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Private Equity: o que é e qual é o perfil do profissional

Por Cecília Araújo

Segundo especialista em finanças, setor demanda profissionais com perfil analítico, habilidades comerciais e espírito empreendedor

O que companhias tão diferentes como o e-commerce Submarino, a empresa aérea GOL e o portal de notícias UOL têm em comum? O forte crescimento que essas marcas tiveram nos últimos anos está ligado a uma atividade financeira conhecida como private equity – o que em linhas gerais significa que uma fatia das empresas foi adquirida por uma gestora, que se torna sócia do negócio com o objetivo de alavancar seus resultados de forma a incrementar seu valor.

Quando a gestora passa adiante sua parte na sociedade, lucra com o resultado e a valorização da companhia.

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Outros grandes nomes que receberam investimentos de fundos de private equity estão a gigante da beleza Natura, a locadora de veículos Localiza e a ALL (América Latina Logística), a maior operadora logística com base ferroviária na região.

Exemplos como esses mostram que, mesmo longe de ser um país com longa tradição no private equity, o Brasil vem se consolidando nesse setor.

As estatísticas corroboram: em 2005 havia no país 71 organizações gestoras com não mais que US$ 6 bilhões em veículos de investimento (0,7% do PIB), de acordo com o Censo Brasileiro de Private Equity e Venture Capital.

Ao fim de 2009, já eram 144 organizações que administravam US$ 36,1 bilhões, ou 2,3% do PIB. Essa é uma ótima notícia para jovens profissionais que desejam ingressar nesse mercado: o Brasil está em evidência.

Leia também: Entenda a indústria de private equity e venture capital no Brasil

O que é private equity

Para entender melhor qual o perfil do profissional que atua em private equity, é importante entender um pouco mais sobre esse setor.

Trata-se de um tipo de investimento que envolve a participação em empresas com alto potencial de crescimento e rentabilidade com o objetivo de obter ganhos expressivos de capital a médio e longo prazo.

O private equity está ligado a empresas mais maduras, em fase de reestruturação, consolidação e/ou expansão de seus negócios.

A essência do investimento está em compartilhar os riscos do negócio, selando uma união de esforços entre gestores e investidores para agregar valor à empresa investida.

De acordo com o Censo Brasileiro, em 2009, as empresas gestoras de private equity empregavam quase 1.600 profissionais, sendo que dois terços deles possuíam formação superior. Em geral, são recrutados em cursos de Ciências Econômicas Aplicadas.

No vídeo abaixo, Florian Bartunek, sócio-fundador e Chief Investment Officer da Constellation Investimentos, fala sobre as possibilidades de carreira dentro do mercado financeiro:

Perfil de profissionais do setor

“Entre as características solicitadas pelos mercados estão perfil analítico com habilidades comerciais, proatividade e fortes habilidades de comunicação”, explica a especialista Susan Hawkins, que dá aulas para qualificações profissionais internacionais em finanças, contabilidade e valuation na SH Professional Training, empresa da qual é fundadora.

Uma vez que o private equity significa investimento – e de alto risco – é importante para o profissional saber como avaliar um investimento potencial, ou seja, os princípios de business valuation são importantes.

Deve-se, também, saber ou aprender modelagem financeira e ter conhecimento aprofundado em contabilidade e finanças.

“Além disso, é bem visto que se tenha qualificação profissional ou esteja em busca de uma certificação internacional como o Chartered Financial Analyst Qualification (CFA), por exemplo, perseguida por profissionais do mercado financeiro”, destaca Susan.

Segundo a especialista, de forma geral, em seu cotidiano um profissional de private equity deverá, primeiramente, especializar-se em uma indústria ou setor.

“A partir daí, identificar investimentos potenciais, analisar riscos e retornos, escolher, monitorar e controlar esses investimentos, de forma a garantir os retornos projetados”, acrescenta.

Isso envolve uma série de atividades cotidianas, tais como: revisar memorandos de investimento sobre o processo de venda  ou oportunidade de investimento; realizar modelos financeiros para entender retornos potenciais do investimento; realizar due diligence (um conjunto de atos investigativos que devem ser realizados antes de uma operação empresarial); preparar memorandos internos, entre outras atividades.

Leia também: A experiência de mulheres no mundo do private equity

Quem os fundos de private equity buscam

Profissionais preparados para atuar em ambientes pouco estruturados, com foco em gestão de caixa, capacidade de entregar resultados, assumir riscos e entender a lógica do capital empreendedor – esse é o resultado de uma pesquisa nacional realizada em 2009 para entender o que buscam a empresas de private equity.

Segundo os realizadores do levantamento, as companhias do segmento – no Brasil, as gestoras com maior volume de investimento no mercado de private equity são Advent e GP Investments – demandam profissionais com sólidos conhecimentos de gestão, mas com capacidade empreendedora altíssima.

A mesma pesquisa reforça a perspectiva de que esse é um mercado aquecido no Brasil: a maioria dos entrevistados acreditava àquela época em uma expansão do setor no país, com mais oportunidades de emprego e maiores salários.

Outra pesquisa, essa realizada em 2011 por uma consultoria, traz mais boas-novas para quem deseja ingressar nesse mercado: há um gargalo de profissionais no Brasil causado pela ampliação do setor e pela chegada de fundos estrangeiros.

Além de fazer crescer o mercado para quem deseja ingressar nele, a escassez de mão de obra qualificada traz outro benefício: um consequente incremento na remuneração desses profissionais.

Segundo o levantamento de um analista, por exemplo, pode-se ter um salário mensal médio que varia de R$ 7 mil a R$ 12 mil, mais bônus anuais de R$ 80 mil a R$ 150 mil. Já um diretor pode receber, em média, um salário de R$ 28 mil a R$ 35 mil, além de bônus anuais da ordem de R$ 420 mil a R$ 525 mil.

A rotina de profissionais de private equity

Quer saber como é a rotina de trabalho na área?

O NaPrática.org conversou com profissionais de dois fundos de private equity: o Darby Private Equity, multinacional que investe em mercados emergentes, e Gávea Investimentos, um fundo brasileiro focado em educação

Ana Fontes, vice-presidente sênior na Darby Private Equity

O primeiro contato de Ana com o mercado financeiro foi um estágio na Brookfield Asset Management, quando ela ainda estudava Engenharia de Produção na Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 1998. A experiência foi tão boa que ela ficou por lá até 2007, mesmo ano em que entrou na Darby Private Equity.

Ana Fontes, vice-presidente sênior na Darby Private Equity

1. Como é seu dia a dia de trabalho?

Uma parte do tempo é externa e dedicada a conhecer empresas e agentes de setores que nos interessam e ao relacionamento com nossas investidas. Outra parte é interna e dedicada às análises financeira e estratégica e discussões com colegas.

Um aspecto não tão divertido mas que faz parte é o fato de que estamos normalmente trabalhando dentro de um ambiente sujeito à regulação de diversos países (do Brasil, da sede da empresa, dos nossos clientes). Processos e documentação consomem tempo.

2. O que é mais legal em relação a private equity?

É planejar e construir: poder usar todo um ferramental técnico mas ao mesmo tempo executar o planejamento. Viver com seus resultados, erros e acertos e, no final, o sucesso significar que valor foi criado.

3. Qual foi o melhor conselho profissional que recebeu?

Umas das pessoas que me entrevistou antes que eu entrasse na Darby, há quase 10 anos, foi um veterano da indústria e uma das primeiras pessoas a fazer private equity na América Latina.

Ele aplicou uma espécie de “case” e perguntou no que eu investiria e o porquê. A pergunta era esperada e já fazia parte da minha preparação. A resposta foi detalhada e, acredito, estruturada também.

Ao final, ele me disse: “Você parece uma professora de matemática. Esqueceu das pessoas e as pessoas são importantes para os negócios.” Acredito que isso se aplica tanto na análise de investimentos quanto no dia a dia do trabalho.

4. Que conselhos daria para os jovens que querem ter uma carreira de sucesso em private equity?

Como a base analítica do trabalho é fundamental, a formação acadêmica em exatas precisa ser sólida. As exceções existem, mas são raras.

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Leonardo Prado Damião, analista da Gávea Investimentos

Economista formado pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Leonardo descobriu o mercado financeiro em Paris, quando fazia um intercâmbio na Science Po.

Através da rede da Líderes Estudar da Fundação Estudar, o então bolsista recebeu um convite para estagiar no Gera Investimentos, fundo de private equity e venture capital brasileiro 100% focado em educação e onde trabalhou por um ano e meio.

Desde 2014, é analista de private equity na Gávea Investimentos.

Leonardo Damião, analista de private equity do Gávea Investimentos

1. Como é seu dia a dia de trabalho?

Como um analista é responsável por diversas empresas e cada empresa está vivendo um momento diferente, nós podemos viver todas as etapas do ciclo de investimento ao mesmo tempo – não existe uma rotina.

Um dia você está pensando em uma tese de investimento e, no outro, negociando acordos de acionistas e contratos de compra e venda.

Ou então está conduzindo um time de auditores contábeis, advogados e consultores num processo de diligência, modelando o plano de negócios da empresa, estruturando um IPO ou venda ou um pouquinho de tudo.

São infinitas combinações e que criam um dinamismo muito legal para a profissão.

2. O que é mais legal em relação a private equity?

A exposição às melhores cabeças do mundo empresarial: executivos de grande empresas e empresas de auditoria, escritórios de advocacia de ponta, consultores estratégicos, acionistas e analistas de outros fundos…

Isso permite que você, ainda muito jovem, aprenda as melhores práticas de diversas áreas que permeiam o mundo empresarial e adicione diversas competências técnicas a sua caixa de ferramentas.

Na Gávea, fico muito feliz em poder trabalhar com pessoas que considero brilhantes e que são referências para mim.

3. Qual foi o melhor conselho profissional que já recebeu?

“What you see is all there is” [o que você vê é o que tem, em português]. Ou seja, seja sempre humilde e tenha a consciência de que você não sabe muita coisa.

Outro é “você jamais terá controle sobre o resultado, mas trabalhe para ter o conforto de saber que o processo foi conduzido da melhor maneira possível com as informações disponíveis naquele momento”.

4. Que conselhos daria para os jovens que querem ter uma carreira de sucesso em private equity?

Seja dedicado, curioso, diligente, resiliente, humilde e honesto intelectualmente – este último é o mais importante, na minha opinião. Acho que isso vale para qualquer profissão.

Susan Hawkins é fundadora da SHP Training, empresa que oferece cursos presenciais e online, aulas particulares e materiais para qualificações profissionais internacionais nas áreas de finanças, contabilidade e valuation, incluindo os exames do CFA (Chartered Financial Analyst). Antes disso, ela passou pela EY (Ernst & Young) e pelo Bank of England, trabalhando com valuation de empresas e planos de contingência para instituições financeiras em dificuldades.

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