Um Projeto: Fundação Estudar
Esplanada dos Ministérios

Como é o trabalho de um chefe de gabinete no governo federal?

Por Ana Pinho

Há dezessete anos em Brasilia, Mário Neves trabalha na Secretaria de Orçamento Federal, órgão responsável pelos gastos do governo; “É preciso tomar suas decisões com argumentos fortes e saber defendê-las para um ministro”, fala

Praticamente tudo que entra na Secretaria de Orçamento Federal (SOF), no Ministério do Planejamento, passa pelas mãos da chefia de gabinete antes de parar na mesa do secretário ou demais responsáveis por cada um dos setores da Secretaria (Fiscal, Infraestrutura, Saúde, Educação, Social e Administração, por exemplo).

E a responsabilidade é grande: este é, hoje, o órgão responsável pelos gastos do governo. 

“Vem o que você puder imaginar: demanda para liberar orçamento para o Exército atuar nos Estados em situação de emergência, pedido de cessão de servidores para trabalharem em outra unidade de governo ou uma fatura de energia elétrica para o escritório acender a luz no dia seguinte”, brinca Mario Neves, que ocupa a chefia desde agosto de 2016.

Trajetória

Formado em Engenharia Eletrônica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Mário foi um dos primeiros bolsistas da Fundação Estudar, em 1991.

A organização, fundada por empresários brasileiros, apoia o desenvolvimento de jovens talentos brasileiros e está com inscrições abertas para o seu programa de bolsas até 24/3. 

Mario engatou a graduação em um mestrado em Administração na mesma instituição e fez pós na George Washington University, onde estudou Economia Internacional.

Trabalhou no mercado financeiro até ser convidado pelo empresário Beto Sicupira, um dos fundadores da Estudar, para criar uma área nova na GP Investimentos, gestora de investimentos alternativos fundada em 1993 e que tem como foco a gestão de fundos de private equity.

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A proposta era estruturar o primeiro negócio no segmento não alcóolico para a Brahma, uma de suas investidas, e Mário começou com um projeto piloto de produção de água mineral no Estado da Bahia. 

“Montei a fábrica com outras duas pessoas e em seis meses estávamos vendendo”, lembra. Ao final do primeiro ano, já competiam pelo mercado em pé de igualdade com a maior concorrente da época.

De volta a São Paulo, lançou outras marcas do mesmo segmento como Lipton Ice Tea e Marathon, emplacando sucessos até a crise financeira asiática, em 1997. Decidiu então dar um tempo, mudou-se de volta para o Rio e abriu uma loja de roupas em Ipanema. 

Prova Surpresa

Preocupado com a carreira de Mário, seu irmão, um servidor público, o inscreveu num concurso público. Só lembrou de avisá-lo, no entanto, um dia antes da prova. “Eu falei que não ia porque estava dando praia”, ri Mário. Acabou aparecendo e, mesmo sem preparação específica, passou no teste. 

Restava o ceticismo em relação ao setor público, e o irmão veterano precisou esclarecer alguns mitos, como salários atrasados (eles são pagos em dia) e falta de mobilidade (há planos de carreira). 

“Pensei em ter uma experiência de dois ou três anos e depois montar um outro negócio qualquer. Isso foi em 2000 – e estou aqui até hoje.”

Em Brasília

Como analista de planejamento e orçamento – uma das mais cobiçadas carreiras do ciclo de gestão do governo – Mário passou pelas Secretarias de Governo de Planejamento e Investimentos Estratégicos e Assuntos Internacionais, assim como pelo Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, onde era responsável pela atração de investimentos diretos estrangeiros para o país.

“Logo que você é aprovado, passa por um programa de aperfeiçoamento, que integra o processo seletivo, e pode atuar no próprio Ministério do Planejamento ou nas áreas afins em outros Ministérios”, conta. A carreira oferece grandes oportunidades de desenvolvimento profissional, como atuação na área de planejamento, orçamento, economia, estatais, assuntos internacionais, entre outras.

O analista é avaliado pela chefia imediata, mas acaba progredindo por tempo de atuação e pode chegar ao estágio final da carreira entre quinze e 20 anos depois. “Essa estabilidade do servidor público tem dois lados: o profissional tem isenção política para trabalhar, mas funcionários sem muito interesse podem acabar não se esforçando muito.”

E ele diz que a meritocracia funciona na gestão pública. “Os melhores profissionais acabam sendo vistos e assumem comissões de nível superior, com maior responsabilidade, como assessoria a ministros, secretários, chefia de gabinetes, entre outros.”

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Há dezessete anos na capital, já viu as idas e vindas de quatro presidências, cada uma com seus projetos de governo, com equipes próprias e pessoas de confiança. 

Tais trocas têm consequências no trabalho do servidor, e a falta de continuidade é algo que pessoalmente lhe incomoda. “Quando alguém é eleito, você acaba vendo uma série de bons projetos e ideias serem desconstruídos e outros projetos chegarem, sendo que muitos desses estarão fadados ao mesmo destino daqui a algum tempo.”

Para evitar guinadas mais bruscas entre um governo e outro, explica ele, há o Plano Plurianual (PPA), previsto pela Constituição brasileira e que estabelece objetivos, metas e diretrizes do governo federal ao longo de quatro anos. 

A vigência do PPA é do segundo ano de mandato até o fim do primeiro ano do mandato seguinte, mesmo que o Poder troque de mãos. “Isso garante o mínimo de continuidade, mas os programas precisam de força política para andar e na prática continuam aqueles em que o governo atual de alguma forma tem interesse.”

Cadeia de comando no governo federal

Responsável pela comunicação interna e externa e pela agenda do secretário, há uma série de coisas sob sua tutela, da organização de uma reunião (quem precisa estar presente para discutir tal assunto?) à administração cotidiana, como tratamento de demandas do gabinete do ministro, demandas da imprensa, distribuição de processos às diversas unidades internas da Secretaria, resolução de conflitos e até a compra de materiais de escritório.

Mário Neves em Brasília
[Acervo pessoal]

Para lidar com tantas coisas distintas, Mário diz que ter uma base sólida em administração e economia é fundamental. “E é importante ter facilidade em se relacionar, porque os servidores são em sua maioria estáveis e você precisa saber motivá-los e tirar seu melhor.”

Também é preciso entender o cenário político brasileiro para priorizar o que precisa ser priorizado.

“Brasília é como se fosse uma ilha e às vezes pode-se perder a noção do Brasil. O que está acontecendo com um cidadão no Acre? O que alguém no interior do Maranhão precisa?”, exemplifica. “Quando as coisas de um país continental com problemas de toda sorte caírem na sua mão, você precisa ter discernimento.”

A crise e a gestão pública

Mário deixou o Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços após uma reestruturação, o tipo de coisa que acontece com alguma frequência sempre que há mudança de Poder.

É impossível, portanto, que o cotidiano de um servidor público não seja afetado pela crise política e econômica brasileira, especialmente quando se trata da parte financeira da máquina pública.

Ele assumiu o posto sabendo dos desafios, como a atenção contínua da imprensa, as demandas incessantes, as doze, se não mais, horas de trabalho diárias.

“Não é tão intenso quanto na época em que eu trabalhava na GP, quando cansei de pagar multa por não ter tempo de pagar conta”, diverte-se. Em suas caminhadas noturnas pela Esplanada dos Ministérios, no entanto, não se surpreende em ver os prédios acesos muito depois do fim oficial do expediente.

O tamanho da responsabilidade da Secretaria de Orçamento Federal aumentou com a aprovação do limite de gastos para órgãos do governo, conhecida como PEC do Teto, e a discussão contribuiu com a decisão de Mário.

“O orçamento é hoje algo muito importante e, com minha formação forte em administração e finanças, achei que poderia dar minha contribuição para trazer resultados de qualidade”, explica.

É justamente esse potencial de contribuição que o motiva diariamente: saber que uma decisão que passou, em algum momento, pela sua mesa agora reverbera Brasil afora.

“Não é demagogia. Quando saio daqui e vejo uma pessoa comemorando porque conseguiu um emprego, sei que isso está indiretamente ligado a uma ação que eu pude ajudar”, fala. “Um determinado investimento em algum lugar que gerou demanda por diversos tipos de mão de obra e agora a pessoa foi contratada, pode ir ao supermercado, ter uma vida melhor. Isso é o que de fato move os servidores que têm compromisso com o público.”

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