É possível empreender em inovar sem ter conhecimento técnico?

Esqueça Steve Jobs. Esqueça Bill Gates e Mark Zuckerberg. Apesar do apelo popular do estereótipo, um líder-gênio, com uma ideia inovadora e muito conhecimento técnico para desenvolvê-la não é fator determinante para o sucesso de uma startup

Nathalia Bustamante, do , em 18.12.2015
mulher sorrindo [AcervoPessoal]

Ao contrário do que se pensa, não é a falta de conhecimento técnico, mas sim a ausência de experiência no mercado corporativo uma das maiores barreiras para quem quer começar a empreender do zero – e uma das principais razões pelas quais empresas acabam falindo antes mesmo de conquistar seu primeiro cliente.

O empreendedor americano Bernd Schoner, em seu livro “The Tech Enterpreneur’s Survival Guide” (sem versão em português), fala sobre a importância de montar uma equipe multidisciplinar, engajada – com conhecimento técnico, sim, mas com bases sólidas de administração e finanças e, acima de tudo, lideranças claras.

Administradora, formada pela Fundação Getúlio Vargas, Danielle Brants não se encaixa muito bem no rótulo “Tech” de fundadores de Startup – mas atende muito bem às três últimas necessidades essenciais descritas por Schoner. Vinda do mercado financeiro, Danielle pediu demissão sem saber muito bem o que queria fazer. “Estava cansada de trabalhar com algo que não me satisfazia, decidi tirar um tempo pra mim, para entender qual era o meu drive”, explica. Sem nenhum background em educação, mas com uma rede de contatos que falava cada dia mais sobre as inúmeras possibilidades de inovação na área, ela foi tentar entender as oportunidades do mercado através de um curso em Harvard. Lá, estudou, visitou empresas e se deu conta das possibilidades de inovação que o ensino adaptativo oferecia.

Apesar de identificar oportunidades em diversas disciplinas, Danielle percebeu que preferia lidar com uma competência específica: a leitura. “Descobri que o letramento ainda é feito de forma muito subjetiva, e que a tecnologia pode ajudar muito a sistematizar e melhorar o método”, justifica. Ainda em Harvard, ela teve contato com formas computacionais de medir o nível de dificuldade de um texto – tecnologias que ainda não possuem paralelos na língua portuguesa. Decidiu, então, investir na criação do primeiro software com essa missão. Surgia a Guten Educação.

O primeiro desafio foi formar um time que a apoiasse na construção de um software – assunto com o qual tinha pouca familiaridade. “Como eu não sabia nada sobre o assunto, precisei ter humildade. Conversei com muita gente, de empreendedores a pesquisadores nas universidades, e cada um me ajudou a entender um pouco do que queria e do que precisava”, comenta.

Explorando artigos científicos na internet, Danielle encontrou na USP, em São Carlos, um centro de pesquisa em Linguística Computacional. Ela conta que seguiu o método acadêmico à risca e conseguiu estabelecer com eles uma parceria; hoje, doutorandos da Unicamp e da USP estudam o assunto em um projeto com a Guten. “Os professores geralmente são muito abertos e querem disseminar conhecimento”, observa. O convênio estabelece uma parceria Empresa-Universidade, pela qual ambas as partes contribuem com trabalho, conhecimentos e experiências prévias. “A pesquisa para desenvolvimento de uma tecnologia desse porte é complexa, por isso decidimos nos unir a experts da área que podem adicionar velocidade ao processo”, completa Danielle.

Acostumada ao ritmo de trabalho em fusões e aquisições, Danielle sabe que tempo é dinheiro e, em se tratando de tecnologia, o mercado evolui a cada segundo. A Guten não podia esperar tanto tempo para começar suas atividades. Desenvolveram, então, outros produtos que, embora mais simples, já estão abrindo caminho no mercado e posicionando a marca como relevante no desenvolvimento de competências de leitura.

O primeiro app, Guten News, traz notícias adaptadas para crianças. Para lançá-lo, Danielle recrutou uma pedagoga, uma linguista, um jornalista e um programador. No próprio processo de criação, foi se familiarizando, aprendendo e descobrindo novas necessidades, em um ambiente de trocas constantes com os colaboradores. Para manter o ritmo, porém, era essencial que a equipe estivesse engajada: “Trazer parceiros foi um salto. Mas é difícil dizer: Venha pelo sonho! O sonho era meu, não deles”. Passou, então, a oferecer benefícios crescentes de acordo com o desempenho e a possibilidade de participação societária após o crescimento das vendas.

Este ano, lançaram outra plataforma capaz de mapear habilidades de leitura, indicando aos professores lacunas de aprendizagem específicas. Já o principal produto, baseado em inteligência artificial, tem previsão de lançamento em versão beta em 2016.

Enquanto idealizar e desenvolver os produtos são atividades colaborativas, Danielle foi responsável por manter a empresa de pé antes que começasse a caminhar. O aporte financeiro inicial foi todo feito com suas economias. “Como não tinha nenhum background na área, não tinha respaldo ou garantia para oferecer o projeto a investidores. Fui meu próprio investidor-anjo”, diverte-se.  Recentemente, recebeu o apoio de dois fundos: Artemisia e Omidyar Network, fundo norte-americano que investe em empresas de impacto social.

O modelo de negócios também foi uma concepção sua. As vendas são feitas de forma direta nas escolas, através de visitas e contato com a área pedagógica – o que, segundo Danielle, pode ser frustrante por ser muito moroso. “Precisamos ter paciência, porque a educação tem um tempo próprio – não porque as pessoas não estejam trabalhando, mas os processos são muito delicados e demandam mais tempo”, comenta.

Apostando em um novo modelo, fecharam parceria com uma editora, que distribuirá o App juntamente com seu material didático. Embora o foco ainda esteja no ensino particular, Danielle ainda planeja chegar, com o software completo, ao Ministério da Educação.

Sobre ser uma administradora na área de inovação em educação, Danielle abre um sorriso e garante: “Sou muito feliz com a escolha que fiz. Queria, de fato, investir meu talento em algo que me identificasse. Ter formação de administradora me ajudou na estruturação da empresa como um todo, e hoje me vejo como que tocando um bumbo, mantendo o  ritmo para que o crescimento – e o sonho – não parem.”

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