Por dentro da carreira de mulheres na indústria de venture capital

Venture capitalists brasileiras falam sobre o perfil profissional necessário, a importância de mulheres empreendedoras e oportunidades para o setor durante a crise

Ana Pinho, do , em 17.03.2017
Debate sobre venture capital na FGV-SP [FGV / Divulgação]

“No primeiro momento, o mais importante é ter mulheres”, começou Camila Farani. “Quantas aqui são exemplos e mostram que para trabalhar com isso não há mito ou genialidade?”

A investidora-anjo ficou famosa ao aparecer na versão brasileira do reality show de negócios “Shark Tank”, mas já tinha um currículo poderoso antes da televisão. Empreendedora de sucesso e presidente do Gávea Angels, também cofundou o MIA, grupo de investidoras-anjo focado em investir em negócios de mulheres.

A temática da noite, portanto, lhe era familiar. Camila foi uma das participantes de um painel sobre a presença feminina em venture capital, organizado pela FGV-SP em 8 de março, em São Paulo.

Ao lado dela estavam Gabriela Chagas, recém-formada e venture capitalist no fundo Vox Capital, que atua com investimentos de impacto; Juliene Piniano, associada sênior da Derraik & Menezes Advogados, e Laura Constantini, cofundadora da Astella Investimentos, uma firma de venture capital especializada em tecnologia.

Um nicho do mercado financeiro, o venture capital é considerado, no Brasil, como uma classe de ativos nova. As firmas são geralmente de pequeno porte e surgem da junção de parceiros de negócios anteriores.

Nessa modalidade de investimento, as apostas são normalmente em empresas que ainda estão no estágio inicial – muitas vezes em startups e ideias inovadoras. Por isso mesmo, trata-se de uma aposta com uma boa dose de risco.

Gabriela diz que caiu em venture capital “de paraquedas”, mas conseguiu aliar sua vontade de atuar no mercado financeiro com impacto social.

“Com um diploma de administração de empresas, você fica um pouco decepcionado com entrevistas de emprego. Shampoo, salgadinho… Eu não via finalidade naquilo e queria fazer a diferença”, lembrou.

Na Vox, que investe em negócios de impacto social nas áreas de educação, saúde e serviços financeiros– e foi cofundada por Antonio Erminio de Moraes Neto, bolsista da Fundação Estudar –, ela se encantou com o ambiente de trabalho aliado a propósito.

“Fiquei surpresa com quantas pessoas acreditavam num Brasil melhor e estavam investindo o próprio dinheiro para fazer acontecer”, contou.

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O perfil em venture capital

Com ou sem o foco em impacto social, no entanto, o profissional de venture capital tem um perfil. É preciso, antes de tudo, ter apetite pelo risco.

É o que Camila, advogada por formação, mais destaca. Ela adquiriu sua experiência em finanças na prática e com muito estudo, mas nem por isso se sente menos capaz. “Achei que tinha que ser especialista em números até que entendi que poderia usar meus pontos fortes e delegar outras coisas”, falou.

Gabriela concorda. “Deu medo de entrar em um fundo de venture capital e abrir mão de bancos para fazer algo diferente, mas no dia a dia vejo que sou muito mais feliz nessa realidade.”

Para ela, também é preciso ter autonomia e flexibilidade para resolver problemas em cenários dinâmicos e boas relações interpessoais. “O fundo intercede entre o investidor e o empreendedor e conecta terceiros com alto poder aquisitivo e negócios com alto potencial”, resumiu.

Num mundo ainda predominantemente masculino como o mercado financeiro, em que são admiradas características como assertividade e agressividade, as mulheres dizem que é preciso destacar suas qualidades acima de tudo.

Um estudo recente do TechCrunch, que analisou 100 empresas de venture capital, concluiu que só 7% dos sócios de responsáveis por investimentos são mulheres, e 62% dessas empresas não possuem sócias mulheres. São números extremos, mesmo quando comparados com o cenário já desigual do mercado financeiro em termos de gênero.

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Camila foi convidada para integrar o Gávea há cinco anos, quando os sócios homens sentiram que não conseguiam dialogar com uma nova investida, uma empresa de cosméticos. “Eles me disseram que não conseguiriam falar de cor de esmalte. Mas não precisava falar disso!”, riu.

Para ela, que estudou na terceira turma de mulheres de um colégio militar no Rio de Janeiro, o problema é o inconsciente coletivo que transforma certas características em fraquezas, como sensibilidade e flexibilidade.

“Crescemos com essas crenças e, em dado momento da vida, é preciso distinguir o que é certo para você.”

Ela se lembra de um episódio de “Shark Tank” em que se emocionou. No dia seguinte, um sócio lhe trouxe um jornal estampado com uma foto sua chorosa. “Ele perguntou se eu estava no programa para chorar. E o que é que tem? Como se ele não chorasse! São muitas barreiras comportamentais.”

Mulheres empreendedoras

Juliene, a advogada que representa ora empreendedores, ora investidores, se lembrou de uma reunião em que uma empreendedora suspirou de alívio ao ver uma mulher na equipe visitante.

“Foi uma olhar de simpatia, que quebrava o gelo de receber uma equipe para o primeiro investimento do negócio”, contou. “Os empreendedores obviamente dão o sangue no começo do negócio e fazem escolhas que precisam ser respeitadas, como abrir mão da carreira ou da família. Estar consciente em relação às suas escolhas é o grande segredo.”

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Quando se depara com uma mulher empreendedora – “infelizmente é raro” –, Juliane diz notar uma paixão e propósito mais fortes. “Ela sabe que aquilo é chance da vida dela e defende com unhas e dentes.”

Laura já se deparou inclusive com empreendedoras que decidiram não seguir em frente com investimentos por não conseguirem adaptar as exigências de venture capitalists ao seu estilo de vida. “Elas não querem tracionar os negócios do jeito que os fundos exigem e é algo que admiro, porque exige coragem.”

O impacto da crise

O último bloco da discussão girou em torno das consequências da crise econômica. Para as profissionais, os reflexos no trabalho acabaram sendo positivos.

“É favorável porque temos novos investidores que saíram capitalizados de suas empresas anteriores e querem formas de capitalizar os investimentos, e aí o investimento-anjo vem aparecendo de maneira crescente”, contou Camila.

Outro bom reflexo é um impulso para muitos que sonhavam em empreender e agora, de fato, se veem empreendendo.

“Quando a economia vai bem, é mais fácil fazer um pitch legal. Na crise, fica mais fácil segmentar o bom do ruim e encontrar um negócio: o simples fato de ele estar sobrevivendo e crescendo torna essa separação mais clara”, resumiu Gabriela. “Esse é o momento para coisas inexploradas.”

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