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Investimento-anjo: o que é e como funciona

Por Cecília Araújo

Carolina Mendes, estudante de Administração e colaboradora da revista Markets, responde a algumas das mais comuns dúvidas a respeito do tema

O investimento-anjo já existe em mercados internacionais há décadas. Grandes empresas internacionais tiveram em seu projeto inicial a participação de investidores-anjo, tais como: Google, FedEdx, Facebook e Apple. Nos últimos anos houve um crescimento no número de investidores dessa modalidade no Brasil, o que levou ao surgimento de plataformas que têm como objetivo intermediar investidores-anjo e startups, tais como Broota e Anjos do Brasil.

Conheça a revista Markets, escrita por estudantes da FEA-USP, InFinace, FGV-SP e UNICAMP

Por que o uso da palavra “anjo”?
Historicamente, o termo foi criado em 1920, referindo-se aos patronos no setor teatral que bancavam os custos de produção na Broadway. Também podemos dizer que o indivíduo que investe em um negócio em sua fase inicial e assume todos os riscos é como um “anjo da guarda”, por isso o termo “investidor-anjo”.

Quem são esses investidores?
São pessoas físicas, sendo eles executivos ou empreendedores que já têm conhecimento ou experiência na área. Este investidor é fundamental para o sucesso do empreendimento, pois, além do investimento financeiro, o qual representa um percentual pequeno de seu patrimônio, em média de 5% a 10%, ele agrega sua experiência e atrai novos investidores através de seu networking profissional e pessoal.

Nesse sentido, a experiência de um investidor poderá muitas vezes superar o valor do capital investido pois este ajuda o novo empreendedor a evitar erros que o investidor possivelmente tenha cometido no passado, poupando quantidades significativas de tempo e capital. Além disso, pelo fato dos investidores-anjos normalmente serem mais experientes e terem mais tempo no mercado, suas recomendações são de altíssimo valor e credibilidade, atraindo e facilitando a obtenção de novos investidores para o negócio emergente.

Como funciona a atuação do investidor anjo?
Apesar do investidor-anjo ter uma participação societária minoritária (de 5% a 40%) no novo negócio, ele não é e nem age como um sócio do business. Outrossim, o “anjo” está muito mais preocupado com o desenvolvimento do negócio do que com o investimento por si só, ao passo que quanto mais o negócio se desenvolver, mais ele ganhará. Desta forma, o investimento é feito para que a empresa dê certo, e não feito apenas visando o retorno que ela trará no curto ou médio prazo. Como um anjo, o investidor está constantemente injetando capital (cash in), dedicando tempo e agregando conhecimento ao negócio.

Além disso, é de grande importância que o investidor esteja próximo ao empreendedor, no sentido de que haja transparência e de que as expectativas sejam mútuas, para que ele possa guiá-lo e encaminhá-lo corretamente enquanto o negócio cresce. Além de que, o investimento anjo é um investimento conjunto permitindo investidores de diferentes segmentos terem acesso, e não somente os tradicionais investidores com grandes fortunas. Por isso, o investimento geralmente é feito por dois ou mais investidores buscando minimizar o risco e maximizar o tempo e experiência.

Quando o investidor-anjo entra em cena?
O investidor-anjo entra na fase em que a startup já tem algo definido, ou seja, ela deixa de ser uma “ideia” e passa a ser um protótipo. Subsequentemente, o investidor-anjo é responsável por acompanhar a concretização do negócio e viabiliza-la ao mercado. Posteriormente, conforme o negócio desenvolve, mais capital é necessário, portanto mais investidores são requisitados.

Os fundos “semente” (seed) são os que investem nessas empresas junto com o investidor-anjo (quantias de 500 mil a 2 milhões). E quando a empresa crescer e precisar de mais capital? A empresa agora passa a procurar fundos de venture capital. E depois disso? Fundos ainda maiores, de private equity, proporcionam o capital necessário até que a empresa alcance o tão sonhado IPO.

Quais são as caraterísticas necessárias para atrair um investidor-anjo?
Há quatro quesitos essenciais para que um negócio tenha êxito e atraia a atenção de um investidor-anjo: inovação, escalabilidade, mercado amplo e um empreendedor engajado. Inovação é a diferenciação que vai proporcionar potencial de crescimento ao negócio, levando em conta que inovação significa fazer algo diferente ou fazer algo de uma forma diferente, mas não necessariamente criar algo novo.

Já a escalabilidade significa o potencial do negócio crescer sem depender de investimentos e/ou uma equipe especializada, apesar de um negócio escalável ter mais potencial para crescimento, não significa que um negócio não escalável não possa ter sucesso. Outra característica essencial é ter um mercado amplo (público-alvo amplo) pois tem-se o crescimento limitado quando se depende de poucos clientes. E por fim, um empreendedor engajado é essencial para o negócio dar certo. Uma ideia sem implementação não tem valor.

Ter um empreendedor que consiga transformar sua ideia em realidade é mais valorizado do que um empreendedor que tenha uma ideia sensacional mas não desenvolva um plano de implementação, ou seja, que não consiga colocá-la em prática. Muito provavelmente, uma vez que o negócio tenha se desenvolvido e implementado todas estas etapas, a chance de atingir sucesso aumentará significativamente.

Para o sócio do Broota, Ricardo Politi, o perfil do empreendedor é crucial para o sucesso do negócio. Em entrevista exclusiva à Markets St., Ricardo afirmou que: “Muito mais do que uma boa ideia, um key success factor do negócio é um bom empreendedor. Ser pioneiro no mercado ou ter uma ideia inovadora não garante sucesso, pois as startups são extremamente dinâmicas e têm poucas barreiras à entrada, portanto podem ser facilmente copiadas, daí a importância no poder de execução da equipe. Para atrair o investidor-anjo, o empreendedor precisa mostrar uma ideia interessante, um business plan bem estruturado mas principalmente mostrar que o capital humano é extremamente capacitado.”

Os investimentos-anjo atuam em quais setores?
Apesar do setor tecnológico ter se desenvolvido mais, e portanto, ser o que tem o maior número de investimentos-anjo, há outros setores igualmente importantes que também recebem investimentos e têm grande potencial para desenvolvimento. Um exemplo de uma empresa bem sucedida e que não é tecnológica é a FedEx, empresa de transporte expresso americana que recebeu investimento-anjo na sua fase inicial. No Brasil, também há grandes oportunidades, como a biotecnologia aplicada à agricultura e à saúde para serem desenvolvidas no futuro.

Silicon Valley vs. São Pedro Valley
Silicon Valley (Vale do Silício), localizado na Califórnia, Estados Unidos, é um polo tecnológico que reúne empresas com objetivo de gerar inovações científicas e tecnológicas. Inúmeras empresas inovadoras de sucesso têm sedes no vale do silício, entre elas estão Pixar, NetFlix, Google e Apple.

Há três componentes concentrados nesta área que fazem do vale um lugar único: 1) as pessoas mais interessadas em empreendedorismo de todo o mundo; 2) os inúmeros investidores que buscam e querem fazer parte deste processo; e 3) as pessoas altamente qualificadas procurando fazer parte de negócios inovadores como funcionários, formando uma equipe bem preparada.

Com um empreendedor fora da curva que forma uma equipe de pessoas qualificadas e atrai um investidor, a probabilidade do negócio dar errado é menor. Apesar de ser um lugar extremamente colaborativo, é também um lugar muito competitivo, pois as barreiras à entrada são extremamente baixas, logo, ser inovador em meio a essas pessoas altamente qualificadas é um enorme desafio.

No Brasil, com o desenvolvimento tecnológico nas últimas décadas, observa-se que há uma crescente quantidade de empreendedores e investidores-anjo. Em 2001, na cidade de Belo Horizonte, o bairro São Pedro tem se tornado um polo para empreendedores das startups nacionais. O nome começou como uma brincadeira e hoje mais de 63 startups formam o San Pedro Valley. Lá, o principal objetivo é trocar conhecimento e experiência, não se limitando a apenas captar recursos.

Como no Vale do Silício, o San Pedro Valley também passará a contar com o apoio governamental. O Estado de Minas Gerais vai ajudar estas empresas no San Pedro Valley através de um programa chamado Startups and Entrepreneurship Ecosystem Development (SEED). Através deste programa, as empresas receberão apoio financeiro e mentores para acelerar seus negócios.

Anjos brasileiros vs. American angels
Apesar do aumento no número de empreendedores no Brasil, ainda há um potencial para crescimento nesse setor. De acordo com pesquisas feitas pela Anjos do Brasil em 2013, estima-se que havia 6.500 anjos investindo 2,6 bilhões de reais enquanto nos Estados Unidos haviam 298.800 anjos investindo 24,8 bilhões de dólares, de acordo com a UNH Center for Venture Research. Uma das razões pela qual o investimento-anjo no Brasil é tão baixo é o alto custo de oportunidade imposto pela nossa elevada taxa básica de juros. Em outras palavras, é mais difícil encontrar investimento que renda mais do que a taxa básica de juros no Brasil do que nos EUA.

Nesse sentido, podemos observar nitidamente que o Brasil, com a sua cultura empreendedora pouco desenvolvida, está anos atrás de outros países como os Estados Unidos. Desta forma, para que o país possa alcançar tais níveis de investimento-anjo, será necessário usar políticas públicas e estímulos para desenvolver a cultura e a educação empreendedora no país.

Carolina Mendes é estudante de Administração do Insper e colaboradora da revista Markets. De publicação trimestral, a Markets é escrita e editada por membros da Liga de Mercado Financeiro (FEA-USP), da InFinace (INSPER), da Consultoria Júnior de Economia (FGV-SP) e da GMF Unicamp (UNICAMP). Este artigo foi originalmente publicado na 8ª edição da revista, disponível na íntegra aqui.

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