Um Projeto: Fundação Estudar
dois homens conversando

Entrevistamos Gabriel Benarrós, o amazonense que foi para Stanford e fundou a Ingresse ainda na faculdade

Por Ana Pinho

“Nas primeiras semanas, conheci o Mike Krieger, que criou o Instagram. No ano seguinte, conheci Evan Spiegel, do Snapchat. Fui vendo as coisas decolarem e quis participar desse meio em que as pessoas criam produtos"

Gabriel Benarrós mudou-se de Manaus para Palo Alto, na Califórnia, sem saber ao certo o que esperar. Pouco antes, estava desencantado com o curso de medicina na Universidade Federal do Amazonas e fora encorajado pelo padrinho a buscar opções nos Estados Unidos. Comprou uma revista especializada, deu uma lida e aplicou para as vinte melhores instituições americanas listadas. Foi aceito em dezessete e escolheu o primeiro lugar, a Stanford University, onde foi estudar como bolsista da Fundação Estudar.

“Eu não sabia absolutamente nada!”, ri. “Quando meu irmão mais novo foi para Yale no ano seguinte, descobri as diferenças absurdas entre as universidades e quase caí pra trás”, diz, citando outra instituição de ensino de ponta no país. 

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O amazonense não era expert nas universidades americanas, mas tinha um currículo sob medida para elas, com atividades educacionais pioneiras, ótimas notas e medalhas de olimpíadas científicas no currículo. Até hoje, no entanto, considera ter ido parar na Califórnia um golpe de sorte.

Isso porque foi ali, no coração do Vale do Silício, que nasceu a Ingresse, uma plataforma de compra e venda de ingressos online que deve movimentar mais de R$ 150 milhões em transações até o fim de 2016.

“Ter estudado em Stanford ajudou em tudo, porque você tem contato com uma atmosfera ultraempreendedora”, conta. “Nas primeiras semanas, conheci o Mike Krieger, que criou o Instagram. No ano seguinte, conheci Evan Spiegel, do Snapchat. Fui vendo as coisas decolarem e quis participar desse meio em que as pessoas criam produtos.”

Início

“Meu objetivo sempre foi ligado a entender como as pessoas funcionavam para conseguir construir coisas que melhorassem o mundo”, explica ele, que estudou economia comportamental.

Para tanto, pensou, era preciso conhecer seus incentivos. Estudar economia pura foi decepcionante, então Gabriel criou sua própria grade curricular, que misturava os conhecimentos intuitivos da psicologia à racionalidade econômica.

Formou-se em 2011, pouco depois de começar a Ingresse. Seu retorno ao Brasil foi às pressas. A empresa já estava crescendo, tinha angariado investimentos e precisava dele. Deixou o mestrado inconcluso e mudou-se para São Paulo.

Gabriel Benarrós - Ingresse - Empreendedorismo - 2
[Foto: Rodrigo Castelo Branco]

“Eu estava sempre olhando para comportamento e tecnologia é apenas um veículo para influenciá-lo”, explica. “A visão da Ingresse sempre foi melhorar a experiência das pessoas que buscam entretenimento: ajudar a encontrar um show, uma festa, ter um dia melhor.”

Desafios

A atitude no Vale do Silício, segundo Gabriel, é quase arrogante, mas inspiradora. “É pensar: ‘Sei que isso já existe, mas vou fazer melhor’”, diz. “Há uma orientação muito forte para construir, não ficar só na confabulação.”

De volta ao Brasil, a conduta foi útil na hora de encarar uma realidade empreendedora diferente da americana. Além da burocracia brasileira e da infraestrutura deficitária, que afeta áreas como comunicação e internet, Gabriel encontrou dificuldades em fechar uma equipe especializada, que estivesse disposta a correr riscos com um negócio novo e colocar a mão na massa.

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Para colocar o projeto de pé, era um aspecto fundamental. “No final do dia, o que diferencia o trabalho da equipe técnica é a motivação e a paixão pelo projeto, esse é o diferencial real das empresas”, explica. “E os melhores técnicos são atraídos pelo produto e seu impacto, por isso o recrutamento é tão importante.”

Outro aspecto de gestão ele também aprendeu na prática: dizer ‘não’. “Este é um dos principais desafios. Os bons gerentes de produtos são focados, chatos e inflexíveis pois vislumbram ganhos de base a longo prazo.”

Investidores, pelo menos, viram valor depressa na proposta. O país é o segundo maior do mundo em número de eventos e tem pólos do tipo, como Florianópolis, Balneário Camboriú, Rio de Janeiro e Campos do Jordão, além de ter uma cultura que celebra festivais e uma população fortemente conectada às redes sociais.

Vender a ideia de uma plataforma com tecnologia atual e que privilegiasse a experiência do usuário foi, portanto, a parte fácil. “Para quem entende do mercado, a visão da empresa é clara e contagiante, então os fundos de investimento se aproximam naturalmente”, diz Gabriel.

Entre festas, eventos universitários, shows e peças, a Ingresse opera hoje mais de 600 eventos por mês e tem uma equipe de 40 pessoas, em clima de startup californiana: pouca gente, muito trabalho e muito impacto.

A chave, para o fundador, é focar na geração de valor. “Hoje tem muita gente querendo virar palestrante, apresentador, ‘guru’, mentor, outros focados em ganhar dinheiro e passar por cima das pessoas ou apertar o fornecedor”, fala. “Se todo mundo focasse em gerar valor, ou seja, fazer 2 + 2 = 10, todos estaríamos em um lugar melhor.”

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