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Como saber se você é ou não um workaholic?

Por Ana Pinho

Trabalhar muito nem sempre é um mal sinal: pode tanto impulsionar sua carreira como atrapalhar seus resultados, tudo depende da motivação por trás das longas jornadas

O registro mais antigo do termo “workaholic” é de 1947, estampado numa piada em um jornal canadense. Nas décadas seguintes, no entanto, o assunto só ganhou seriedade.

A importância cresceu nos últimos anos, na medida em que as barreiras entre vida profissional e pessoal passaram a ser redefinidas. Nesse contexto, tanto governos como organizações vem tentando se atualizar.

Na França, por exemplo, uma nova lei que dá aos funcionários o “direito de se desconectar” entrou em vigor em 1º de janeiro de 2017. A partir de agora, empresas com mais de 50 empregados devem estabelecer horários em que é proibido mandar ou responder e-mails profissionais. A proposta é pioneira, e bastante polêmica.

Por outro lado, países como os Estados Unidos não tem, por exemplo, uma política consistente de férias obrigatórias, e em diversos outros países pode ser observada a tendência de dar mais autonomia às empresas para definirem os próprios acordos de trabalho com seus trabalhadores. Nesse contexto, surge a pergunta inevitável: será que estamos realmente trabalhando demais? Somos workaholics?

Antes de mais nada, é preciso esclarecer o que define um workaholic. Daniele Levy, doutora em psicologia clínica pela Pacific Graduate School of Psychology e ex-bolsista da Fundação Estudar, se interessou pelo assunto ao trabalhar no alto escalão do Vale do Silício.

“Muitos colegas – em especial mulheres em cargos de liderança – mostravam-se nervosos, mal-humorados e emocionalmente esgotados”, conta ela, que investigou cientificamente a relação entre mulheres e vício em trabalho ao longo de uma década. “Seu nível de satisfação com a carreira e com a vida em geral era muito mais baixo do que poderiam julgar as pessoas que vissem a situação de fora.” 

Parece familiar?

O que significa ser workaholic

A principal diferença entre alguém estar envolvido de maneira saudável ou prejudicial com o trabalho são suas motivações e resultados. “Workaholism foi definido como um padrão caracterológico de alto envolvimento com trabalho que é dirigido por compulsões internas e resulta em baixo nível de prazer profissional”, explica ela. Ou seja, trabalha-se muito, mas sem que isso proporcione felicidade. 

Levy analisou dados de 350 ex-alunas dos melhores programas de MBA dos EUA – Stanford, onde ela mesma estudou, Harvard, Wharton, Chicago e Kellogg – para avaliar o impacto do vício em trabalho na satisfação marital, profissional, de carreira e de vida dessas mulheres.

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“Descobrimos que níveis baixos de prazer profissional eram consistentemente associados com resultados ruins em todas essas medidas”, fala ela, ressaltando que os impactos negativos ocorrem não só na vida profissional mas também na vida pessoal.  

Não se sabe ao certo o que causa workaholism – as possibilidades atuais incluem paralelos com dependência química, teorias comportamentais e mesmo traços intrínsecos de personalidade –, mas o consenso é de que ser viciado em trabalho pode ter consequências ruins para o bem estar, e que no fim podem prejudicar também a performance na empresa.

Inclusive, são numerosos os estudos que demonstram que o excesso de horas trabalhadas nada tem a ver com estimular produtividade – a real medida do seu sucesso no trabalho –, podendo inclusive reduzi-la. 

Outra pesquisa, da Universidade de Bergen, na Noruega, entrevistou mais de 16 mil pessoas. Seus dados indicam que viciados em trabalho são mais propensos a ter déficit de atenção, transtorno obsessivo-compulsivo e depressão.

Para identificar os workaholics – quase 8% dos entrevistados –, os pesquisadores usaram a escala de Bergen, uma das mais utilizadas atualmente e desenvolvida pela própria instituição. A autoavaliação tem sete critérios, como “você pensa em como criar mais tempo para trabalhar” e “você trabalha para reduzir sentimentos de culpa, ansiedade, desamparo e depressão”. Quem se der notas altas em pelo menos quatro deles pode ser um workaholic.

Eu sou um workaholic?

Trabalhar muito, vale lembrar, nem sempre é um mal sinal: tudo depende da motivação por trás das longas jornadas. 

“Se a motivação para se manter conectado com o trabalho vem de uma sensação de missão, propósito e satisfação e a pessoa na verdade gosta de suas atividades profissionais, estar sempre ‘ligado’ talvez não seja prejudicial à saúde”, diz Levy. “Você vê esse fenômeno entre empreendedores, líderes do terceiro setor e profissionais da saúde.”

Ou seja, se você pula da cama e trabalha dezesseis horas por dia porque acredita em seu projeto e encontrou um propósito, não se preocupe. Apenas se mantenha atento ao seu bem estar e invista o tempo necessário para continuar saudável e produtivo.

Essa, inclusive, é a melhor estratégia para quem quer se destacar profissionalmente e melhorar seus resultados: focar em aumentar a produtividade, e as horas trabalhadas. Algumas horas a mais podem vir como consequência, mas lembre-se sempre que o objetivo deve ser melhorar a entrega de resultados, e não simplesmente aumentar o tempo dentro do escritório.

Leia também: Sucesso e propósito estão diretamente conectados, indicam estudos

“Inversamente, se o mundo profissional começar a se intrometer no pessoal por conta de sentimentos de medo, culpa, responsabilidades não cumpridas ou um desejo de impressionar os outros, é provável que tenha repercussões negativas”, diz Levy.

E se os motivos para trabalhar sem parar forem negativos, uma abordagem do tipo Work Hard Play Hard (“trabalhe duro e jogue duro”) pode ser mais eficaz e fácil de introduzir, num primeiro momento, que simplesmente tentar trabalhar menos.

Daniele Levy
[Daniele Levy / Reprodução]

“Pode ser difícil modular a compulsão interna para se manter ocupado ou produtivo, e a pessoa pode colher mais benefícios se redirecionar essa vontade para outras atividades, não profissionais, que são prazeirosas para ela.”

Entre as mulheres que participaram de sua pesquisa, participar de grupos de apoio – a própria doutora é facilitadora de um programa do tipo em Stanford – e desenvolver habilidades de resolução de problemas e de administração de tempo também ajudaram a aumentar a satisfação profissional e diminuir o estresse.

Investir em ferramentas de relaxamento e mindfulness, como meditação, é outro conselho seu para quem se sente estressado. “Técnicas como respiração pelo diafragma, visualização e escaneamento corporal [três técnicas diferentes de meditação] podem ajudar”, diz ela.

Outro ponto-chave para quem quer evitar (ou abandonar) o vício em trabalho? O autoconhecimento, que permite que você compreenda suas reações e comportamentos e possa evitar ou atenuar traços de workaholism. Nos cursos do Na Prática, esse aspecto é explorado tanto no Autoconhecimento Na Prática presencial quanto em sua versão online. 

“Uma compreensão clara do seu sistema de crenças e das experiências relacionadas ao trabalho torna mais fácil navegar de maneira bem sucedida os novos capítulos importantes de sua vida”, explica ela, citando acontecimentos como gravidez, maternidade e promoções, que trazem novas pressões e responsabilidades.

Mudança de cultura

Como o workaholism se dá no ambiente profissional, é natural que a empresa esteja envolvida na solução. Chefes devem se manter atentos e encorajar atividades de lazer, grupos apoio e mudanças estruturais, caso sejam necessárias.

Mudar na prática significa adaptar a cultura corporativa. Entre as ideias propostas por Levy estão encorajar funcionários a delegar tarefas, criar prioridades e metas claras, delinear bem os papeis, tirar férias obrigatórias e restringir as expectativas de que é preciso estar sempre disponível online. (Nesse caso, ponto para os franceses.)

“Modelos que devem ser enfatizados são aqueles que trabalham de forma inteligente – e não compulsivamente dura”, conclui ela.

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