendedor que nos procura feliz. Para isso, criamos alguns métodos de atendimento e um banco de dados eficiente. 

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4. Quais são as dúvidas mais comuns que seus clientes trazem?

São diversas, mas uma frequente envolve o conflito entre os sócios. Aliás, é um erro bem comum em startups. O empreendedor deve escolher bem seus parceiros.

5. Qual é o perfil de quem trabalha na Nós 8?

Alguém essencialmente altruísta, que compartilha conhecimentos e quer ajudar o próximo.

6. O que mais lhe surpreendeu ao trabalhar nesse meio?

Uma das maiores surpresas foi a procura de colegas e amigos querendo participar do projeto. Acho que vamos criar um departamento de RH [risos]. Tem muita gente querendo ajudar e doar, só não sabiam como ou onde.

7. O que diria para alguém que pensa em empreender nesse segmento?

São as mesmas recomendações clássicas para quem quer empreender: dedicação, errar muito para acertar e não colocar o dinheiro como prioridade. 

Justto

Criada com o objetivo de ajudar departamentos jurídicos a cortarem custos através da resolução de conflitos e arbitragem online, a Justto (que está com vagas abertas) conta com cerca de 30 pessoas na equipe, entre áreas de desenvolvimento de sistema, marketing e vendas e operação.

A legaltech, que utiliza a metodologia da startup enxuta, oferece duas soluções: a câmara arbitral online Arbitranet, criada em 2011, e a plataforma de negociação de acordos AcordoFácil.com, criada em 2015.

No meio tempo, a Justto participou de programas de aceleração da ACE e da InovAtiva Brasil. “Brinco que esses programas colocaram o chip de empreendedor em mim”, diz o CEO Alexandre Viola.

Segundo Viola, a cartela de clientes é variada e o crescimento é de cerca de 20% ao mês.

“Nosso público-alvo são empresas que possuem conflitos com todos os seus stakeholders: clientes, funcionários, fornecedores e sócios”, explica.

Parte da equipe da legaltech Justto[Parte da equipe da legaltech Justto / Foto: Divulgação]

1. Como surgiu a Justto?

Como advogados no dia a dia com clientes, percebemos que todos reclamavam da ausência de métodos de resolução eficientes, rápidos, acessíveis e com decisões especializadas. Antes da criação da nossa plataforma, as opções eram o poder judiciário ou arbitragens caríssimas.

Em 2011, surgiu a ideia da Arbitranet, a primeira câmara arbitral online do Brasil. Ali, o sistema escolhe pessoas especializadas no tema do conflito para julgar um caso em três meses, o valor é acessível e a sentença tem o mesmo valor jurídico que a decisão de um juiz.

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Em 2015, ao consultar clientes da Arbitranet e diretores e gerentes jurídicos de grandes empresas, percebemos que poderíamos ampliar o escopo da nossa plataforma e resolver conflitos de forma automatizada através de negociação.

Em setembro daquele ano, criamos o AcordoFácil.com, a primeira plataforma de negociação inteligente de acordos entre empresas e seus consumidores.

2. A Justto têm um aspecto tecnológico forte. Como desenvolveram a tecnologia necessária?

Percebemos que o diferencial dos nossos serviços não seria somente resolver os conflitos de forma eficiente, mas devolver inteligência aos nossos clientes para que pudessem manter seus clientes e evitar novos conflitos.

Hoje, além de ter ferramentas para prevenir e resolver eventuais disputas de forma escalável e assertiva, utilizamos informações do poder judiciário e dos conflitos resolvidos na nossa plataforma (sem identificação dos clientes) para identificarmos características de empresas do mesmo segmento e de todo o mercado e assim recomendar melhorias nas políticas de acordo, prevenção e resolução de conflitos.

3. Por que empreender no meio jurídico?

O mercado jurídico é muito tradicional e tem enormes oportunidades para inovações.

Apesar de termos sido um dos primeiros a nos apresentarmos como startup nesse mercado, percebemos que esse ano os players mais tradicionais, como grandes departamentos jurídicos e escritórios de advocacia e alguns órgãos públicos, acordaram para esse movimento necessário de renovação do mercado.

Agora sentimos que o mercado não só está aceitando, mas está buscando soluções que apliquem Inteligência Artificial, Big Data e Machine Learning para resolver seus desafios. Temos certeza que em cinco anos teremos um mercado muito diferente.

4. Quais são os maiores desafios da Justto atualmente?

Inicialmente, nosso maior desafio era cultural: tínhamos que provar para empresas, consumidores e advogados que o mercado jurídico poderia se valer, como os demais setores, de muita tecnologia para resolver seus problemas.

Atualmente, nosso maior desafio é fazer com que o time se adapte constantemente com o crescimento e as demandas crescentes dos clientes.

Em uma startup, cada estágio exige competências diferentes para o desenvolvimento do negócio, então o time tem que ser sempre polivalente e cheio de vontade para continuar crescendo com a empresa.

5. Quais são as dúvidas mais comuns que seus clientes trazem?

As pessoas estão acostumadas a muita interação humana e a confiar na intuição e treinamento do advogado, então nossos clientes, em um primeiro momento, têm dificuldade até em acreditar que é possível contatar um grande número de pessoas automaticamente.

Contudo, após a utilização da nossa plataforma e dos resultados, os clientes tendem a transferir volumes maiores de conflitos para serem resolvidos através da Justto. 

6. Qual é o perfil de quem trabalha na Justto?

A pessoa deve ter muita empatia para entender as necessidades dos nossos clientes e do mercado e possuir o mindset de um hacker para nos ajudar a sempre desafiar o status quo. Postura e determinação é muito mais importante do que a formação da pessoa.

7. O que mais lhe surpreendeu ao trabalhar nesse meio?

A quantidade de conhecimento ignorado na educação formal. O conhecimento e experiências que realmente estão mudando o mundo estão distantes do que se ensina por padrão nas escolas e universidades do Brasil.

Minha esperança é que a próxima geração tenha um mindset mais empreendedor e consiga fazer com que a educação também seja outro mercado renovado pela inovação disruptiva.

8. O que diria para alguém que pensa em empreender nesse segmento?

Minha recomendação para quem irá começar é escolher um problema bem específico para resolver e focar nele. Como é um mercado enorme e sedento por renovação, a tentação para tentar resolver outros problemas é grande.

E, claro!, falar com o maior número de potenciais clientes, sejam advogados, empresas, governo ou pessoas físicas, antes de iniciar a construção de qualquer ferramenta concreta.

Advys

Cassius Leal lidera uma equipe de três pessoas fixas e diversos colaboradores na Advys, uma legaltech de consultoria jurídica, financeira e empresarial e contabilidade para pessoas físicas e jurídicas.

“O modelo descentralizado e remoto permite uma estrutura enxuta e custo fixo baixo enquanto oferece atendimento amplo e específico”, fala ele, que trabalhou por quase vinte anos no mercado financeiro no Brasil e na Europa. “Desta forma, permitimos que nossos clientes possam ter respostas de especialistas a custos extremamente acessíveis.”

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O objetivo da Advys é desmistificar as (muitas) dúvidas cotidianas sobre a lei brasileira, seja na hora de contratar um funcionário ou assinar um contrato de aluguel, para evitar problemas legais que poderiam ter sido resolvidos com orientação correta.

O foco da startup são empresas que faturam até R$ 300 mil por mês e, eventualmente, expandir para pessoas físicas.

“Nosso trabalho consiste em mostrar a lei de forma clara e utilizando uma linguagem simples”, resume Cassius. “Por conta da versatilidade dos serviços, acreditamos que o espaço para crescimento é enorme.”

Cassius Leal da legaltech Advys[Cassius Leal da legaltech Advys / Foto: Reprodução]

1. Como surgiu a ideia da Advys?

Burocracia, linguagem inacessível, informações conflitantes na internet, “achismos” de amigos e parentes, falta de planejamento e de orientação adequada costumam gerar frustrações e prejuízos para pessoas e empresas que tentam empreender, manter a qualidade dos serviços oferecidos com custos sob controle ou enfrentar questões rotineiras sem ter a quem recorrer para tomar as melhores decisões.

A Advys surgiu para democratizar o acesso às informações, disponibilizando especialistas para responderem dúvidas na hora certa, de forma ágil e a um preço justo.

Nós vendemos bons conselhos jurídicos, financeiros e empresariais. Além do serviço permanente de respostas e revisão de documentos, oferecemos também contabilidade online.

Queremos que nossos clientes tomem as melhores decisões com base em informação de qualidade, economizando tempo, energia e dinheiro.

2. Por que empreender no meio jurídico?

Existe uma gama de situações do dia a dia com implicações jurídicas e a maioria das pessoas não se atenta às possíveis consequências até que o problema já tenha sido instalado.

A solução nesses casos costuma ser custosa, mas poderia ter sido evitada de forma extrajudicial com o acesso a informação de qualidade e um melhor entendimento dos riscos associados com aquele problema.

Por outro lado, a grande maioria dos advogados não quer ficar respondendo dúvidas mais cotidianas – a menos que este esforço resulte em algum processo rentável.

Estas características nos ajudaram a enxergar uma enorme oportunidade: atender as pessoas e responder a grande maioria das questões, focando nas questões extrajudiciais e minimizando a judicialização dos problemas.

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3. Quais são os maiores desafios da Advys atualmente?

Enfrentar a desconfiança das pessoas ao contratar através da internet um serviço de cunho ainda muito pessoal. Enfrentar o conservadorismo dos profissionais da área também não é tarefa simples.

Também pensamos muito em como a tecnologia pode ajudar nossos clientes sem que a interação se transforme em algo banal e sem empatia. E temos o desafio de encontrar profissionais com as características que demandamos, especialmente entre jovens.

4. Quais são as dúvidas mais comuns que seus clientes trazem?

Muitas dúvidas trabalhistas, cíveis e de direito do consumidor. Há também questões sobre contratos societários, empresariais e imobiliários e nos perguntam bastante sobre abertura de empresas, enquadramento fiscal, lançamentos contábeis e formalidade dos trabalhadores domésticos.

É interessante ver a variedade de questões que surgem sobre assuntos que, apesar de parecerem diferentes, têm o mesmo conteúdo legal.

5. Qual é o perfil de quem trabalha na Advys?

As pessoas que buscamos têm características peculiares: muita determinação, resiliência, capacidade intelectual de pensar “fora da caixa”, inteligência emocional e o que chamo de uma vontade inexplicável de vencer na vida.

6. O que mais lhe surpreendeu ao trabalhar nesse meio?

O meio jurídico é extremamente formal e conservador e, quando surge algo que pode romper paradigmas, as pessoas tendem a ter uma reação negativa muito grande, ainda que o serviço venha beneficiar milhões de pessoas.

Além disso, existe uma falta de visão de futuro sobre a profissão e sobre os fatores externos que certamente vão mudar aspectos importantes da profissão. 

7. O que diria para alguém que pensa em empreender nesse segmento?

Primeiramente, encontre uma necessidade real a ser atendida. Não é uma tarefa tão difícil: basta observar e interagir com as pessoas e naturalmente você perceberá oportunidades.

Depois, pesquise bastante sobre como você pode suprir esta necessidade de forma eficiente, mais barata e com um melhor serviço ou produto.

É fundamental escrever um plano de negócios realista, ainda que não haja sócios, para que você possa estruturar na cabeça as principais questões que irá enfrentar, como mercado, marketing, produto, concorrência, finanças, fornecedores, recursos humanos, capital, etc.

De posse deste plano, divida-o com amigos para que lhe questionem sobre suas premissas. Uma vez que tenha pensado detalhadamente nos diferentes aspectos da empreitada, coloque todos seus esforços para fazer seu sonho acontecer.

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