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uma mulheer e dois homens de terno trabalhando em frente ao computador

O verdadeiro talento do século 21 no trabalho

Por Rafael Carvalho

Giedre Vasiliauskaite, pesquisadora da Universidade de Rotterdam, revela qual habilidade é essencial para o sucesso no mundo corporativo

Problema para uns, oportunidade para outros. A diferença entre estar no grupo destes “uns” ou no destes “outros” reside em uma capacidade crucial aos profissionais: pensamento crítico.

Esta, ao lado da comunicação e da criatividade, faz parte do hall das chamadas habilidades do século 21, segundo explica a professora Giedre Vasiliauskaite, da pós-graduação da Universidade de Rotterdam, na Holanda, e do master em negócios da Rotterdam Business School — em parceria com  o INEPAD — em entrevista a EXAME.com.

Essencial para o sucesso no mundo corporativo, o pensamento crítico, explica a especialista, se faz tão necessário por estar diretamente relacionado à capacidade de resolver problemas, inegável requisito de destaque no currículo executivo.

A seguir, confira trechos da conversa com a professora, em que ela explica o que é pensamento crítico, como se desenvolve e dá exemplos práticos do seu uso ambiente profissional:

O que significa ter pensamento crítico no mundo corporativo?

Giedre Vasiliauskaite: Um executivo que pensa criticamente tem uma maneira de pensar clara e bem estruturada e é capaz de se comunicar claramente, fazer as perguntas certas, de reconhecer o problema atrás do problema e olhar para uma questão sob diferentes perspectivas.

O pensamento crítico nos ajuda a identificar soluções possíveis e, claro, identificar oportunidades, incluindo o potencial das soluções identificadas. A partir do pensamento crítico, é possível encontrar formas de gerar negócios, conexões e perspectivas, simplesmente porque o problema foi correta e criticamente analisado.

Como os profissionais podem desenvolver esta habilidade?

Giedre Vasiliauskaite: Você desenvolve esta habilidade por meio do estudo da teoria do pensamento crítico e também praticando muito em situações reais. As pessoas se questionam se é possível ensinar a habilidade de pensamento crítico. Minha resposta é que, geralmente, sim, é possível.

Todos nós somos, na verdade, pessoas com experiência de 20 a 30 anos em argumentar (dependendo da idade dos estudantes). Quando eu argumento sobre a possibilidade de melhorar dons de pensamento crítico eu me apoio em estudos psicológicos sobre o cérebro: os humanos tem a habilidade de mudar padrões de pensamento e seus comportamentos.

Mas o que as aulas de pensamento crítico fazem efetivamente pelos profissionais?

Giedre Vasiliauskaite: As aulas de pensamento crítico fazem elevam nossos padrões de racionalização cotidianos para o nível da percepção. Quando você entende como o processo de racionalização funciona e quais são os erros comuns em que as pessoas incorrem, é mais fácil controlar o seu processo e, eventualmente, melhorar a sua racionalização. O pensamento crítico também ajuda a entender os elos, as carências e os defeitos na racionalização das outras pessoas.

Qual a principal barreira que bloqueia o pensamento crítico?

A automatização do pensamento é uma barreira para estas habilidades que não funcionam de maneira automática: boa comunicação, criatividade e pensamento crítico.

A senhora pode dar um exemplo concreto da vantagem de pensar criticamente?

O escritor da Harvard Business Review, John Baldoni, dá um bom exemplo nesse sentido: um executivo comum pode identificar o superávit da produção como um problema que o pensador crítico deveria ver como uma oportunidade para renovar o processo de produzir algo novo e, podemos acrescentar, explorar novos mercados, testar outras aplicações e apresentações do mesmo produto.

Leia também: Quais as habilidades necessárias para crescer na carreira?

Pensamento crítico é só necessário para profissionais experientes?

Não é só para os seniores. A nova geração que está chegando ao mercado agora é muito mais focada em colaboração e diversidade e é por isso que o pensamento crítico junto com a comunicação e a criatividade são chamados de talentos do século 21.

Por que é um talento do século 21?

Um estudo conduzido pela Accenture em 2013, chamado The Accenture 2013 Skills and Employment Trends Survey: Perspectives on Training e realizado com mais de quatrocentos empregadores executivos, mostrou que a necessidade crescente vista por empregadores quanto aos dons dos executivos é a habilidade de resolver problemas, e é aqui que age o pensamento crítico.

Quando nós revelamos a estrutura essencial de um argumento se torna mais fácil enxergar como as ideias são interconectadas. Portanto, podemos nos livrar de informações redundantes que embaralham a comunicação e desperdiçam tempo valioso.

Roger Martin, reitor da Rotman School of Management (da Universidade de Toronto, no Canadá), está reinventando sua universidade baseado na importância que ele atribui ao pensamento crítico, e é isso que estamos fazendo na Universidade de Rotterdam também.

Em tempos de crise como o pensamento crítico pode ajudar?

Um executivo com boas habilidades de pensamento crítico, ao invés de imediatamente procurar por uma solução, vai à busca do que e por que o problema aconteceu. Isso não é fácil de fazer. Esse executivo consegue simular possibilidades de intervenção projetando consequências possíveis e então selecionando as alternativas que dão os melhores resultados.

Veja, por exemplo, a questão da crise econômica que se desenvolveu desde 2009: com menos dinheiro no mercado, existe menos estabilidade e menor previsibilidade quanto ao que está por vir, desafiando indivíduos a se tornarem mais empreendedores e visualizar novas oportunidades para geração de negócios.

A mudança necessária tem duas dimensões pois requer não apenas rever as políticas nas organizações, mas também reforçar o padrão de pensamento empreendedor nas pessoas. Isso significa conquistar maior autonomia, mais capacidade para pensamento independente, identificação e aprender por meio dos erros, assim como realização na habilidade de sugerir soluções inovadoras em situações ambíguas.

Este artigo foi originalmente publicado em EXAME.com

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