Jorge Paulo Lemann: ‘Aos 26 anos, eu estava falido’

Qual a relação entre fracasso e ‘sonho grande’? Em evento comemorativo dos 25 anos da Fundação Estudar, Jorge Paulo Lemann fala aos jovens sobre motivação e hora de parar

Ana Pinho e Rafael Carvalho, do , em 01.08.2016
jorge paulo lemann em evento de 25 anos da fundacao estudar [Luis Felipe Moura]

Houve uma época em que até a mãe de Jorge Paulo Lemann esteve preocupada com seu futuro. Antes da fundação do Banco Garantia, em 1971, e após a venda dessa sua primeira empreitada financeira, quando tinha 26 anos, o empresário passou muito tempo “pulando de galho em galho e tentando sobreviver”. Pensar que o atual empresário mais rico do país estava falido após o começo e fim do seu sonho grande no Banco Garantia faz refletir sobre uma questão às vezes desagradável, porém necessária: o que fazer quando o sonho grande não dá certo?

Quando conseguiu se estabelecer financeiramente, Jorge Paulo enfim deixou a mãe – uma de suas grandes inspirações – um pouco mais tranquila. Em retrospecto, no entanto, lembra que seus ‘sonhos grandes’ mudaram bastante com o passar do tempo, e nem sempre suas realizações aconteceram como queria. A reflexão foi feita em conversa com o bolsista Renan Ferreinha, e fez parte do evento comemorativo dos 25 anos da Fundação Estudar, que acontece hoje (1/8) e pode ser acompanhado ao vivo por aqui.  

Os sonhos grandes Ainda quando era jovem, seu primeiro sonho grande foi no mundo do esporte. O conceito, de certa cunhado e difundido mais tarde pelo empresário, diz respeito a um ambicioso capaz de mover as pessoas. Na época, era ser um grande campeão de tênis. “Mas nunca fui o melhor tenista”, admite o empresário. Anos mais tarde, quando o lendário banco Garantia (por anos reconhecido como o melhor banco de investimentos do Brasil) precisou ser vendido para uma instituição maior, isso também não era parte do plano inicial. A ideia era que fosse uma instituição de longa durabilidade, que sobrevivesse pelos próximos 50 anos”, falou.

jorge paulo lemann 25 anos fundacao estudar 2
[Luis Felipe Moura]

Além dessas, outras realizações também não aconteceram como ele queria. Ou seja, os sonhos grandes nem sempre se concretizaram por completo – e isso não é o fim do mundo. Por outro lado, é possível analisar essas experiências sob outra perspectiva. No tênis, Jorge Paulo mais tarde conquistou dois mundiais de veteranos, aos 40 e aos 50 anos. No Garantia, tem a clareza do forte legado que o banco deixou em todo o modo de fazer negócios no país. 

Assista ao Bate-Papo do Na Prática com Jorge Paulo Lemann

Como o homem do sonho grande não sabe viver sem um, internalizou a experiência passou a buscar os outros da lista. “Um sonho grande que não aconteceu não deixa de ser um grande aprendizado, e eu pude corrigir meu rumo”, resumiu. 

Eventualmente e de maneira natural, conta, seus sonhos foram se tornaram menos individuais. Hoje, estão principalmente envolvidos com um futuro melhor e menos desigual para o país. “Ser o melhor ainda me interessa, mas meu maior sonho é melhorar a Fundação Estudar, a Fundação Lemann e a educação no Brasil”, contou. Atualmente, participar da construção de um país com as mesmas oportunidades para todos é um dos principais planos do empreendedor. 

Para Fundação Estudar, sua ambição maior é ver um bolsista conquistar a presidência rodeado por outros bolsistas, todos prontos para ajudar. Quando questionado sobre os problemas do país, Lemann foi categórico: ” Ética, pragmatismo e meritocracia fazem falta no Brasil”.

O poder da execução Para ele, o mundo pertence aos grandes sonhadores que executam, e cita como exemplo dessa categoria seus colegas empresários Elon Musk e Eike Batista. Lemann conta que se encontrou com ambos recentemente, em ocasiões diferentes, e ficou impressionado com a vontade em comum de criar algo novo. São (grandes) sonhadores, mas isso só não basta. É preciso executar.  

Na Califórnia, exemplificou, seu almoço com Musk acabou quando o fundador da Tesla precisou voltar para a fábrica. “Ele é uma maluco de ideias grandes e, às duas da tarde, disse que precisava ter certeza que iria preencher as cotas de produção do dia – e que, se não funcionasse, iria dormir lá.” É claro, portanto, que não adianta só vislumbrar um futuro brilhante. “E sou o primeiro a reconhecer que só sonhar não diz nada”, riu. Também reconhece que é mais sonhador que executor, e por isso mesmo se uniu a sócios de perfil complementar ao seu: seus parceiros de longa data, Marcel Telles e Beto Sicupira. “Tem que executar bem. Tenho me apoiado muito em pessoas que são melhores executoras do que eu.” 

Sobre a sua trajetória como executivo, também reconheceu erros e afirmou que gostaria de ter percebido mais cedo o quão importante é o cliente. Nesse sentido, a visão de longo prazo é essencial para, tanto para o sucesso de uma empresa como para a concretização de um sonho grande. “Se não pensar mais a longo prazo, para onde isso vai e como vai afetar as pessoas que trabalham com você, você não chegará tão longe. Gostaria de ter aprendido a ter uma melhor visão de longo prazo antes”.