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jovem de calça verde subindo escadas

Todo lugar onde nos desenvolvemos um dia se torna pequeno

Por Rafael Carvalho

Daniel Motta, colunista do Na Prática, reflete sobre a dualidade humana entre a preferência por estabilidade e o nosso anseio por desenvolvimento

Era uma vez você… Celebrando sua vitória, multiplicando suas células, após o encontro dos 23 cromossomos de seu pai com os 23 cromossomos de sua mãe. Em muito breve, você recebia dose hormonal suficiente de gonadotrofina coriônica, para contínua produção de estrogênio e progesterona durante seu processo de desenvolvimento fetal. A vida seguia tranquila dentro da placenta materna. Até o terrível o dia do seu nascimento para o mundo externo.

Digo terrível porque, embora você não se lembre, esse não foi um dia muito agradável para você. Seus pais e familiares provavelmente estavam ansiosos por sua chegada, mas você estava alheio a essa comoção pois, afinal, já havia chegado desde o primeiro encontro cromossômico. O estouro da placenta de sua mãe foi sua primeira experiência com o avassalador processo de rompimento com um lugar que se apequenou rumo a um novo lugar amplo. Desde então, vários outros – alguns certamente você conscientemente não se recorda – sucederam-se até hoje, e outros tantos ainda ocorrerão ao longo de sua jornada nesse planeta.

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Trata-se de um processo psicológico inexorável: o conflito entre a preferência pela estabilidade versus o desejo pelo desenvolvimento. Entregar-se às contrações de um lugar que se tornou pequeno rumo ao lugar amplo é mesmo um processo mágico! Entretanto, enquanto movimentos graduais podem até ser bem-vindos, grandes rupturas resultam em ambiguidades, incertezas e desequilíbrios emocionais.

Permanecemos inconscientemente incapacitados sobre muitas coisas até o momento que nos descobrimos conscientemente incapacitados sobre algumas delas. Não é uma situação agradável nos percebermos incapazes de algo, ainda mais quando são outros que nos demonstram nossa incompetência.

Muitos preferirão retornar conformados ao lugar pequeno por insegurança, inaptidão ou falta de vontade. Alguns se empenharão em superar obstáculos para se tornarem inicialmente conscientemente capacitados (estágio onde dedicamos ainda muita atenção e energia para realizar algo que não nos é natural) para finalmente se consolidaram como inconscientemente capacitados em algo novo. Essa é a magia do desenvolvimento humano. E você já viveu tantas vezes esse processo.

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No ambiente organizacional, entendido aqui em seus fenômenos grupais manifestados por indivíduos, o mesmo processo dramático se apresenta: restringir-se à restrita zona de conforto atual ou trilhar um novo caminho de desenvolvimento?

Defino cultura organizacional como a combinação do mapa mental coletivo (crenças e valores individuais/grupais) e do modo de operação e interação grupal (normas que regulam comportamentos), influenciando certamente as dimensões de estratégia e estrutura.

Empresas longevas inevitavelmente desenvolvem crenças cristalizadas a partir do processo adaptativo natural daquilo que é reforçado porque deu certo em detrimento daquilo que é abandonado porque deu errado. Ao longo do tempo, as pessoas apenas se reconhecem em uma certa norma grupal inconsciente, filtram seu olhar externo, tornam-se arrogantes, são avessas ao risco e resistem fortemente a qualquer ameaça a essa ordem natural das coisas.

Processos de transformação organizacional exigem necessariamente um movimento de construção social liderado por uma coalizão de lideranças a partir de um propósito inspirador. Assim, a transformação organizacional está necessariamente ancorada em dois movimentos complementares: aprendizagem e pactuação.

A dinâmica de aprendizagem requer ciclos contínuos de diálogo, reflexão, experimentação e incorporação. A pactuação requer rituais coletivos e ações de comunicação. Combinados, esses movimentos resultam em alinhamento, mobilização e compromisso das lideranças e das equipes com o novo propósito. Em outras palavras, compreender que “excelência é um alvo móvel” é o ponto de partida para o primeiro passo rumo a um processo contínuo de desenvolvimento humano, grupal, organizacional e social.

 


Daniel Augusto Motta, colunista do Na Prática, é PhD em Economia pela Universidade de São Paulo (USP) e mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV-EAESP). Ele é fundador e CEO do BMI Brazilian Management Institute, uma consultoria de nicho baseada em São Paulo. Já lecionou na Thunderbird School of Global Management, FGV, Insper, PUC-SP e ESPM. Hoje é professor do MBA da Fundação Dom Cabral. Possui artigos publicados nos jornais Valor Econômico, Folha de São Paulo, e Harvard Business Review Brasil, e é autor do livro A Liderança Essencial.

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