Um Projeto: Fundação Estudar

Perguntamos para 15 profissionais o que faz uma empresa ser boa para quem é LGBTQIA+

Por Suria Barbosa

Ainda que o mês inteiro de junho seja dedicado à conscientização sobre a causa, é no dia 28 em que se celebra o Orgulho LGBTQIA+ (sigla respectiva às palavras Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais, Transgêneros, Queer e Assexuais, e além).

Não há tanto o que comemorar. Embora inegáveis avanços tenham acontecido, a realidade de quem se identifica com o grupo ainda é marcada por estatísticas que escancaram uma desigualdade enraizada – e muito preconceito.

Por exemplo:

  • Cerca de 38% das empresas brasileiras tem restrições para a contratação de homossexuais (fonte: Santo Caos)
  • 1 em cada 5 empresas não contrataria profissionais LGBT+s (fonte: Elancers)
  • 25% do público LGBT+ altera carreira por medo da homofobia e transfobia (fonte: Santo Caos)
  • Cerca de 40% dos profissionais LGBT+s relata ter sofrido discriminação no trabalho (fonte: Santo Caos)
  • 38% das empresas brasileiras não contratariam pessoas LGBT+ para cargos de chefia (fonte: Elancers)

E estes são dados apenas sobre o mercado, apenas um dos âmbitos em que a desigualdade se traduz.

A fim de entender o que caracteriza um ambiente de trabalho saudável para pessoas LGBTQIA+, o Na Prática conversou com quinze profissionais – de áreas, idades, níveis de carreira e backgrounds diferentes. Confira abaixo os relatos na íntegra, sem qualquer ordem em particular.

Como um profissional LGBTQIA+, o que faz você se sentir confortável no trabalho?

#1 “Acho que primeiramente as oportunidades e a confiança nas demandas que recebo dentro da minha área, mas principalmente o respeito. Sou tratado da mesma forma que seria fora do ambiente de trabalho, posso ser quem eu sou, conversar e expor minhas ideias da maneira que eu penso mesmo, e sem precisar ponderar minhas atitudes por conta da minha orientação sexual. É muito saudável e libertador poder ser e me sentir assim.”

Patrick Aguiar, Estagiário em Marketing

#2 “Eu costumo ser bem aberto com relação à minha sexualidade no ambiente de trabalho porque sempre me senti à vontade. E como para alguns apresento heteronormatividade então nunca tive realmente alguma situação de vulnerabilidade ou de ameaça (o que obviamente eu acredito que acontece com mais facilidade com pessoas queer). Meu ambiente de trabalho tem bastante gente conservadora, mas, mesmo com alguns termos de preconceito enraizados eu sempre tentei reverter de forma respeitosa e recebi o mesmo em troca.”

Matheus Morais, Operador de Câmbio

#3 “Perceber que em nenhum momento as pessoas pensam se eu sou LGBTQ+ quando estou numa reunião, entrego um job ou dou minha opinião sobre determinado assunto. O importante é considerarem todos da mesma forma. Quando o grupo minorizado é tratado como comum (o que deveria ser um padrão na sociedade) não precisamos mais de rótulos e ações em busca de direitos.”

Luiza Vanini, Analista de Marketing de Performance na Fundação Estudar

#4 “É difícil saber de antemão, pois a resposta mais imediata seria não ser um ambiente homofóbico, mas isso a gente só percebe na real com o tempo, porque mesmo empresas ‘moderninhas’ têm casos não só de homofobia, [como de] machismo, xenofobia etc. Na verdade, ser gay (ou ‘ser aceito como gay’) não é uma questão pra mim na hora de procurar emprego, pois o meu crivo é puramente profissional e baseado nas minhas qualificações e na minha carreira. Já trabalhei lado a lado com gente homofóbica e não arredei o pé – o foco pra mim sempre foi o trabalho e, querendo ou não, ter uma renda pra me sustentar e alimentar a minha vida fora daqueles espaços. Mas de forma bem genérica, eu diria que me sinto mais confortável em empresas que não impõem restrições quanto a questões estéticas, pois obviamente ser obrigado a me vestir de acordo com um padrão normativo fere a minha identidade – porém, na hora de pagar as contas, talvez até isso ficasse em segundo plano e eu me rendesse à camiseta polo. Em resumo: sendo gay, eu NUNCA me sinto confortável em trabalho nenhum, então o mínimo que eu poderia querer é respeito e empatia.”

Renato Barreto, Redator e Professor, autônomo

#5 “A ideia corrente é a de que um ambiente de trabalho é inclusivo por aceitar a candidatura de pessoas LGBTQIA+ (bem como de outros grupos minorizados) ou por contar com um ou outro funcionário desse grupo. Ser inclusivo é dar um passo adiante, é entender que pessoas LGBTQIA+, para além de desafios comuns de qualquer profissional, enfrentam desafios adicionais. Aqueles relacionados à sua vivência, sua história. Para ser inclusivo, são necessárias ao menos três ações: buscar ativamente essas pessoas e reservar vagas a elas; conscientizar todos os funcionários a respeito de diversidade, de forma que a inclusão venha acompanhada de respeito; e oferecer oportunidades equivalentes de crescimento e representatividade em cargos altos.”

Raí Álvares Eufrásio, Pesquisador

#6 “Trabalho em dois hospitais. Um deles um pouco maior, onde sou mais anônimo, outro menor, daqueles lugares onde todos se conhecem. Em ambos, parece que rola uma política de ‘don’t ask, don’t tell’ e acredito que seja assim em quase todos os estabelecimentos de saúde. Até porque em geral são meios bastante conservadores, com o agravante de que a maior parte do tempo nós somos estimulados a não expor a vida íntima, meio que por causa da barreira que muitos pensam que deve existir entre os pacientes e os profissionais de saúde. Por outro lado, pelo fato de muita gente me conhecer dentro dos hospitais e por passar boa parte do tempo dentre deles, tenho relações pessoais bastante próximas com vários dos meus colegas, médicos ou não. Com essas pessoas, converso abertamente sobre meu namorado, sobre ser queer etc. E me sinto acolhido, respeitado. Minha chefe, por exemplo, ao me convidar para o aniversário do filho dela, fez questão de convidar também o meu namorado. A grande questão é que, se por acaso mudar de chefe, ninguém sabe como nós, LGBTQ+, seremos tratados. E mais, é fácil ser respeitado enquanto homem cis, ainda mais sendo o médico. Seria muito diferente, tenho certeza, o caso de uma pessoa trans. Que aliás, eu nunca vi em nenhum dos lugares em que já trabalhei. De maneira geral, não há inclusão institucionalmente falando. Mas pelo menos, nas relações do dia a dia, meus colegas fazem eu me sentir acolhido.”

B.R.A., Médico

#7 “Acredito que liberdade para ser quem eu sou sem precisar me preocupar com o impacto que a minha sexualidade pode causar no meu dia a dia de trabalho. Isso só é possível quando as pessoas que compartilham o mesmo ambiente que você respeitam a sua vida pessoal. No meu caso, a minha integração na empresa atual foi muito natural e espontânea. Eu associo isso aos outros LGBTQ+ que integravam a equipe. Eu simplesmente me senti confortável em revelar a minha orientação sem pensar que isso poderia ter consequências negativas. Então basicamente, a resposta é respeito e representatividade.”

Laís Gonçalves, Account Manager na Agência Profite

#8 “Acredito que o que mais me faz sentir confortável, estando dentro de uma empresa, é o respeito pelo meu trabalho. Nestes 12 anos efetivamente trabalhados, eu já tive dificuldades em demonstrar minha sexualidade, assim como tinha ao me posicionar com chefes ou pessoas abusivas em torno de mim; foi um processo de aprendizagem, no qual o quanto mais eu me conheço enquanto pessoa e profissional, mais eu consigo me posicionar perante aos outros. Além disso, manter uma relação próxima, principalmente dos colegas de trabalho, facilita o sentimento de você se sentir pertencente ao ambiente ao qual está inserido. Em minha experiência, já fui surpreendido positivamente trabalhando em empresas que eu imaginava serem homofóbicas e que me surpreenderam por terem regras e políticas acolhedoras a todos os tipos de pessoas, como também já me senti triste por estar em lugar que eu acreditasse ser mais aberto e inclusivo, quando na real, era o oposto. Para concluir, acredito que por precisar muito trabalhar e evitar conflitos, inclusive para me sentir confortável no que faço, nunca tenha me engajado tanto em me posicionar e buscar melhorar os ambientes nos quais estive, nesta causa específica, talvez por nunca ter sofrido nada direcionado a minha pessoa. De certa forma, estar no trabalho é um exercício de esconde-esconde e, na menor chance da minha sexualidade atrapalhar isso, talvez eu a deixe no armário novamente. Mas ressalto que não trabalharia num ambiente homofóbico, fosse comigo ou com outras pessoas, pois não me sentiria respeitado”

Augusto Garcia, Recursos Humanos na BA (empresa de design)

#9Quando vejo pessoas LGBT em cargos de liderança e cargos que quero alcançar. Dessa forma me sinto mais livre e reprimo menos qualquer informação ou opinião que muitas vezes o faço com medo do impacto na carreira.”

Ana Carolina Braz

#10 “Sempre me senti com muita ‘sorte’ pelo apoio da família e amigos, sendo assim dentro das empresas eu sempre tive uma coragem de nunca me esconder e sempre deu certo, sempre pude ser eu mesmo. Hoje para dar este conforto a mais pessoas eu ajudo a criar consciência aos executivos falando da pauta que temos que ser mais inclusivos e ter mais respeito: tenho colhido bons frutos nesta jornada.”

Henrique Bosco, Palestrantre e Head de Marketing de Consumer Eletronics

#11 “Um ambiente sem brincadeiras que envolvam palavras tradicionalmente usadas por héteros para ofender a comunidade LGBT, como ‘viado’ ou ‘sapatão’, por mais que essas palavras possam ser usadas sem a intenção de ofender, não tem graça alguma!

Arllyn Mello

#12 “Pra mim, a confortabilidade seria o respeito e o entendimento das pessoas de que há ‘diferenças’ e que elas não ultrapassam nada daquilo exercido no meio profissional. Eu não quero privilégios. Eu só quero ser visto como um ser humano e ser tratado da maneira mais normal possível. Minha orientação sexual não vai atrapalhar no meu desempenho no trabalho. As pessoas tem que parar de achar que os valores delas são os únicos e os mais certos do mundo todo. Com respeito ao próximo a gente vai muito mais longe e aprende com o ‘diferente’.”

Gustavo Borges, Universitário

#13 “O fundamental é o respeito. É o primeiro passo para que nós (de dentro da comunidade e as pessoas de fora dela) nos relacionemos melhor. é entender que minha sexualidade em nada interfere na nossa relação, seja ela pessoal ou profissional. O fato de os meus colegas de trabalho não usarem minha sexualidade como um empecilho, já me conforta.”

Guilherme Domingos Boarato, Auxiliar Administrativo no Banco Nacional de Paris (BNP Paribas)

#14 “Eu nunca trabalhei em um lugar onde sofri algum tipo de preconceito, ser gay nesse ramo publicitário nunca foi um obstáculo ou algo pra se ter vergonha/esconder. Acho que eu dei muita sorte porque no meu primeiro estágio tinha outro gay no meu time. Então eu me senti super a vontade sabe. Acho que ter alguém ‘igual’ a você já melhora o ambiente [em] 80%. Essa questão do coletivo mesmo”

Anônimo, Executivo de Contas

#15 “Eu vivenciei duas experiências, uma positiva e uma negativa. Já trabalhei em uma empresa que na qual me senti mais que confortável no sentido profissional e pessoal. Me senti eu mesma, cortando o cabelo, usando as roupas que me faziam bem e por mais que seja algo simples, pra mim/nós do mundo LGBTQ+ é uma liberdade gigante perante a sociedade e por muitas empresas que tem um estilo padrão de ‘beleza’. Digo isso porque na minha experiência negativa, eu não consegui me sentir confortável, pois no primeiro dia de serviço fui surpreendia com um: ‘Venha de sapatilha, calça jeans e cabelo preso’ e de cara já não consegui me ver ou me encaixar na vaga. Não só pelas vestimentas, mas sim pela maneira que eu fui recebida. Como disse no início, em um empresa que eu me senti confortável, eu não precisei afirmar minha orientação. Não me senti pressionada ou forçada a ser uma outra pessoa. Não senti nenhum olhar de julgamento. Já na outra, de cara tive esse bloqueio, medo de dizer ou agir de uma forma que a pessoa que me recebeu não fosse gostar, por ela ser de um cargo superior. Assim, acho que essa postura acaba prejudicando o desempenho do funcionário em qualquer função, pois as empresas precisam tomar partido em saber que, por mais que a orientação sexual não esteja ligada diretamente ao desempenho profissional, se sentir rejeitado faz com que isso prejudique qualquer pessoa. Então gente, ser empático é de graça. Não custa nada se colocar no lugar do outro e aceitar que todos temos ‘diferenças’ e que tudo bem, não tem problema nenhum fazer com que as pessoas fiquem confortáveis.”

Lara Vasconcellos, Estudante



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