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Barack Obama falando no telefone

Por que Barack Obama quer trabalhar no Vale do Silício?

Por Rafael Carvalho

A apenas alguns meses de deixar o seu posto na Casa Branca (e a liderança de uma das maiores potências mundiais!), Barack Obama começa a dar sinais do rumo que dará a sua carreira depois de oito anos como presidente

Em pouco tempo, a família Obama vai fazer as malas e deixar a residência oficial da presidência americana. Como bom comediante que é, Barack Obama tem aproveitado as chances para falar da situação. “Talvez você tenha escutado que alguém pulou a cerca da Casa Branca semana passada, mas preciso dar crédito ao Serviço Secreto – eles encontraram a Michelle, a trouxeram de volta e agora ela está em casa”, brincou recentemente. “Faltam poucos meses, querida.”

A transição da presidência para a vida civil é um dos aspectos mais fascinantes para cidadãos americanos, e o futuro de Obama, um advogado apaixonado por tecnologia e inovação, tem suscitado um interesse especial no Vale do Silício, na Califórnia (um dos maiores polos tecnológicos do mundo com uma cultura altamente empreendedora, sobre a qual o portal Na Prática já escreveu anteriormente). 

Tudo graças à entrevista da revista Bloomberg Businessweek, em que o presidente falou brevemente sobre seus possíveis planos: “As conversas que tenho com pessoas do Vale do Silício e de venture capital [capital de risco] unem meus interesses por ciências e empresas de maneira muito satisfatória.”

Ele aproveitou para elencar suas qualificações. “Acho que as habilidades que começaram minhas campanhas presidenciais – e que construíram os tipos de equipe que construímos e as ideias de marketing – seriam as mesmas que eu gostaria de continuar usando no setor privado.”

Não é a primeira vez que ele se empolga. Em um discurso no White House Demo Day, evento na Casa Branca que reuniu 32 startups, fez elogios à indústria. “Ideias podem vir de qualquer um e mover o mundo”, disse. “E mantenham em mente que, em 18 meses, vou precisar de um emprego.”

Cotidiano Após a entrevista, os venture capitalists, mais conhecidos como VCs, imediatamente se animaram. Afinal, quem não quer alguém pragmático, dono de uma enorme rede de contatos e muita experiência com análise rápida de informações em seu time de investimentos?

A rotina de um VC consiste em ouvir pitches de empreendedores – que costumam visitar diversos escritórios em suas rodadas de investimentos –, avaliar seu potencial e, caso haja interesse, precificá-lo no papel. Trata-se da “evaluation”, ou avaliação, do valor da empresa.

Leia também: A cultura do Vale do Silício explicada por quem vive lá

Com base nela, um valor é ofertado e, se tudo der certo, contratos são assinados. Os investidores passam então a acompanhar o desenvolvimento da empresa, sugerindo (ou exigindo) mudanças e melhorias de acordo com os termos estipulados.

Quando a startup é disputada, a batalha pelo melhor investimento pode resultar em valores incrivelmente altos. O primeiro episódio da série “Silicon Valley” é um ótimo exemplo.

Na luta pela mesma tecnologia, dois investidores rivais vão escalando suas ofertas. Em poucos minutos, um deles oferece US$ 10 milhões para adquirir a empresa. O outro, um VC, oferece US$ 200 mil por 5%. O empreendedor, surpreso, não sabe o que fazer e foge.

Apesar de parecer surreal, o seriado é considerado o melhor sobre o Vale do Silício até hoje, inclusive por quem trabalha lá. Os próprios roteiristas, no entanto, já disseram que o mundo real às vezes ultrapassa a ficção quando se trata dos malabarismos do capital de risco – e que se tudo fosse parar na televisão, espectadores não iriam nem achar factível.

Bilhões e bilhões No jargão do Vale, um unicórnio é uma empresa de capital fechado avaliada em pelo menos US$ 1 bilhão. Houve um momento em que uma companhia do tipo era vista como mítica – daí o nome.

De acordo com a CB Insights, que pesquisa fundos de capital de risco e mantém uma lista atualizada, este clube hoje tem 169 membros. Em conjunto, eles valem US$ 609 bilhões.

Por ali estão algumas figuras conhecidas, como Uber (US$ 62,5 bilhões), AirBnb (US$ 25,5 bilhões), Snapchat (US$ 16 bilhões) e Buzzfeed (US$ 1,5 bilhão). Os números são tão altos que quem vale mais de US$ 10 bilhões ganhou até um novo nome, “decacorn”, um unicórnio de dez chifres.

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A festança do Vale do Silício, no entanto, parece estar encolhendo. No primeiro semestre de 2016, por exemplo, VCs investiram um total de US$ 9,3 bilhões. No semestre anterior, foram US$ 17,6 bilhões.

Especialistas dizem que é um reflexo de anos de excessos de escritórios de venture capitals e de pouco crescimento por parte das startups, que agora correm contra o tempo para ajustar suas finanças antes de falirem.

Como captar investimentos em novas rodadas está muito difícil, o dinheiro em caixa, chamado de “runway”, precisa render muito mais em termos de desenvolvimento. E para impressionar investidores, as startups precisam começar a apresentar crescimento sustentável – algo pouco crucial há alguns anos, quando reinava a fartura.

Em uma carta aberta, o investidor Bill Gurley diz que o próprio crescimento do número de unicórnios é culpado pela ressaca. Ao fim e ao cabo, escreveu, é simplesmente dinheiro demais no sistema.

“O capital excessivo levou a taxas recordes de gastos; à maior parte das empresas operar bem longe da rentabilidade; à competição excessivamente intensa por acesso ao capital; à liquidez atrasada ou não-existente para funcionários e investidores”, disse. “A coisa mais saudável que pode acontecer é um crescimento dramático do custo real do capital e um retorno ao apreço pela boa execução de negócios.”

No longo prazo, especialistas apostam no resultado positivo. O Vale do Silício seguirá inovando e sobreviverão as empresas de maior qualidade, com melhores modelos de negócios e, quem sabe, algumas que conquistaram a atenção de um ex-presidente dos Estados Unidos.


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