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Marcos Scaldelai presidente da Bombril

O que Marcos Scaldelai, CEO da Bombril, busca em um candidato

Por Rafael Carvalho

Marcos Scaldelai, CEO da Bombril aos 36 anos, responde perguntas sobre recrutamento, sucesso e carreira, e ainda dá dicas de liderança para os jovens profissionais

Quando foi chamado, em 2010, pelo empresário Ronaldo Sampaio Ferreira a fazer uma entrevista de emprego na Bombril, Marcos Scaldelai, hoje presidente da empresa, teve que responder se era mesmo “louco”.

Era o que Ferreira, filho do fundador da Bombril, queria saber do jovem executivo com a cabeleira espetada e cujo sucesso na carreira havia sido tema de uma reportagem de negócios.

Nada de formação acadêmica, domínio de idiomas ou aquelas perguntas mais frequentes nas entrevistas. O que importava era saber se Scaldelai era ‘louco’. “Sei ser bem louco, depende da loucura”, respondeu a Ferreira.

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E ele não decepcionou, a ponto de fazer, já contratado como diretor de marketing da Bombril, o inimaginável: afastar Carlos Moreno, o garoto propaganda da marca, da televisão e reposicionar a estratégia de marketing, com a controversa e premiada campanha “Mulheres Evoluídas”.

Deu certo e tal “loucura” foi um dos destaques que catapultou Scaldelai para o topo da Bombril. Após passar pela diretoria de vendas, em 2013, o executivo, então com 36 anos, assumiu o cargo de presidente da Bombril.

A sua receita para o sucesso? Muito esforço e uma paixão enorme por riscos. É o que o leitor vai encontrar nas 158 páginas do seu primeiro livro, “99,9% não é 100%” que acaba de ser lançado pela Editora Gente. Nele, Scaldelai narra sua trajetória e dá dicas para quem quer crescer na carreira.

Na sede da Bombril em São Bernardo do Campo (SP), o executivo recebeu Exame.com para falar sobre o livro, sua trajetória e explicar o que significa ser “louco” no contexto de negócios. Veja trechos da conversa:

Para você, o sucesso é 100% esforço? E a sorte? Você teve?

O sucesso é, realmente, fruto do esforço. Mas, não posso desconsiderar que tive momentos de sorte. O fato de eu estar na Bombril hoje aconteceu porque eu estava em uma reportagem de revista que o senhor Ronaldo Sampaio Ferreira viu e mandou me chamar para me conhecer. O quanto isso não posso relacionar à sorte? É difícil falar que não teve sorte. Mas, garanto para você que na hora que você senta com a pessoa para conversar, não é a sorte que vai levar você para frente. Aí, é todo o seu esforço. Posso, com certeza, colocar que 99% do sucesso é esforço.

Na sua entrevista de emprego na Bombril, o Ronaldo Sampaio Ferreira perguntou se você era louco. Você se assustou com a pergunta?

Não, eu trabalhei muito tempo em multinacional, depois trabalhei com a família Bertin em uma empresa nacional e observava muito como funcionava a condução das empresas. Quando o senhor Ronaldo me chamou e fez essa pergunta, de cara, o que veio na imagem para mim foi que ele é dono, é um empreendedor. Esse “louco” é simplesmente ligado ao arriscar, em querer algo mais. Todo mundo que tem uma veia empreendedora sabe que tem que ser “louco”. Porque você põe a cabeça na guilhotina todo dia. Quando você quer se diferenciar, quando você quer realmente pensar além do que os outros estão imaginando, você está pondo a cabeça na guilhotina e quem faz isso é “louco”. Mas, é um “louco” dentro das medidas importantes para os negócios.

Que perguntas você gosta de fazer a candidatos em uma entrevista de emprego?

Eu faço perguntas ligadas às competências que eu acho mais importantes e em que eu me encaixo que são: empreendedorismo, senso de urgência, excelência e brilhos nos olhos. Para medir empreendedorismo, por exemplo, eu pergunto qual é a relação daquele profissional com a empresa. Se ele me responde que veste a camisa, eu entendo que ele veste hoje, mas amanhã pode tirar. O que eu quero que responda é que a empresa está no sangue, na veia, que ele se sente o dono. Senso de urgência e excelência, a gente mede por resultados. Quero entender o histórico profissional e compreender o que ele considera resultado.

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E o brilho nos olhos, como você mede?

Para isso, não tem pergunta. É uma questão de sensibilidade para perceber quem tem. Em cinco minutos de conversa posso garantir se a pessoa tem ou não. Mas, o que eu mais gosto de perceber em um candidato durante a entrevista é se ele tem o perfil “hands on” (mão na massa), de quem não se apega a cargo, é preocupado com resultado, é humilde e generalista.

Não é tão comum, um executivo de marketing assumir a presidência de uma empresa. A passagem pela direção de vendas foi importante para credenciá-lo ao cargo?

Qualquer pessoa, de qualquer área, que queira chegar à presidência de uma empresa, em primeiro lugar, tem que pensar junto com a parte comercial, voltar-se para entender o faturamento. Eu nunca me vi como um executivo de marketing. Sempre me enxerguei como um cara de suporte às vendas. E a gestão que eu faço é comercial.

De onde vem essa paixão por riscos, essa vontade de, como você diz, colocar a cabeça na guilhotina?

Tenho propósito de vida que é o de dar uma vida cada vez melhor para minha família e, para isso, você precisa se arriscar. Quero dar para a minha família o conforto financeiro para sermos felizes juntos. Sou uma pessoa religiosa, minha família é católica e penso que o dinheiro é importante, mas não é o mais. O que importa é não perder seus valores e estar em ambiente onde se tem fé. Esse é ápice e tento buscar isso. Dinheiro é consequência. Eu nunca imaginei que seria presidente de empresa.

Você não mirava o cargo de presidente?

Nunca pensei em ser presidente. Sempre vivi o cargo em que eu estava. E é uma coisa que eu sempre falo: você está no cargo, você não é do cargo. Porque você pode mudar da noite para o dia e se faz bem a nova função, é reconhecido e acelera a carreira. Se não vier o reconhecimento, é sinal que você está na empresa errada.

A chave para crescer na carreira é a versatilidade?

É ser um profissional generalista. É preciso, claro, ter uma formação técnica, uma especialização. Mas é importante estar sempre disponível e olhando para a empresa como um gestor de negócios. Por isso que aqui na Bombril é proibido fazer filtro de candidatos a partir de currículo, analisando qual faculdade a pessoa fez. O filtro que usamos é o conhecimento. Queremos saber o perfil da empresa para a qual a pessoa trabalhou e as atividades que desempenhou. As melhores pessoas, aquelas com perfil “hands on”, geralmente são aquelas que trabalharam em empresas menores e cheias de problemas. Porque empresa grande é toda separada por departamentos e a pessoa acaba só desempenhando uma função.

Você diz que adora resolver problemas. Como consegue manter a calma diante de problemas, muitas vezes, graves?

Inteligência emocional foi um aprendizado que eu tive que ter na minha carreira. Quando eu trabalhava na General Mills e tinham aquelas avaliações 360° eu era o cara que tinha sempre a melhor nota. Mas faltava um ponto que era o fato de eu fazer caras e bocas quando ouvia uma pessoa falar algo que eu não gostava. Fui aprendendo. Vi que não existe problema que não tenha saída. A única coisa para a qual não tem solução é a morte. Se não morreu, significa que tem saída.

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Você fala muito em sucesso, mas e o fracasso? Como lida com ele?

Fracasso faz parte e você erra para aprender. Nunca pulei cargos, mas mudei muito na minha carreira. Gosto de colocar a cabeça na guilhotina, fiz isso várias vezes e deu certo. Mas tive fracassos, sim. Não foram aqueles fracassos com consequências desastrosas para a carreira, mas tive alguns e foram aprendizados.

Você planeja a sua carreira? Tem planos para o futuro?

Eu vivo o hoje. Considero-me um comunicador, adoro falar com as pessoas, o livro que escrevi é uma expressão desse lado meu. Mas não fico planejando o futuro, vou vivendo o dia a dia.

Este artigo foi originalmente publicado em EXAME.com

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