Um Projeto: Fundação Estudar

A experiência de mulheres no mundo do private equity

Por Ana Pinho

Em simpósio organizado pela FGV-SP, profissionais falam sobre presença feminina no mercado financeiro e como enfrentar o machismo

Um dos grandes destaques de private equity em relação a outros setores do mercado financeiro parece ser o equilíbrio entre vida pessoal e profissional: o ritmo, embora puxado, é mais controlável.

O fator foi apontado pelas três profissionais presentes em um painel sobre o tema no simpósio Women in private equity and venture capital, organizado pela Fundação Getulio Vargas em São Paulo, no dia 8 de março.

“A qualidade de vida é mais palatável”, explicou Beatriz Amary, gerente do fundo Actis Investment desde 1998. “Se você não estiver em período de captação de fundos, não tem ninguém te ligando de madrugada ou durante o fim de semana exigindo uma análise para o dia seguinte.”

Private equity é uma modalidade do mercado financeiro em que um fundo de investimentos adquire uma parcela de uma empresa e passa a participar da gestão e do processo decisório. O objetivo é lucrar com a venda das participações anos depois – podem ser poucos ou muitos, dependendo da estratégia do fundo.

Panelistas da FGV
[Beatriz Amary, Frances Fukuda e Raquel Silberberg/Reprodução]

As fases de um processo de investimento do tipo são variadas, da prospecção à criação da tese de investimento, originação do negócio, diligência, negociação, investimento, monitoramento e por fim a venda. 

Assim, o profissional do fundo que fica responsável por uma empresa investida deve acompanhar de perto e se envolver em sua gestão, equilibrando uma rotina dinâmica e o envolvimento com o dia a dia dessa empresa por anos.

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No Brasil, private equity é um segmento pequeno, mas crescente e as equipes costumam ser enxutas. Beatriz é a única mulher de seu fundo, assim como Frances Fukuda, vice-presidente sênior do fundo Warburg Pincus, onde trabalha desde 2012.

A exceção do painel foi a jovem Raquel Silberberg, hoje sócia da Innova Capital. Ela entrou no fundo logo após se formar em Administração pela FGV-SP, há cinco anos, e é a terceira mulher em um grupo de seis pessoas. O Innova foi criado por Verônica Serra, que é bolsista da Fundação Estudar assim como Frances. A organização, inclusive, está com inscrições abertas para seu programa de bolsas até 24/3.

Dados da empresa de pesquisas estratégicas Prequin mostram que, no mundo, só cerca de 12% dos funcionários seniores da indústria de private equity são mulheres – proporção que se repete em outras áreas do mercado financeiro.

Uma mulher entre os homens

O ambiente é predominantemente masculino e, para se sentirem mais confortáveis, as mulheres tiveram que criar hábitos e até pequenos truques. Antes de certas reuniões, uma das painelistas chegou a colocar uma aliança no dedo quando ainda era solteira para evitar atenção indesejada.

“Vão ter vários baldes de água fria no caminho e, se você escuta muito, desanima”, falou Frances, que encontrou machismo com força pela primeira vez aos 23 anos, quando tocou uma equipe de vendas de 180 homens na Ambev. “Delete da sua mente, desenhe sua carreira e corra atrás.”

O jeito que ela encontrou foi utilizar suas fortalezas, algumas delas consideradas femininas, para ganhar o time, que foi líder de excelência no Brasil naquele ano.

Mais tarde, quando estava na prestigiosa Wharton School, a escola de negócios da University of Pennsylvania, Frances decidiu entrar no mercado de private equity. Só existiam três fundos no Brasil, e um amigo insistiu que um deles categoricamente não contratava mulheres.

Ela foi em frente, passou pelos processos seletivos – ela lembra das muitas perguntas sobre maternidade como uma preocupação “descarada” – e recebeu oferta de todos. “Se você acreditar nos preconceitos, eles jogam contra você”, resumiu.

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As três concordaram que não é preciso adotar um comportamento tido como masculino no estereótipo popular para ter sucesso. “Depois de um tempo mostrando competência, você ganha respeito e vira sua própria pessoa”, concordou Beatriz.

Raquel foi além. “As habilidades exigidas são diferentes e a mulher cabe muito bem em um time que não trata só de balanço, análise e entrega: é preciso ser conselheiro, psicólogo e lidar com altos e baixos de uma relação”, falou. “Ter mulheres nesse processo ajuda porque temos facilidade para ler pessoas e transmitir mensagens mais difíceis, algo que é valioso no mercado.”

O trabalho pode até ser menos intenso que em bancos de investimento, mas elas garantem que não é fácil. “É você que decide fazer um investimento, toma decisões estratégicas que tem muito peso para a companhia. É uma pressão violenta”, resumiu Frances.

Como aumentar a representatividade feminina

Unânimes, elas dizem que desconhecimento sobre o setor é um dos maiores obstáculos. Enquanto consultorias e bancos de investimento marcam presença na faculdade, os fundos de private equity seguem sendo um nicho.

“É uma indústria de turnover baixo, que tem um trabalho interessante e desafiador”, disse Frances. “Precisamos alimentar a base da pirâmide para que as mulheres cresçam dentro na empresa”, diz ela, se referindo aos cargos de entrada nos fundos. Investir em políticas de atração, portanto, é uma das questões chave para aumentar a presença de mulheres no setor.  

Para isso, elas concordam que é o papel da escola e do mercado como um todo fazer com que private equity seja uma carreira mais cobiçada e disputada pelos jovens.

O mais importante, disseram elas, é que currículos de candidatas fortes cheguem na mesa. Os fundos contratarão a pessoa mais competente para o trabalho e, enquanto a proporção de candidatos homens for tão superior, eles serão contratados com mais frequência.

Frances lê ansiosamente cada um dos currículos que chegam, decidida a destacar uma boa candidata assim que ela aparecer.

Como é trabalhar com ‘private equity’, segundo três profissionais do setor

“Vejo muitas mulheres em entrevistas de emprego perderem pela atitude pouco confiante que demonstram”, explicou. “E quando uma mulher se posiciona, ela se destaca.”

“Exponha o que você pensa e não pense se vão te ouvir”, aconselhou Raquel. “Vão ter momentos em reuniões que a recepção não vai ser o que você esperava, mas não se abale se passar por situações machistas.”

Para quem pensa em formar uma família no futuro – Frances e Beatriz já são mães –, a dica é buscar um local de trabalho alinhado com seus valores e um parceiro disposto a dividir ambições profissionais e tarefas domesticas igualmente.

Ver com bons olhos a flexibilidade do trabalho, como trabalhar de casa ou em horários alternativos – mulheres ainda fazem uma parcela maior do trabalho doméstico e frequentemente enfrentam uma ‘dupla jornada’ –, também seria uma maneira de aliviar as diferenças de representatividade.

Uma pesquisa recente da Global Network for Advanced Management apontou que 54% dos entrevistados vêem com bons olhos quem trabalha fora após o expediente, mas 69% vêem o trabalho remoto durante o expediente de maneira negativa.

Também é muito útil ter um grupo de apoio e modelos em quem se inspirar. Frances foi recentemente convidada para um jantar organizado por uma headhunter da área com uma dezena de mulheres que trabalham com private equity e considerou a experiência transformadora.

“Eu me sentia sozinha, sem referências, e foi legal ver mulheres que já passaram pelo que estou passando agora e já tinham filhos crescidos e entender o que funcionou”, contou. “Foi quase uma terapia! É legal ver tantas mulheres bem sucedidas, felizes e realizadas numa indústria difícil. Deu certo ali, então vai dar certo para mim.”

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