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Noam Bardin

9 conselhos do CEO do Waze para startups inovarem de verdade

Por Ana Pinho

Em palestra no Google Campus, Noam Bardin lembrou dos desafios iniciais; "Você pode fazer algo que não é interessante ou algo que vai te colocar em conflito com algumas das maiores empresas do mundo”, resume

A palestra, marcada para 14h30, começou com alguns minutos de atraso. A caminho do Google Campus, Noam Bardin ficou preso nos engarrafamentos de São Paulo. “Aqui há muito trânsito e isso é uma coisa linda – é nosso negócio”, brincou.

A capital paulista está no topo das cidades metropolitanas que mais utilizam o Waze, o aplicativo israelense que domina o mercado de mapas para motoristas no mundo. O Brasil como um todo, aliás, é o segundo maior mercado da empresa, atrás apenas dos Estados Unidos.

Formado em economia pela Universidade Hebrew e com mestrado em administração pública pela Harvard University John F. Kennedy School of Government, Bardin viu tudo acontecer desde 2009, quando assumiu o cargo de CEO.

O Waze foi adquirido por US$ 966 milhões pelo Google em 2013 – uma ironia que ele gosta de apontar, já que o Google Maps havia quase arruinado o aplicativo quatro anos antes – e hoje fica na sede da empresa, na Califórnia, embora opere de maneira independente.

“Quando o Google Maps veio e aquilo aconteceu, chorei muito. Foi um grande trauma e nos jogou numa época negra, não conseguíamos captar dinheiro”, lembrou Bardin. No fim, porém, seguir em frente foi questão de escolha. “Você pode fazer algo que não é interessante ou algo que vai te colocar em conflito com algumas das maiores empresas do mundo.”

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Com cerca de 65 milhões de usuários em 185 países, o aplicativo coleta tantos dados relacionados à mobilidade urbana que criou o projeto Connected Citizens, aberto também à participação municipal. A prefeitura do Rio de Janeiro, por exemplo, otimizou a rota dos caminhões de lixo com as informações. Boston sincronizou seus semáforos. E a capital americana fez um intensivo de fim de semana para tapar todos os buracos sinalizados no Waze durante um fim de semana.

“Estamos vendo o empoderamento do usuário, que fornece a informação e vê a ação sendo tomada”, resume Bardin. Hoje, ele aposta fortemente no desenvolvimento de um sistema de caronas e na diminuição do número de carros rodando.

“No futuro, as pessoas não vão ter carteira de motorista e as crianças vão perguntar, impressionadas, se as pessoas de fato tinham um veículo próprio”, falou. “O que você quer é transporte, não um carro. Nosso próximo grande passo será remover carros das ruas e diminuir o trânsito em até 13% –  é o que quero na minha lápide.”

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Confira abaixo os melhores conselhos que o CEO deu aos jovens empreendedores na sala:

1. Pense a longo prazo
Em 2009, a equipe do Waze se viu forçada a escolher entre dois sistemas: Blackberry, então o telefone mais popular, ou iPhone? “A única razão pela qual estamos aqui hoje é porque tomei a decisão certa”, ri.

“Tenha muito cuidado ao desenvolver coisas para o incumbente atual e o próximo incumbente”, continuou. “Quando as coisas estão estáveis, é mais difícil para uma startup. Mas quando mudam depressa, você pode usar sua habilidade de se mover depressa também e fazer as coisas de um jeito diferente.”

2. Aproveite sua liberdade
Apesar de toda a liberdade que desfruta no Google, o Waze faz parte de um enorme conglomerado e tem uma série de responsabilidades financeiras, corporativas e jurídicas. Saudoso, Bardin declarou: “Você não sabe quão boa é a situação numa startup: há um sentimento mágico quando você pode fazer o que quiser”.

3. Escolha seus investidores com cautela
Após a destruição do plano de negócios inicial – de que adiantava um mapa médio barato quando havia um Google Maps de graça? –, a equipe do Waze viu diversos investidores sumirem. “Quando eu estava no canto chorando, muitos esqueceram meu nome. Não subestime o quanto você vai precisar dessas pessoas”, adverte. “Sua relação com eles será mais próxima do que com seus cofundadores e a primeira rodada é a mais importante. Preste atenção em onde e com quem você captará recursos. Confie em mim: faz diferença.”

4. Proteja sua cultura
Na época da aquisição, o próprio Larry Page garantiu a independência da empresa dentro do conglomerado. A equipe achou que era um blefe, mas ficou feliz em constatar o contrário. “Temos orgulho da cultura que construimos e amamos ir trabalhar”, falou Bardin. “Então os aspectos de integração com o Google são guiados pelo usuário: isso o ajudará de alguma maneira ou não?”

5. Mantenha o foco
“Quanto maior for seu foco, maior será a chance de sucesso”, resumiu. “Sonhe muito grande e execute de maneira muito pequena – seja o melhor de todos naquela coisa pequena.”

Pensando nas diferenças entre começar um negócio em um mercado pequeno, como o israelense, ou num país do porte do Brasil, Bardin destacou o que considera um aspecto crucial. “Em lugares grandes, há uma faca de dois gumes: você quer ser uma empresa local ou global?”, questiona. “Essa decisão precisa ser feita já no início. Se quiser ser global, precisa satisfazer o cliente americano e não seu vizinho. Mesmo que ele reclame, não tire seus olhos do prêmio.”

6. Não pense na competição
“Ninguém nas grandes empresas está pensando sobre você, então você não deveria pensar neles. Se construir o melhor produto, os usuários virão.”

7. Preste atenção no usuário
Bardin bate insistentemente na tecla do foco no usuário. Para ele, muitos aplicativos criados hoje em dia não levam em consideração sua verdadeira utilidade para o cliente final. “Está cada vez mais difícil fazer alguém instalar algo no telefone”, diz. “Não tenha clientes infelizes e faça o que é importante para eles.”

8. Seja apaixonado pelo produto
Quando se mudou para os EUA, em 2010, Bardin decidiu morar a 20 minutos do escritório. Assim, poderia dirigir e usar o aplicativo diariamente. “Todos na empresa usam o app, têm opiniões, procuram bugs”, conta. “Ser apaixonado pelo seu produto é crítico. Se você não liga para ele, ninguém precisa ligar.”

9. Aos CEOs: tenham prioridades
Mesmo numa empresa do porte do Google, não é possível realizar todas as ideias – e prioridade acaba virando a palavra-chave. No Waze, ela muda de tempos em tempos: começou com o número de usuários registrados, passou para número de motoristas, de quilômetros rodados, uso de funcionalidades específicas e por aí vai.

Na hora de definir os objetivos, clareza é fundamental. “Se sua equipe é ótima, as ideias serão ótimas. Qual é a métrica ou fase em que você está agora que deve se tornar o benchmark?”, pergunta. “O trabalho do CEO, especialmente numa startup, é saber qual é a coisa mais importante naquele momento, comunicá-la e focar todos os recursos nisso. Acertar que coisa é essa é a pergunta de um bilhão de dólares.”

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