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‘Chinese Wall’: o que significa o termo, tão usado no mercado financeiro

Por Cecília Araújo

Entenda o que é e como funciona o mecanismo que protege informações privilegiadas em bancos de investimentos e outras instituições ligadas ao setor

Desde que a Muralha da China foi concluída, no século XV (ela demorou 2 mil anos para ficar pronta!), não foi superada por nenhuma outra estrutura militar de defesa. A construção, que já chegou a ter mais de 20 mil quilômetros, continua invicta como a maior barreira já criada pelo homem. Provavelmente é essa a razão pela qual o mercado financeiro emprestou o termo para se referir às suas próprias barreiras de proteção.

No caso do chinese wall administrativo, o objetivo obviamente não é proteger um território contra invasores, mas sim impedir a circulação de informações que possam gerar conflito de interesses. Em outras palavras, é uma barreira que garante que, dentro de uma mesma empresa, as áreas que têm informações privilegiadas sobre o mercado (prestando assessoria corporativa em caso de fusões e aquisições, por exemplo) não tenham contato com quem de fato opera nele.

Assista ao bate-papo com André Esteves, presidente do BTG Pactual

Como funciona

Imagine que um banco esteja coordenando a fusão de duas empresas que são suas clientes. Para isso, as empresas confiam à instituição informações financeiras e estratégicas confidenciais. A área responsável pela operação claramente sabe de coisas que o resto do mercado não sabe.

Sem o chinese wall, essa informação chegaria ao Departamento de Asset Management (responsável pela gestão de investimentos de empresas), que poderia usá-la para privilegiar seus clientes e garantir um lucro maior para o próprio banco. Essa conduta, além de antiética, configura crime em grande parte dos países (desde 1997, também no Brasil). O uso indevido de informações não-públicas para conseguir vantagem no mercado é chamado de insider trading.

Seria ingênuo simplesmente pedir que os asset managers não aplicassem esse conhecimento em suas decisões. Afinal de contas, também é função deles apostar nas melhores oportunidades para seus clientes. Aí é que está o conflito de interesses! Portanto, deve existir uma barreira para que certas informações não circulem entre setores responsáveis por negociações e gestão de investimentos de recursos de terceiros e aqueles que têm acesso a informações sigilosas.

Essa barreira pode ser virtual, por meio de sistemas de computador guardados com senhas para restringir o acesso a documentos confidenciais, ou mesmo física, garantindo que as áreas conflitantes fiquem localizadas em andares ou mesmo em prédios diferentes.

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Imprensa financeira

A metáfora do chinese wall também usada para se referir a práticas de proteção em outros setores relacionados ao mercado financeiro. Na imprensa financeira, o cuidado com informações sigilosas também é bastante cobrado. Em 2013, uma das principais agências de informação do mundo, a Bloomberg, foi acusada de espionar clientes de um serviço de dados financeiros provido pelo próprio banco.

Jornalistas e funcionários acessavam os históricos de leituras de seus clientes, entendendo que notícias haviam sido visualizadas – informação privilegiada que poderia revelar dados sobre a estratégia dessas empresas. Quando essa prática veio a público, a Bloomberg foi alvo de diversas críticas e inevitavelmente perdeu a credibilidade de seus clientes.

A bolha da Internet
[bloomberg]

Outros casos de mal uso de informações no mercado financeiro vieram à tona após a chamada bolha da internet, em 2000, quando descobriu-se que bancos estavam promovendo ações de empresas que eram suas clientes e inflacionando os preços, caso claro de um muro que desmoronou.

Alguns processos se arrastaram por anos nos tribunais. Um deles se resolveu só em 2014, quando a agência reguladora americana multou o Citigroup em US$ 15 milhões por não supervisionar adequadamente seus analistas. Entre as condutas inadequadas estavam jantares em que analistas discutiam com clientes outras opções de ações, diferentes das publicadas. (O banco decidiu fazer um acordo com o governo, sem explicações públicas.)

Também suscitou debate a falta de uma ‘Chinese wall’ em IPOs, ou ofertas públicas primárias. Andrew Ross Sorkin, colunista financeiro do jornal The New York Times, chamou atenção para um caso de 2011, quando um grande banco tornou-se underwriter do IPO de uma empresa. (O underwriter é a instituição financeira que media a oferta de ações inicial.) Separadamente, no entanto, seu ramo de fundos mútuos já a tinha em seus negócios. A aposta não deu certo, as ações não subiram e o investimento se mostrou um fracasso milionário.

Na teoria, escreveu Sorkin, a parede entre diferentes tipos de negócio existe. Na prática, banqueiros admitem que podem haver tentações – e quem não lê a linha fina de um contrato pode ficar sem saber.

“Para ser justo, em todos os casos que vi bancos como Morgan Stanley e Goldman anunciaram apropriadamente os potencial conflitos ao público”, disse, referenciando seções contratuais em que os bancos admitem que a empresa faz parte da cartela de investimentos. “Ainda assim, mesmo com essa certa distância entre os investimentos, as perguntam surgem entre os investidores.”

Matéria originalmente publicada em 11/11/2014 e atualizada em 5/5/2016.

Esta reportagem faz parte da seção Explore, que reúne uma série de conteúdos exclusivos sobre carreira em negócios. Nela, explicamos como funciona, como é na prática e como entrar em diversas indústrias e funções. Nosso objetivo é te dar algumas coordenadas para você ter uma ideia mais real do que vai encontrar no dia a dia de trabalho em diferentes setores e áreas de atuação.

 

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