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Thaisa Bergmann astrofisica brasileira premiada pela unesco

Conheça a história da astrofísica brasileira premiada pela Unesco

Por Redação, do Na Prática

Ciência é uma carreira para mulheres? "Todas as mulheres têm condições de serem boas cientistas”, defende Thaisa Bergmann, premiada astrofísica brasileira que atualmente se dedica ao estudos de buracos negros

Uma descoberta científica vem sempre acompanhada de ansiedade, que deve ser domada a todo custo. É preciso guardar o grito dentro do si, às vezes por meses, até que tudo tenha sido checado e rechecado. É um mundo de exatidões, que não mistura empolgação com dados. Basta lembrar dos neutrinos recordistas que, no fim, não eram mais rápidos que a luz coisa nenhuma – um cabo é que estava mal conectado.

A astrofísica Thaisa Bergmann experimentou essa mistura de emoções em 1991. Ela observava uma galáxia quando notou um sinal estranho nos dados: gás girando em altíssima velocidade. Era a assinatura de um buraco negro supermassivo, com a massa de bilhões de sois. Seu orientador pediu que ela refizesse tudo. Estava certa.

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Conseguir observar um buraco negro no ato da captura de matéria é difícil, e a brasileira Thaisa foi a primeira pessoa a observar um supermassivo em atividade em uma galáxia considerada inativa. A descoberta foi recebida mundialmente como um avanço. “Quando me dei conta do que era, fiquei dias emocionada”, conta. “Descobri um evento que acontece há cada 10 mil anos numa escala humana de tempo.”

Em 2015, para coroar uma carreira renomada, vieram louros também de fora das ciências. Thaisa ganhou um dos cinco prêmios anuais L’Oréal-UNESCO For Women in Science, que conta com cerimônia na Université Paris-Sorbonne, pôsteres espalhados pela avenida Champs Elysées e bolsa de US$ 100 mil. “Por onde passávamos, enxergávamos nossas caras”, ri.

A importância do prêmio, para ela, foi além da visibilidade. “Ficamos muito felizes em sermos reconhecidas também pela população e pelas famílias, que às vezes não entendem o que toma tanto nosso tempo”, conta. “Essa parte foi bem importante para mim, porque eles viram que o que eu fazia era importante.”

Raízes do interesse Thaisa sempre gostou de ciências, mas chegou a cursar um semestre de arquitetura antes de se dar conta que não era aquilo. Logo estava nas aulas de Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS), onde trabalha e dá aulas até hoje, no comando do Grupo de Pesquisas em Astrofísica.

A paixão pela astrofísica em particular veio pouco depois, em uma iniciação científica. “Meu professor me deu leituras, começamos a fazer um pequeno trabalho na área de astronomia e fui gostando cada vez mais”, lembra.

O empurrão final veio da orientadora Miriani Griselda Pastoriza, famosa astrônoma brasileira. “Ela amava galáxias com núcleos ativos, que têm alguma característica peculiar no centro”, diz. “Fiquei fascinada pelo tópico.”

Iniciação científica: um caminho para formar lideranças inovadoras

Observando discos Atualmente, uma galáxia é classificada como ativa quando o buraco negro supermassivo em seu centro está captando matéria – e as publicações de Thaisa ajudaram a criar essa definição. Tal captura gera o que físicos chamam de efeitos de feedback, que permitem as observações. (Um buraco negro em si, vale lembrar, nunca foi visto.)

[A galáxia NGC 1672 / Hubble]
[A galáxia NGC 1672 / Hubble]

A forte radiação que parece sair do centro dele na verdade vem da estrutura que o envolve, chamada de disco de acreção. Antes de cair lá dentro, o que acontece aos poucos, a matéria gira de maneira similiar à água escoando pelo ralo.

É aqui que Thaisa realmente se especializou. “Do próprio disco saem jatos de partículas, devido ao intenso campo magnético”, explica. “Mesmo nas partes mais externas há ventos, como os ventos solares, e um gás muito quente que se levanta e evapora – tudo isso empurra o gás e acabamos enxergando essa atividade.”

Hoje, com cerca de 5 mil menções, ela integra o grupo dos cientistas brasileiros mais citados do mundo, mas diz nem ter notado a ascensão. “Foi uma grata surpresa”, resume.

Liderança feminina A cada seis meses, a professora e seus alunos elaboram projetos e entregam propostas de observação à universidade. Se forem aceitas, ganham alguns meses para observar as estrelas – mas não do jeito que se imagina.

“No começo da minha carreira, eu ia até o observatório, deixavam o telescópio na minha mão e eu passava a noite lá”, lembra ela, que trazia os dados em fitas magnéticas. “Agora, a gente baixa os dados da internet. As coisas vão mudando.”

[Em amarelo, uma galáxia que tem um buraco negro supermassivo no centro / Spitzer]
[Em amarelo, uma galáxia que tem um buraco negro supermassivo no centro / Spitzer]

E se hoje é raro que ela olhe pela ocular para o céu, a sofisticação tecnológica compensa o romantismo decrescente. “Num telescópio como o Gemini, com seis horas eu já tenho uma resposta científica”, diz.

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Além do Gemini, Thaisa tem acesso ao Hubble, ao Chandra e ao Spitzer, todos da NASA e que oferecem tipos de dados diversos. “São instrumentos que usamos para medir as coisas, como a luz que se dispersa em diferentes comprimentos de onda e então estudamos cada cor”, exemplifica.

Questionada sobre a representatividade feminina na ciência – de acordo com a Unesco, apenas 30% dos pesquisadores do mundo são mulheres –, ela é direta: todas as mulheres têm condições de serem boas cientistas.

“Mulheres enxergam assuntos de uma maneira um pouco diferente dos homens e isso adiciona”, conclui. “Ter um conhecimento amplo de tudo deveria ser o objetivo de todas as áreas de conhecimento.”

Assista também ao vídeo a seguir, no qual a empresária Claudia Sender, presidente da TAM, fala sobre liderança feminina e dá dicas para as mulheres que querem chegar ao topo:

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