Um Projeto: Fundação Estudar
A equipe da B8 Projetos Educacionais ganhando premio

Como as olimpíadas científicas desenvolvem os talentos brasileiros

Por Ana Pinho

De maneira totalmente voluntária, um grupo de jovens toca a B8 Projetos Educacionais e cria duas competições científicas nacionais por ano; inscrições estão abertas para a edição de 2017

Quando surgiu, a equipe da B8 Projetos Educacionais trazia consigo uma experiência que contrastava com a juventude de seus integrantes. Amigos de infância e então no começo da faculdade, eram todos veteranos de olimpíadas científicas e acumulavam, além de medalhas, horas de trabalho nos eventos.

“Decidimos continuar participando mesmo depois de formados, atuando no backstage, traduzindo e corrigindo provas”, lembra Allison Hirata, um dos sócios.

Os tempos de suporte e participações em júris logo renderam ao grupo a oportunidade de trabalhar com a equipe brasileira que rumava para a Olimpíada Internacional de Ciências Júnior (IJSO), em 2006, mesmo ano em que a ONG foi fundada oficialmente – e um ano após Allison passar em primeiro lugar na Fuvest.

Primeiro projeto da B8, o treino da seleção rendeu frutos e todos os alunos voltaram premiados do exterior, a melhor classificação do Brasil até então. Quase dez anos depois, em 2015, novo recorde: cada um dos seis estudantes voltou com medalhas de prata do evento e o grupo ficou entre os 30% melhores do mundo.

Renomeada Olimpíada Brasileira de Ciências (OBC), a versão nacional da IJSO, que abarca física, química e biologia, é hoje organizada do começo ao fim pela B8. Inclusive, escolas interessadas em participar da edição de 2017 da Olimpíada e estimular o desenvolvimento de seus alunos podem se inscrever por meio do link abaixo. A prova selecionará os alunos que vão representar o Brasil na etapa mundial, na Holanda: 

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Desde 2010, a ONG também é responsável por implementar o IYPT Brasil, edição brasileira do Torneio Internacional de Jovens Físicos, que inclui debates e discussões chamados de “Physics Fights”. Os vencedores das duas competições se classificam para representar o Brasil internacionalmente e são acompanhados pela ONG durante todo o processo.

A missão principal da organização não é o pódio, mas apoiar a educação ao estimular e destacar sua importância para o país. Para alunos, os benefícios são diretos. “Como há pouca atividade extracurricular no Brasil, esses eventos são uma plataforma e um diferencial para quem quer estudar fora”, explica Allison.

Servem também como referência para a seleção de alunos por parte das instituições. (Com uma delas, a inovadora Universidade Minerva, a B8 fechou uma parceria recentemente.) “Tivemos a felicidade de ver muitos de nossos alunos entrarem em Harvard, MIT, Stanford, Yale…”, continua. “Gosto de acreditar que ajudamos um pouquinho.”

Histórico De maneira resumida, as olimpíadas científicas são competições acadêmicas, voltadas primordialmente para estudantes de ensino fundamental e médio, e faz um tempo que o Brasil tomou gosto pelos testes. Além de oferecer as modalidades tradicionais, como matemática, física e química, também há provas de astronomia e aeronáutica, linguística, informática, robótica e biologia, entre outros.

Para os estudantes, é uma chance de testar habilidades e aprimorar o currículo. Já as escolas ganham em destaque acadêmico – quem nunca viu por aí um anúncio em que alunos de uma rede de ensino exibem, orgulhosos, suas medalhas?

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Seja em nível regional, estadual, nacional ou internacional, cada uma tem suas próprias regras e tipos de inscrição. Por aqui, podem ser organizadas tanto pelo governo quanto por entidades independentes, caso da B8.

Além de montar as provas e acompanhar o processo in loco, a ONG é responsável por corrigir tudo, selecionar os melhores participantes e depois prepará-los para as fases internacionais de suas respectivas competições, muito respeitadas mundo afora.

Dos milhares de participantes da OBC, por exemplo – em 2016, 10 mil inscrições vieram de todas as regiões do país –, cerca de 200 são escolhidos para a fase final. Dali saem seis alunos, que passam a compôr a seleção brasileira daquele ano. A organização passa então a treiná-los, tanto online quanto presencialmente, e acompanha o time na viagem.

Ao todo, a B8 já ajudou a trazer 60 medalhas para o Brasil na IJSO, seis delas de ouro, e outras quatro medalhas por equipe na IYPT, incluindo três bronzes e uma prata.

Desafios Formado em engenharia pela USP e pela École Centrale de Lille, na França, Allison é ele mesmo um aluno premiado. Ganhou ouro no IYPT Brasil e prata e bronze na Olimpíada Brasileira de Física. Também já treinou brasileiros em outras seis olimpíadas internacionais, do Azerbaijão à África do Sul.

Após trabalhar como consultor por alguns anos, decidiu que impactar a educação era o que queria mesmo fazer e foi continuar seus estudos na Universidade Stanford, onde é atualmente mestrando (e bolsista da Fundação Estudar).

De lá, atua na busca por parceiros e no desenvolvimento da B8, que conta com cerca de 10 pessoas. Quando a preparação se intensifica, o número de parceiros cresce para incluir voluntários de peso, como o professor Nicolau Gilberto Ferraro, conhecido de muitos estudantes Brasil afora.

A equipe brasileira no IYPT 2015
[IYPT 2015/divulgação]

“No Ensino Médio, sempre usávamos seu livro da física para estudar. Quando fomos atrás de gente para nos ajudar a montar a prova da OBC, ele se dispôs a faze-la e participa ativamente da banca até hoje”, conta Allison. “É muito legal ver que o autor do nosso livro é hoje um amigo, alguém que nos ajuda a fazer as questões que serão aplicadas.”

Por coincidência, os sete sócios da B8 têm em comum a escolha de graduação: são todos engenheiros. “Nossa sorte foi que cada um tinha sua especialização e seu ponto forte, seja planejamento, parcerias, logística ou desenvolvimento de sistemas”, fala. 

Para ele, começar tão cedo uma empreitada assim resultou em uma evolução tanto profissional quanto pessoal. “Quando começamos, não tínhamos nenhum conhecimento de gestão e aprendemos na marra.”

Entre as dificuldades iniciais estão exemplos clássicos da burocracia brasileira – abrir uma empresa, entender a legislação do terceiro setor, arranjar contador… Tudo era novidade e um pouco difícil.

Apesar dos obstáculos, Allison diz que o que de fato mantém a ONG ativa (e unida) é a missão. “Sou, se muito, um porta-voz da B8, porque o trabalho é fruto do esforço de uma equipe que quer melhorar a educação no Brasil”, resume.

Impacto É difícil adivinhar de onde virá uma memória marcante, mas não é raro ouvir, principalmente de quem ama estudar, que um bom professor pode mudar vidas.

No caso dos fundadores da B8, foi justamente isso. O encorajamento que receberam desde jovens se manteve tão vivo que o grupo foi cada vez mais longe e decidiu dedicar grandes porções de tempo, de maneira voluntária e ao longo de quase uma década, para que outros jovens tivessem as mesmas chances.

“É a faísca que gera o fogaréu”, fala Allison. “Tivemos um ambiente que nos incentivou a ir além e ver que existem coisas maiores lá fora. E esse é nosso objetivo no fim das contas: criar na sociedade a consciência de que alunos talentosos devem ser motivados e ter oportunidades de se desenvolverem e se destacarem em sua região, no Brasil e no mundo.”

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Em Stanford, ele estuda maneiras de fazer mais na área de educação e aposta no aprimoramento de gestão e do capital humano como pontos-chave. “É uma área que depende muito da capacidade de inspirar e liderar grupos de pessoas e há um gap de impacto gigante, que me motivou a vir pra cá e pensar.”

Do Vale do Silício, ele pretende trazer lições de inovação que possam ser adaptadas ao contexto brasileiro – só transplantá-las, avisa, não vai funcionar – e avancem a causa da educação nacional.

Talento, no entanto, nunca faltou por aqui. “Este é um conceito que ainda não está totalmente internalizado”, fala. “Os estudantes brasileiros são tão bons ou melhores que estudantes de qualquer lugar do mundo. Seja no Rio de Janeiro ou no interior do Maranhão, temos talentos fenomenais que podem fazer a diferença.”

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