Como um engenheiro empreendeu em educação

Criador da plataforma QMágico, que já tem 1500 escolas cadastradas, Thiago Feijão quer transformar o jeito que brasileiros ensinam e aprendem: “Empoderar professores é o nosso foco”

Ana Pinho, do , em 12.09.2016
Jovem Sorrindo [Roosevelt Cássio/acervopessoal]

Cada ser humano é um indivíduo. Parece óbvio, mas no campo da pedagogia este é um tema cada vez mais em voga. Já que todos são diferentes, aprendem de maneira diferente também. Alguns estudantes são mais visuais, outros preferem ler. São mais rápidos ou mais lentos, tímidos ou extrovertidos. As combinações são inúmeras.

Identificar tais traços e acompanhar a absorção do conteúdo é um desafio para professores em sala de aula e, para um engenheiro e professor voluntário, o insight foi usar a tecnologia para ajudar.

O objetivo atual de Thiago Feijão é implementar em dezenas de milhares de escolas sua plataforma QMágico, que consegue identificar estilos de aprendizagem de cada aluno, criar programas adaptativos e personalizados e melhorar a vida de estudantes e mestres.

Cofundado por ele em 2012, o QMágico já tem 1500 instituições, entre públicas e privadas, de ensino fundamental e médio cadastradas. Os docentes podem inserir seu conteúdo online, chamado de Caderno de Aprendizagem Inteligente, e fazer ali mesmo a gestão de cada aluno, que tem acesso à plataforma de onde estiver.

A aposta é no ensino híbrido, seguindo a grande tendência educacional que mistura aulas presenciais e online. O software por trás do negócio capta e analisa todos os dados que circulam. Eles se transformam em recomendações, sugestões e estatísticas que podem ser usadas pelos professores tanto para aprimorar suas aulas quanto para auxiliar pupilos individualmente.

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Os algoritmos, que evoluem constantemente, são capazes de identificar o “nível” de cada aluno, apontando quais são suas facilidades e dificuldades nos exercícios, e oferecer conteúdo customizado para a fase em que se ele encontra por meio do professor.

Graças à análise de dados, os docentes também podem compartilhar entre si seus cadernos e descobrir quais são melhores práticas ou sequências de ensino. “Empoderar professores e criar um ambiente colaborativo de conteúdos e práticas pedagógicas entre escolas e professores do Brasil é o nosso foco”, resume o empreendedor ao Na Prática. “Acreditamos que a educação vai mudar se todos estivermos juntos. Nós estamos criando essa rede.”

Oportunidades O QMágico, que começou com como uma plataforma de vídeos e exercícios, é uma missão de cunho pessoal para Thiago. “Minha família sempre me motivou pela educação e desde cedo eu já acreditava que ela poderia me ajudar a realizar meus sonhos”, lembra.

Aos 12 anos, o cearense ganhou seu primeiro mentor quando estudava no Colégio Militar de Fortaleza. Era o professor de matemática Geraldo Macedo que, entre outras atividades, convidou o aluno para ajudar em sua tese de mestrado e moldou sua noção da profissão. “Ele me trouxe clareza sobre como a educação é capaz de melhorar nossa qualidade de vida e resolver desafios sociais”, diz.

Sempre atento à realidade social de um dos países mais desiguais do mundo, Thiago, hoje com 27 anos, se sentia sortudo por ser tão incentivado e queria que outros tivessem as mesmas chances.

“Queria retribuir as oportunidades que tive, como de ter uma família que acredita que a educação é o elemento transformador e ter um professor que me ensinou muito mais que só o conteúdo de matemática”, lembra.

Trajetória O caminho que encontrou foi se tornar empreendedor social. Começou aos poucos, dando aulas como professor voluntário e tirando dúvidas de quem pedisse. Em 2008, quando fez as malas para São José dos Campos, onde fica o Instituto Tecnológico de Aeronáutica, ampliou o leque de atuação.

Lá, o futuro engenheiro mecânico-aeronáutico se pôs a pensar no que seria seu grande projeto profissional: como um bom professor, como seu amigo Geraldo, poderia ajudar todos os alunos brasileiros? Ou seja, como escalar a educação de qualidade?

“Escolhi o ITA pois sabia que, quanto maior fosse o desafio, maiores seriam as oportunidades”, diz ele, que também é bolsista da Fundação Estudar. “Além de toda a formação acadêmica, durante cinco anos fiquei ao lado de pessoas que admirava e que eram muito melhores que eu em muitas coisas. Crescer junto delas é uma grande oportunidade.”

Ainda calouro, começou a investigar as possibilidades. Foi professor em escolas da região e no antigo Curso Alberto Santos Dumont (CASD Vestibulares), iniciativa pré-vestibular do ITA com mais de 700 alunos. Empolgado, Thiago foi professor, diretor e presidente antes de cofundar o CASDinho, com foco no ensino básico. 

Ao todo, foram quase quatro anos de trabalho nas ONGs, que recentemente se uniram para formar o Centro Educacional Santos Dumont. “Aprendi e refleti sobre como uma escola de excelência funciona”, resume. “E com essa experiência de educação e a formação do ITA, surgiu o QMágico. Os pontos se conectam com o tempo e quando você olha pra trás.”

Thiago Feijão e Gabriel Melo, do Q Mágico

[Com Gabriel Melo, cofundador do QMágico e colega de ITA/Foto de Guto Oliveira]

Ainda antes de se formar, Thiago teve outra ideia. Após ouvir diversas histórias de vestibulandos que não conseguiam aproveitar vagas que haviam conquistado nas melhores faculdades do país – por falta de dinheiro para se sustentar ou de apoio emocional e psicológico, por exemplo –, cofundou com três amigos o Instituto Semear, em 2010, em que atua até hoje.

O instituto apoia jovens que buscam resolver desafios sociais e oferece bolsas de estudo, mentorias e uma rede de contatos. A organização seleciona cerca de 40 jovens por ano e hoje apoia mais de 300 universitários pelo Brasil.

Mentores são um ponto de destaque para Thiago, que teve os seus tanto no ITA quanto na Fundação Estudar. “Eles sempre me fizeram boas perguntas para que eu pudesse refletir bem sobre minhas decisões, investiram tempo em fazer com que eu me conhecesse mais e me inspiraram a ser melhor.”

Passado e futuro Foi num evento promovido pela própria Estudar, há seis anos, que Thiago descobriu o conceito de empreendedorismo social e negócios sociais com que trabalha hoje. De passagem pelo Brasil, o professor da Harvard Business School Michael Chu apresentou as noções básicas de um modelo de impacto na base da pirâmide social, sua especialidade.

Algo sustentável, escalável e capaz de melhoria contínua? As peças começavam, aos poucos, a se encaixar.

Thiago também atua como consultor ocasional e já trabalhou para a Confederação Nacional da Indústria, onde desenvolveu uma tecnologia para o ensino técnico brasileiro, e para o Banco Interamericano de Desenvolvimento.

Questionado sobre a possibilidade de seguir na área, ele é prático. “Penso que todos devem seguir seu ‘sonho grande que traz brilho no olho’, o velho clichê”, brinca. “A carreira é só o ‘meio’ para esse ‘fim’. Eu seria consultor se me ajudasse a chegar lá.”

Lá, no caso, é ajudar professores e alunos do Brasil inteiro e, eventualmente, do mundo. “O futuro de nossos jovens está nas mãos deles e das famílias. Se o QMágico fizer esses professores crescerem, eles vão mudar nossa educação.”