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reunião informal entre jovens profissionais homens

Competição premia estudantes que resolvem problemas de grandes empresas

Por Rafael Carvalho

“Não é incomum que as empresas ofereçam vagas de emprego aos melhores colocados”, diz sócia-fundadora da Battle of Concepts no Brasil

O que varredores de rua podem fazer para conscientizar as pessoas a não jogarem lixo no chão? Como vai parecer um leito de hospital no futuro? Essas podem não ser as “perguntas do milhão”, mas são, respectivamente, os desafios que valeram 5 mil e 15 mil reais no site da Battle of Concepts (ou BoC).

Na plataforma, estudantes universitários e recém-formados sugerem soluções para desafios propostos por grandes empresas – e são recompensados por isso. “O que fazemos, basicamente, é intermediar a inovação aberta para grandes empresas”, diz a paulistana Rita Oliveira, de 25 anos, sócia fundadora da Battle of Concepts no país.

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A BoC busca entre os estudantes respostas criativas para dilemas que seus clientes não estão conseguindo resolver sozinhos (ou de maneira satisfatória), tais como tornar processos mais eficiente ou mesmo criar um novo logotipo. “Muitas vezes, numa grande empresa, os funcionários ficam limitados para criar por falta de tempo ou incentivo e, por isso, não conseguem pensar fora da caixa. É aí que entram as pessoas cadastradas na nossa plataforma”, conta Rita.

Batalhas

Os desafios disponíveis no site da Battle of Concepts são chamados de batalhas. Em média, participam 120 estudantes por prova. É possível fazer a inscrição individual ou em dupla e, detalhe, a idade máxima para participar é 30 anos. Cada batalha tem um prazo para terminar, um conjunto próprio de regras e um prêmio em dinheiro para a melhor ideia. As sugestões são enviadas de forma anônima e a empresa só descobre qual é o nome e a formação do campeão quando o desafio acaba. “Não é incomum que as empresas ofereçam vagas de emprego aos melhores colocados”, diz Rita.

Um exemplo é uma das batalhas citadas no começo do texto – a que pediu aos estudantes que imaginassem como vai parecer um leito de hospital no futuro. Criada pelo Hospital Israelita Albert Einstein, tinha como objetivo descobrir como melhorar o bem-estar e a autonomia dos pacientes com câncer, que chegam a ficar três meses internados sem sair do quarto. As cinco melhores respostas foram premiadas com quantias em dinheiro, sendo que o primeiro colocado recebeu 5 mil reais e o quinto recebeu mil reais (A BoC não divulga quais foram as ideias nem quem foram os ganhadores para preservar a propriedade intelectual das companhias).

Entre os clientes, também estão outras grandes empresas, como a loja online de artigos esportivos Netshoes, a seguradora Mapfre, o banco Itaú, a química Dow e a Natura. Cada batalha custa em torno de 50 mil reais para a empresa contratante, valor que inclui o prêmio em dinheiro oferecido aos estudantes e também a remuneração da BoC. O preço varia de acordo com a complexidade do projeto e o tempo que a batalha fica no ar. A BoC não revela seu faturamento nem o investimento inicial.

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As universidades com melhor pontuação no site – aquelas cujos alunos venceram mais batalhas – são, em ordem decrescente, USP, Mackenzie e ESPM. O grupo estudantil melhor classificado é a Agência de Comunicações ECA Jr., da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Desde a abertura da BoC, já foram distribuídos quase 600 mil reais em prêmios. Há cerca de 23 mil alunos (de 500 universidades) cadastrados no site.

Além de manter a plataforma de inovação aberta, a BoC também organiza batalhas internas para os mesmos clientes, as grandes empresas. “Nossos dois tipos de serviços têm razão de existir. Para muitos negócios, buscar ideias fora é uma maneira de inovar sem sobrecarregar a equipe. Para outros, criar uma batalha interna é uma forma de envolver todos os funcionários de todas as áreas no processo de inovação e, assim, torná-los mais motivados”, conta Rita.

Um exemplo de batalha interna foi a organizada para os postos de combustíveis Ipiranga. A BoC criou um hotsite onde os frentistas podiam sugerir melhorias nos postos. “A navegação era super simples, o hotsite era muito parecido com o nosso. Recebemos mais de 1 200 ideias. Muitos desses funcionários disseram que ficaram felizes por ter um canal de comunicação direto com a diretoria da empresa”, diz Rita. “A intenção da batalha era essa, a de engajar os frentistas.” Ao final dessas batalhas, a BoC sempre organiza uma cerimônia de premiação para os melhores colocados.

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A ideia do Battle of Concepts

A empresa foi fundada pelo holandês Hans van Hellemondt, de 81 anos, em 2009. Na época, ele morava no Brasil há quase três décadas – mudara-se para cá para ocupar o cargo de presidente da Sears, rede de lojas de departamentos americana, quando a empresa ainda tinha uma operação brasileira. Hans, aposentado há vários anos, soube que as chamadas “batalhas de conceitos” estavam fazendo sucesso na Holanda e decidiu trazê-las para o país. Os primeiros clientes da BoC, inclusive, foram holandeses – a companhia de produtos eletrônicos de consumo Philips e a empresa de armazenamento Vopak.

Durante três anos, a Battle of Concepts ficou instalada no escritório da consultoria de tecnologia TerraForum (que foi comprada pela desenvolvedora de softwares argentina Globant em 2012) por causa de uma parceria. “A TerraForum adotou a BoC, foi quase como um processo de incubação”, diz Rita. “O presidente, José Cláudio Terra, gostou muito do projeto e ofereceu, além da hospedagem, os recursos de TI, design e RH da consultoria.”

Foi nessa época que Rita entrou na empresa. Ela era estudante de Administração na PUC-SP e estagiária da TerraForum, onde seu trabalho era cuidar da BoC. “Acabei me apaixonando pelo projeto. Como em muitos negócios pequenos, as pessoas entravam e saiam sempre, mas eu continuei lá e fui acumulando conhecimento”, conta.

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Há seis meses, Hans a convidou para ser sócia e ela aceitou, sendo quem toca a operação agora. Para Rita, foi desafiador assumir o dia-a-dia da Battle of Concepts. “Aprendo muito na prática, com os acertos e erros, é engrandecedor.” Rita acredita que uma batalha bem feita pode trazer três benefícios para as empresas: inovação, atração de talentos e posicionamento da marca como inovadora: “Hoje, é tão importante para um negócio se mostrar como inovador quanto ser inovador de fato. Investidores, funcionários, futuros funcionários, fornecedores e clientes precisam saber o que a empresa está fazendo de diferente”

Para promover a própria marca, a Battle of Concepts organiza workshops em universidades. Nesses encontros, juntam um grupo de estudantes e pedem para eles resolverem um desafio proposto na hora. Parte da divulgação também é feita por um grupo de 27 estudantes, um de cada estado do país. “Eles são nossos embaixadores, convidam colegas para conhecer o site, fazem posts sobre as batalhas”, conta Rita.

A BoC, agora com pouco mais de seis anos, ainda tem muito a crescer, de acordo com Rita. “Quando entrei na empresa, fazia reuniões com clientes que nem tinham área de inovação. Hoje, isso quase não acontece mais. As empresas estão começando a pensar em inovação de uma maneira mais estratégica e isso é muito bom para nós.”

Este artigo foi originalmente publicado em DRAFT 

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