Um Projeto: Fundação Estudar
Miguel Andorffy

Ainda na universidade, esse gaúcho criou um negócio que já impacta mais de 31 milhões de estudantes

Por Ana Pinho

Fundador do Me Salva!, Miguel Andorffy aprendeu a empreender na prática e de repente; hoje, sonha em alcançar 100% dos estudantes do país com seus produtos educacionais

“Sou 97% engenheiro”, brinca Miguel Andorffy. Aluno de Engenharia de Produção na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, ele anda sem tempo para concluir o curso: ironicamente, a agenda está cheia de aulas que ele e sua equipe organizam e ministram para milhões de brasileiros.

Eleito pela revista Forbes Brasil como dos mais destacados jovens brasileiros abaixo dos 30 anos, Miguel é cofundador e CEO do Me Salva!, startup que oferece conteúdo de apoio online para universitários e estudantes do ensino médio.

Ao longo dos últimos quatro anos, 31 milhões de estudantes assistiram mais de 157 milhões de suas aulas e resolveram mais de 8 milhões de exercícios em disciplinas que vão de cálculo à citologia, redação e mecânica dos solos.

Em abril, a startup quebrou o próprio recorde com 400 mil aulas assistidas em um único dia. “São 4,6 aulas por segundo – só no YouTube, sem contar a plataforma, o aplicativo e o blog! É muita gente, viu”, entusiasma-se.

A história começa em idos de 2011, quando Miguel, empolgado com a recepção de seu conteúdo sobre cálculo entre colegas na faculdade, disponibilizou suas primeiras aulas no YouTube.

No ano seguinte, quando o canal já acumulava 100 mil views em meia dúzia de vídeos de cálculo para engenheiros, ele montou um site simples ao lado do amigo e cofundador Guilherme Piccoli. “Minha motivação era só organizar uma lista de vídeos”, lembra.

Na mesma época, inscreveu-se no prêmio Jovens Inspiradores, organizado pela Fundação Estudar e pela revista Veja.

Baixe o ebook: O guia definitivo do empreendedor – Aplicativos, ferramentas e leituras essenciais

O número de usuários ultrapassava um milhão quando ganhou a competição, em novembro de 2012. O tempo gasto em cada vídeo também chamava a atenção. “Nossa retenção era de 54%. Para uma aula de cálculo de 10 minutos, isso era impressionante.”

A metodologia, que ele afinou com o tempo, tornou-se seu diferencial. Sem ter o rosto em frente às câmeras, ele ensinava de maneira informal e amigável, com uma câmera filmando, verticalmente, suas mãos e as folhas de papel.

A ideia de criar uma proximidade maior entre professor e aluno veio dos tempos de escola, quando Miguel, que sonhava em ser nadador profissional, estava constantemente entre os piores da turma.

O dom natural para exatas salvava suas notas nas provas de recuperação, mas era na piscina que ele se dedicava, às vezes chorando de dor e recebendo o apoio dos colegas de time.

“Quando comecei a dar aulas para a gurizada na faculdade, vi que havia justamente a oportunidade de trazer um pouco dessa experiência boa de parceria para a sala”, lembra. “Percebi ali que dava para reinventar a coisa toda.”

Os desafios de escalar o Me Salva!

Na esteira do reconhecimento nacional que veio com o prêmio, Miguel decidiu ampliar o escopo do negócio. “A ideia era ter uma plataforma que funcionasse como um Google de aulas, com conteúdo de absolutamente qualquer disciplina”, lembra.

Era um desafio e tanto para uma equipe que havia crescido, mas era ainda pequena.

“Tínhamos um tráfego orgânico enorme, cerca de 10 milhões de views e mil cadastros por dia e quem fazia aquilo eram três pessoas, cada um na sua casa.”

Ficou claro que seria preciso escalar em todos os aspectos, do número de professores à capacidade do servidor, que ele pagava do próprio bolso.


[Uma das primeiras aulas do Me Salva!, gravada em 2012]

“A primeira coisa a me ajudar foi a era da comunicação em que vivemos. Percebi que, se tinha um bom projeto, conseguiria lançar na rede”, afirma. “Dei-me conta logo de cara que não precisava me sentir menor que o Salman Khan.”

O primeiro passo foi colocar ordem na casa. Miguel começou buscando investidores para implementar um modelo parecido com a plataforma Khan Academy, de Salman Khan, patrocinada por Bill Gates e totalmente gratuita para o usuário.

Leia também: Como um jovem de 22 anos criou um dos primeiros fundos de investimento de impacto do Brasil

Não deu certo. “Nunca houve um milionário ou empresa que doasse o valor, então empreender foi o único jeito de sustentar o Me Salva!”.

Para cortar custos e acelerar o processo, Miguel batia em todo tipo de porta: empresas de ensino, escolas e fundos de investimento. Um crowdfunding rendeu feito na época rendeu R$ 7 mil reais.

“Eu lia sobre como era empreender e procurava quem tinha conhecimento sobre as coisas no mundo real”, explica. “Se as pessoas acreditam no seu projeto, elas acabam ajudando espontaneamente – e a cara de pau é a melhor qualidade do empreendedor.”

Em 1º de janeiro de 2014, a equipe alugou uma sala a meio quarteirão da universidade, instalou um estúdio dentro do banheiro e estabeleceu uma única meta: “não morrer”. A visão se manteve intacta: entregar ensino de qualidade para o maior número possível de pessoas.

“Aquele foi nosso melhor ano: não só não quebramos como fomos acelerados pela Fundação Lemann, conquistamos nosso primeiro investidor e encontramos um modelo viável para o estudante.”

A equipe cresceu para seis pessoas e o número de professores, para dez. (Desde então, mais de 200 já passaram pela plataforma.)

Ainda em 2014, Miguel fez um curso de empreendedorismo na Stanford University com uma bolsa da Fundação Estudar, organização em que integra a rede Líderes Estudar, que reúne jovens de alto impacto.

Ao longo de dois meses na Califórnia, devorou centenas de livros sobre startups e mergulhou na cena do Vale do Silício, observando atentamente como os colegas conduziam seus negócios.

Voltou “sem um real no bolso” e com uma nova mentalidade: uma grande ideia poderia surgir de qualquer um e qualquer lugar e, com esforço, poderia se tornar realidade.


[Aula de história do Me Salva! gravada em 2017]

Criou um plano de negócios, arranjou um advogado e um contador – ambos aceitaram trabalhar de graça, vale destacar –, aumentou o número de aulas e disciplinas disponíveis e, em 2015, o Me Salva! estreou um modelo de pacotes de assinatura.

As mensalidades vão de R$ 9 para uma preparação para o ENEM a R$ 45 por todo o conteúdo de engenharia ou de ensino médio. (O conteúdo no YouTube se manteve gratuito.)

Funcionou: a empresa fechou 2016 com 40 pessoas na equipe e breakeven financeiro.

Com um modelo validado, a vontade agora é de expandir para todas as áreas e todos os níveis de ensino. “Queremos ser o melhor parceiro de estudos da galera e transformar a educação do Brasil. Essa é nossa visão”, resume o gaúcho.

Educação é um bom negócio

Miguel é mais a defender, entusiasmado, as possibilidades que a tecnologia oferece para revolucionar a educação.
Do acesso democratizado ao ensino de qualidade às possibilidades de personalização, que permite que cada um aprenda em seu próprio ritmo, ele acredita que o Me Salva! está na vanguarda de uma grande e plural transição.

“Penso que, no futuro, vão existir ene modelos de aprendizados, que permitirão que as pessoas aprendam de maneiras diferentes e com enfoques diferentes.”

Para ele, seu grande insight como empreendedor foi enxergar que educação é um bom negócio no Brasil e um mercado que tem muito potencial para crescer.

Embora ainda se surpreenda com as enormes métricas do Me Salva!, a confiança de Miguel num futuro de resultados ainda maiores é absoluta.

“Tenho muito claro que meu sonho é impactar a vida de 100% dos estudantes brasileiros através do ensino de qualidade”, afirma. “Mas não quero ser um senhor do universo: quis criar um método que também funcione sem mim.”

Nada mal para um jovem universitário de 26 anos.

O que achou do post? Deixe um comentário ou marque seu amigo