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Steven Spielberg

‘Encontre um vilão para vencer’: leia o discurso de formatura de Steven Spielberg, em Harvard

Por Redação, do Na Prática

Diretor americano faz discurso de formatura na universidade e defende a importância da história, da intuição da conexão humana na carreira

Um dos diretores mais famosos de todos os tempos, Steven Spielberg tem mais de 50 filmes no currículo, muitos deles clássicos do cinema sucessos estrondosos de bilheteria. É também um prodígio da indústria e dirigiu “Tubarão”, um de seus primeiros trabalhos, com apenas 29 anos.

Eventualmente, Spielberg enveredou pela história e apaixonou-se por roteiros baseados em fatos reais. Retratou o racismo americano em “A cor púrpura”, o nazismo e a resistência em “A lista de Schindler”, os anos finais da guerra civil americana em “Lincoln”. Tais experiências o inspiraram a fundar a Shoah Foundation, que coleta testemunhos de sobreviventes de diversos genocídios pelo mundo, para que o legado dessa história nunca seja perdido.

Steven Spielberg em Harvard

Nas formaturas das grandes universidades norte-americanas, é comum que alguns dos maiores líderes da atualidade – ex-alunos ou não dessas instituições – sejam escolhidos para deixar suas mensagens aos estudantes prestes a se formar. Inspiradores, irreverentes ou reveladores, esses discursos são sempre fonte de boas lições para todos que estão entrando no mercado de trabalho e começando suas carreiras.

Neste final de ano, o Na Prática buscou reunir alguns dos melhores discursos de formatura de 2016 para inspirar os seus leitores a sonhar grande e perseguir uma carreira de alto impacto. Já publicamos, por exemplo, o discurso de Michelle Obama na City College of New York, e, em outras ocasiões, os discursos de Sheryl Sandberg, Jeff Bezos e Steve Jobs.

Steven Spielberg foi o nome escolhido para discursar na Universidade Harvard este ano. Ele falou sobre heróis, vilões e a importância de saber de onde você vem para saber quem você é num mundo tão complexo. Confira a tradução das melhores partes do discurso abaixo:

Eu abandonei a faculdade porque sabia exatamente o que queria fazer. Alguns de vocês também sabem, mas outros não. Ou talvez você achasse que sabia, mas agora questiona essa escolha.

O que escolher fazer em seguida é o que no cinema chamamos de “momento de definição de caráter”. São momentos que vocês conhecem bem, como quando Rey percebe que a força está com ela em “Star Wars: O despertar da força”. Ou Indiana Jones escolhendo a missão ao invés do medo quando pula a pilha de cobras.

Em um filme de duas horas, você tem alguns momento assim. Mas, na vida real, você os enfrenta todos os dias. A vida é uma linha forte e longa de momento de definição de caráter. E eu tive a sorte de saber exatamente o que queria fazer aos 18 anos.

Mas não sabia quem eu era. Como poderia? Como qualquer um de nós poderia? Durante os primeiro 25 anos de nossas vidas somos treinados para escutar vozes que não são as nossas. Pais e professores enchem nossas cabeças com sabedoria e informação e então empregadores e mentores assumem e explicam como o mundo realmente funciona.

E geralmente essas vozes de autoridade fazem sentido, mas às vezes a dúvida começa a entrar em nossas mentes e corações. E mesmo quando pensamos ‘não é bem assim que vejo o mundo’, é meio que mais fácil simplesmente concordar com a cabeça e continuar em frente.

No começo, a voz interna que eu precisava era difícil de ouvir e difícil de notas – parecida comigo no ensino médio. Mas quando comecei a prestar atenção, ela funcionou.

E quero esclarecer que a intuição é diferente da consciência. Elas funcionam juntas, mas eis a diferença: sua consciência grita ‘isso é o que você deve fazer’, enquanto sua intuição sussurra ‘isso é o que você poderia fazer’. Escute a voz que lhe diz o que você poderia fazer. Nada definirá mais seu caráter.

Quando eu comecei a escutar minha intuição, certos projetos começaram a chamar mais minha atenção.

Até os anos 1980, meus filmes eram em sua maioria ‘escapistas’.

Mas então dirigi “A cor púrpura”. E esse filme realmente abriu meus olhos para experiências que eu nunca poderia ter imaginado, e que eram reais demais. Essa história era cheia de dor profunda e verdades ainda mais profundas.

Minha intuição me disse que mais pessoas precisavam ver esses personagens e experimentar essas verdades. E, enquanto fazia o filme, percebi que um filme também poderia ser uma missão.

Espero que todos vocês encontrem esse sentimento de missão. Não se afaste do que é doloroso. Examine-o. Desafie-o.

Meu trabalho é criar um mundo que dure duas horas. Seu trabalho é criar um mundo que dure para sempre. Vocês são os futuros inovadores, motivadores, líderes e cuidadores.

E o jeito de criar um futuro melhor é estudar o passado.

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As mídias sociais que nos inundam são sobre o aqui e o agora. Mas tenho lutado em minha própria família para fazer com que meus filhos olhem além delas e para o que já aconteceu.

E é por isso que faço tantos filmes baseados em histórias reais. Olho para a história não só para ser didático – isso é só um bônus –, mas porque o passado é repleto das maiores histórias que já foram contadas. Heróis e vilões não são construções literárias, estão no coração da história.

É por isso que é tão importante escutar seu sussurro interior. É o mesmo que fez com que Abraham Lincoln e Oskar Schindler fizessem as escolhas corretas. Em seus momentos de definição, não deixe sua moral mudar pela conveniência ou pela rapidez. Manter seu caráter exige muita coragem.

Amor, apoio [de familiares e amigos], coragem, intuição. Todas essas coisas estão na sacola do heroi, mas um herói ainda precisa de um vilão para vencer. E aqui vocês estão com sorte. O mundo está cheio de monstros. Há racismo, homofobia, ódio étnico, ódio de classes, ódio político, ódio religioso.

Não preciso contar para uma turma de fãs do Red Sox que somos programados para o tribalismo. Mas além de torcer para o time da casa, o tribalismo tem um lado muito mais sombrio. Instintivamente e talvez até geneticamente, dividimos o mundo entre ‘nós’ e ‘eles’.

Então a questão principal precisa ser: como todos podemos encontramos o ‘nós’ juntos?

A única resposta para mais ódio é mais humanidade. Precisamos substituir o medo pela curiosidade. Encontraremos o ‘nós’ ao nos conectarmos uns com os outros e acreditando que somos membros da mesma tribo. E sentindo empatia por cada alma, mesmo as que estudaram em Yale.

Mas garanta que a empatia não é só algo que você sente. É algo que lhe faz agir. Isso significa votar, protestar pacificamente, falar pelos que não podem ou pelos que estão gritando mas não são escutados. Permita que sua consciência grite no volume que quiser se estiver usando-a no benefício de outros.

E, por favor, mantenham-se conectados. Nunca percam o contato visual. Talvez essa não seja uma lição que vocês querem ouvir de alguém da mídia, mas estamos passando mais tempo olhando para nossos aparelhos do que olhando nos olhos dos outros.

Então me perdoem, mas vamos começar agora mesmo. Encontrem os olhos de alguém aqui. Só permita que seus olhos se encontrem. É isso. Essa emoção que você está sentindo é nossa humanidade compartilhada – misturada com um pouco de desconforto social.

Se você não se lembrar de mais nada hoje, espero que lembrem desse momento de conexão humana. Porque hoje vocês começam a se tornar a geração que será a base da próxima geração.

Por fim, desejo a vocês um final feliz ao estilo de Hollywood. Espero que você fuja do t-rex, prenda o criminoso e, pelo bem de seus pais, de vez em quando faça como o ET: vá para casa.

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